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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na Guatemala, vulcão é algo tão corriqueiro que vira até forno de pizza

Erupção no vulcão Pacaya, na Guatemala - Getty Images/iStockphoto
Erupção no vulcão Pacaya, na Guatemala
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Felipe van Deursen

Felipe van Deursen é jornalista de história. Autor do livro 3 Mil Anos de Guerra (Ed. Abril), foi editor da Superinteressante e da Mundo Estranho e também escreve sobre o mundo das bebidas em Nossa.

Colunista do UOL

07/11/2021 04h00

14º23'N, 90º36'O
Vulcão Pacaya
San Vicente Pacaya, Escuintla, Guatemala

O Pacaya está ativo há 60 anos, o que significa que, para pelo menos duas gerações de guatemaltecos que moram em seu entorno, a lava e as cinzas vulcânicas fazem parte do dia a dia. Mas a erupção de 2010 teve algo de especial e rendeu causos interessantes, desses de deixar os fãs de histórias de empreendedorismo para lá de excitados.

Aquela ocasião inspirou o surgimento de uma corrida de aventura que percorre os campos que foram cobertos pela lava. Foi lançada pela Impact Marathon, que vende experiências a quem está a fim de gastar seus tênis em belas paisagens e ajudar comunidades locais. A partir de US$ 991 você pode participar da edição 2022 da Guatemala (se preferir, tem Nepal, Quênia, Jordânia…). O transporte aéreo não está incluso, caso pergunte.

Vulcão Pacaya, na Guatemala - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vulcão Pacaya, na Guatemala
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Já Mario David García Mansilla toca um negócio mais simples. Ele e dois funcionários trabalham em uma pizzaria móvel, que funciona onde quer que o Pacaya esteja quente o suficiente para funcionar como um forno.

A erupção que começou em 27 de março de 2010, seguida de diversos tremores de terra, foi mais séria que as anteriores. Entidades de segurança emitiram alerta vermelho e determinaram a evacuação de vilas. O então presidente, Álvaro Colom, decretou estado de calamidade. Um dos primeiros repórteres a chegar ao local acabou morrendo.

Vulcão Pacaya, na Guatemala - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vulcão Pacaya, na Guatemala
Imagem: Getty Images/iStockphoto

García morava em San Vicente Pacaya, uma das 21 vilas ao redor do vulcão. Acostumado a viver sob sua influência, ele não fugiu. Em vez disso, foi ver de perto o que estava pegando. Já tinha visto guias de turismo oferecerem marshmallow para os visitantes assarem no calor das pedras. Então a ideia genial pingou na cabeça de García: por que não fazer um frango assado aqui?

Beleza, logo ele percebeu a ideia não era tão incrível assim. Subir a montanha com os frangos, além dos acompanhamentos, daria trabalho demais. Então, segundo seu relato ao site "Atlas Obscura", ele viu que a lava formava buracos no terreno que poderiam — por que não? —funcionar como fornos de pizza.

Esses fornos surgem quando a lava densa e viscosa forma estruturas que contêm gases. Quando esses gases tentam escapar, formam bolhas que, se não estourarem, vão se solidificar.

Garcia passou anos desenvolvendo sua técnica de pizzaiolo vulcânico. Torrou diversas redondas no calor excessivo até conseguir trabalhar direito com os humores das pedras incandescentes. Em 2019, inaugurou sua empresa.

Devidamente paramentado com equipamento de proteção, ele sobe o vulcão quase todo dia e assa pizzas para clientes que fazem reserva. Usar o calor da erupção para fins culinários é uma prática antiga, mas García é dos primeiros a fazer disso um negócio (eu falei que era uma história para a turminha empreendedora).

Agora, comer uma pizza de García é mais uma das experiências disponíveis para quem se aventura pelo Pacaya, que em 2021 seguiu à toda. Em março, ele expelia blocos a 800 metros acima da cratera, envoltos em uma coluna de fumaça e cinzas que atingia 5.500 metros, praticamente o dobro da altitude do vulcão. Tanta atividade acabou paralisando o país, mas depois o Pacaya deu uma acalmada.

Em breve, o primeiro navio de cruzeiro iniciará a temporada da retomada do turismo, após mais de um ano de suspensão por causa da pandemia. A Guatemala aguarda 55 mil estrangeiros em 48 cruzeiros, segundo a agência de notícias EFE. É uma das grandes receitas da indústria do turismo do país.

Das vantagens de um país banhado por dois mares: há roteiros bem distintos para quem chega pelo Caribe ou pelo Pacífico. Se do lado caribenho ficam destinos como Tikal, no pedaço pacífico estão a Antiga Guatemala, o lago de Atitlán e o Pacaya, todos acessíveis nos passeios superficiais de bate-volta típicos dos cruzeiros. Para essa turma, em geral menos dada a aventuras, talvez não sobre tempo para descobrir a pizza vulcânica.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL