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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Jovem capitã comanda um dos maiores barcos de defesa dos oceanos do mundo

Sea Shepherd/Divulgação
Imagem: Sea Shepherd/Divulgação
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

21/05/2022 04h00

Duas coisas chamam especial atenção nesta jovem, nascida na Espanha.

Uma é que, a despeito de ter apenas 29 anos de idade, ela é capitã de um dos maiores, mais modernos e mais representativos barcos de defesa dos oceanos do mundo — uma das mais jovens comandantes de embarcações de longo curso do universo marítimo.

Outra — e ainda mais interessante — é que ela tem o mar até no próprio nome.

Sea Shepherd - Sea Shepherd/Divulgação - Sea Shepherd/Divulgação
Imagem: Sea Shepherd/Divulgação

Mar Casariego (sim, ela se chama Mar...) nasceu em um farol de uma ilha espanhola, onde seu pai e seu avô trabalhavam com faroleiros — e veio deles a ideia de batizá-la com um nome que, literalmente, sempre girou em torno da família.

"Não conheço outra pessoa chamada Mar", reconhece a jovem capitã. "Só eu mesmo".

Gosto do meu nome, porque, desde pequena, o mar sempre esteve no meu sangue. Aprendi a navegar antes mesmo de andar"

Machismo ainda incomoda

Ser uma jovem comandante e ter um nome incomum (embora totalmente pertinente ao que ela faz) sempre causam surpresa nas pessoas — e Mar já está acostumada a isso.

Sea Shepherd - Sea Shepherd/Divulgação - Sea Shepherd/Divulgação
Imagem: Sea Shepherd/Divulgação

Mas, duas outras coisas ligadas à sua profissão ainda lhe incomodam bastante: ser menosprezada pela maioria dos homens do mundo marítimo, e virar atração só porque é uma mulher no comando de um barco.

"Eu preferia estar dando esta entrevista porque sou uma capitã e não porque sou uma jovem mulher comandante", diz, com extrema franqueza - como lhe é de hábito -, Mar Casariego.

"Já cansei de ver marinheiros e práticos de portos subirem a bordo de meu barco e se dirigirem ao meu Primeiro Oficial, como se ele fosse o comandante, apenas por ser homem", diz.

Ninguém deveria deduzir nada apenas pela aparência das pessoas"

Esperam que ela falhe

No comando de um barco, função que desempenha há mais de três anos, Mar também já aprendeu que, por ser mulher, precisa se esmerar ainda mais nas manobras e decisões que toma — especialmente quando assume o comando à frente de uma nova tripulação.

"As duas primeiras semanas são fundamentais para eu ganhar a confiança da equipe", diz.

"Por ser mulher, e jovem, o esperado é que eu falhe em algum momento na condução do barco. E, se isso acontecer, ficará marcado para sempre na memória das pessoas. Erros de capitães homens são esquecidos bem mais rapidamente", diz Mar, sem, no entanto, mágoas.

"Já estou habituada a esta situação e, felizmente, sempre conquisto a confiança da tripulação".

Sea Shepherd - Sea Shepherd/Divulgação - Sea Shepherd/Divulgação
Imagem: Sea Shepherd/Divulgação

E é fundamental que isso aconteça, porque o que ela e seus companheiros de embarcação fazem exige, acima de tudo, coragem e determinação.

Do escritório para o mar

Mar Casariego, que estudou advocacia, com especialização em direitos humanos, antes de mudar radicalmente de vida e rumar também para o mar, tal qual sua família, trabalha (mas sem salário, apenas uma ajuda de custo) para a entidade ambientalista Sea Shepherd, "Pastor do Mar", em uma tradução literal, já que a missão da entidade é proteger os oceanos.

Abandonou a advocacia quando percebeu que, em um escritório, pouco poderia fazer para ajudar o mundo, e decidiu entrar para a Sea Shepherd sete anos atrás, após passar uma temporada trabalhando como tripulante de iates particulares — onde sua função chegou a ser classificada como a de apenas "deixar o barco mais bonito".

Sea Shepherd - Sea Shepherd/Divulgação - Sea Shepherd/Divulgação
Imagem: Sea Shepherd/Divulgação

Na Sea Shepherd, uma das entidades ambientalistas mais aguerridas do mundo (seu símbolo lembra o dos antigos navios de piratas), Mar encontrou o que buscava: ações práticas e efetivas em defesa do meio ambiente.
Especialmente o mar, que sempre fez parte de sua vida.

A começar pelo seu próprio nome...

Canhão contra os infratores

Hoje, no comando do mais novo dos dez barcos da Sea Shepherd, o Ocean Warrior ("Guerreiro do Oceano", o que também define bem o objetivo da embarcação e das pessoas que nele atuam — quase todas tão jovens e engajadas na defesa dos mares quanto a própria capitã espanhola), Mar Casariego passa o ano inteiro navegando, a fim de proteger a vida marinha e ajudar os governos de países menos favorecidos na fiscalização do seu mar territorial.

"Não somos polícia, mas ajudamos as autoridades dos países na fiscalização marinha. Quando vemos algo ilegal acontecendo, como, por exemplo, barcos pescando ilegalmente, tratamos de detê-los, até que a polícia chegue. E isso, às vezes, implica em tomar medidas efetivas de ação", explica.

Sea Shepherd - Sea Shepherd/Divulgação - Sea Shepherd/Divulgação
Imagem: Sea Shepherd/Divulgação

"Uma delas é usar o canhão de água que existe em nosso barco. Ele dispara jatos fortíssimos, que impedem o outro barco de manobrar direito, e detém os infratores, até que a Marinha chegue", explica a jovem capitã, defensora incondicional do meio ambiente marinho, a exemplo der todos os integrantes da Sea Shepherd.

Acredita no que faz

"O que mais me agrada na Sea Shepherd é que todos os seus membros pensam igual, não importa de onde cada um veio", diz Mar Casariego.

"No barco que eu comando, somos 15 pessoas de 11 países e culturas diferentes, e todos acreditamos que o que fazemos realmente ajuda a salvar os mares do mundo, seja combatendo a pesca ilegal industrial, ou apenas parando para recolher sacos plásticos na água ou desvensilhar uma tartaruga presa em uma rede de pesca".

Não somos ingênuos. Sabemos que uma só pessoa não pode mudar o mundo. Mas sabemos que se não mudarmos nossos pequenos mundos, não haverá mudança alguma"

E completa:

"Quando vejo pessoas das mais diferentes origens trabalhando voluntariamente na defesa do mar, como acontece nos barcos da Sea Shepherd, fico confiante de que, sim, é possível mudar o mundo para melhor. Basta não se conformar e aceitar passivamente o que está errado", diz.

O pior dos problemas

Para Mar Casariego, o principal problema dos mares do mundo atualmente não é nem a poluição ou os resíduos plásticos na água, mas sim a pesca ilegal — aquela que não respeita quantidades nem limites territoriais.

"Além de dizimar as espécies, porque captura muito mais peixes do que deveria, esse tipo de pesca também gera uma das piores formas de poluição marinha que existe: as redes fantasmas, aquelas que são perdidas ou descartadas pelos barcos no mar e seguem capturando seres marinhos para sempre", explica.

Não come peixe

Mar, que como todos os tripulantes do barco que comanda é vegana e não come nada que seja de origem animal, muito menos os peixes que tanto defende ("Não é preciso ser vegetariano para fazer parte da nossa tripulação, mas quem quiser atuar no barco saberá que só comerá vegetais", diz), também condena qualquer tipo de pesca excessiva, especialmente de seres marinhos cujas populações já estão ameaçadas pela pesca industrial, como os tubarões.

Defensora dos tubarões

"Por ano, cerca de 100 milhões de tubarões são capturados no mundo, o que é um absurdo, já que corresponde a quase metade da população do Brasil", exemplifica.

"A maioria das pessoas que come cação não sabe que está comendo tubarão, já o bicho é o mesmo, só muda o nome. Muito menos que não deveriam fazer isso, porque, por ser um animal do topo da cadeia alimentar marinha, sua carne acumula as toxinas de todos os outros seres dos quais ele se alimenta".

Comer cação faz mal, tanto para a população do animal, quanto para a saúde humana", explica.

Conflitos na pesca

Antes de passar pelo Brasil, no mês passado, Mar e sua equipe estiveram no Atlântico Sul, ajudando o governo da Argentina a combater a pesca ilegal de um tipo de lula muito apreciada pelos espanhóis e asiáticos, que só existe no alto mar da Patagônia, e que, há décadas, gera uma autêntica guerra entre a Armada Argentina, como é chamada a Marinha do país vizinho, e os pesqueiros infratores.

O embate já gerou até confrontos armados e o afundamento de pelo menos um barco pesqueiro, embora sob condições nunca totalmente explicadas (clique aqui para ler sobre este polêmico caso).

Lugar desconhecido

Nesse momento, a jovem e franzina — embora firme — capitã espanhola, cuja única vaidade são alguns anéis nos dedos das mãos, está em algum ponto do Atlântico, que nunca é revelado com antecedência.

Trata-se de uma estratégia, para não alertar os infratores.

"Ninguém nunca sabe para onde iremos", explica Mar Casariego, que também jamais revela a capacidade de navegação do barco que comanda.

Nossa autonomia no mar é secreta, porque é uma das melhores armas que temos para perseguir os barcos infratores"

A mais longa das perseguições

Não revelar a autonomia dos seus barcos é uma das artimanhas mais usadas pela Sea Shepherd.

E sempre traz resultados positivos.

No maior exemplo disso, oito anos atrás, dois barcos da entidade perseguiram um barco pesqueiro que estava na lista dos mais procurados do mundo durante impressionantes 110 dias consecutivos, até que aquela interminável perseguição culminou em uma ação surpreendente por parte dos infratores (clique aqui para também conhecer esta interessante história).

Na ocasião, Mar Casariego não estava no comando de nenhum dos dois barcos atuantes.

Mas garante que faria o mesmo.

Por serem gigantescos, as pessoas acham que os mares aguentam tudo, mas é justamente o contrário disso. Eles são frágeis e precisam de ajuda. O mar sempre faz parte da minha vida. Até no nome".