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Jamil Chade

Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Os 10 piores naufrágios do país: do Bateau Mouche ao 'Titanic brasileiro'

Em 1916, a tragédia com o "Titanic brasileiro" matou oficialmente 511 pessoas, mas eram comuns clandestinos nos navios, o que pode aumentar essa conta - Reprodução
Em 1916, a tragédia com o "Titanic brasileiro" matou oficialmente 511 pessoas, mas eram comuns clandestinos nos navios, o que pode aumentar essa conta
Imagem: Reprodução
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

05/03/2022 04h00

Com mais de 7 mil quilômetros de costas, sem falar em rios caudalosos, e passagem obrigatória de embarcações que se destinam a outros pontos do mundo, o Brasil, mesmo sendo banhado por um mar relativamente tranquilo, para os padrões da navegação mundial, já protagonizou muitos naufrágios, ao longo de sua história.

Estes aqui foram os 10 piores, em número de mortos. Confira.

Bahia e Pirapama
Colisão ou vingança?

Pirapama - Histórias do Mar - Reprodução/Antiguidades Casa do Velho - Reprodução/Antiguidades Casa do Velho
Imagem: Reprodução/Antiguidades Casa do Velho

O maior desastre da história da navegação brasileira de cabotagem, aquela que navega de porto em porto, aconteceu na noite de 24 de março de 1887, quando os vapores Pirapama e Bahia, que navegavam em sentidos opostos, colidiram de frente, no mar, entre Recife e João Pessoa. O primeiro, levava pouco mais de 100 pessoas e escapou ileso do acidente. Já o Bahia, que transportava o dobro de passageiros, não teve a mesma sorte e afundou em questão de minutos, gerando 52 vítimas fatais.

O inquérito que apurou o caso, concluiu que o acidente ocorreu porque os dois navios só desviaram quando já estavam muito próximos um do outro (por desatenção dos dois timoneiros ou porque ambos estivessem cochilando) e — pior ainda — para o mesmo lado. Na investigação, os dois comandantes trocaram tantas acusações que fomentaram uma lenda que ficou famosa no Nordeste: a de que não fora um acidente e sim uma vingança, já que o comandante do Bahia estaria apaixonado pela esposa do comandante do Pirapama. Pura invenção. Só a dupla negligência foi capaz de explicar tamanha absurda colisão.

Bateau Mouche IV
Tragédia na noite de Réveillon

Bateau Mouche - Histórias do Mar - Luis Carlos David/Folhapress - Luis Carlos David/Folhapress
Imagem: Luis Carlos David/Folhapress

Na noite de 31 de dezembro de 1988, último dia do ano, o Bateau Mouche IV, um antigo pesqueiro transformado em barco de recreio, que fazia passeios regulares nas águas do Rio de Janeiro, partiu para aquela que seria sua última viagem — e para boa parte dos seus passageiros, também.

Vítima de uma irresponsável reforma, que implantou um segundo deque, de concreto, na parte mais alta do casco, da superlotação de pessoas (fruto da venda de mais ingressos do que a embarcação comportava), do descaso das autoridades com a fiscalização e, por fim, do mau tempo naquela noite, o barco capotou, ao ser atingido por uma sequência de ondas, na saída da Baía de Guanabara, lançando parte dos seus ocupantes ao mar e trancando outros dentro do casco, enquanto afundava.

Não houve apenas um motivo para o naufrágio, mas vários. A macabra contabilidade daquela festa de Réveillon no mar foi de 55 mortos, entre as 147 pessoas que estavam no barco. Mesmo assim, ninguém foi punido como deveria. E o naufrágio do Bateau Mouche IV revelou outra tragédia brasileira: a da justiça.

Sobral Santos II
Vergonhosa impunidade

Sobral Santos - Histórias do Mar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Às três da manhã de 19 de setembro de 1981, o Sobral Santos II, uma típica "gaiola" amazônica, tipo de barco que transporta carga e pessoas, atracou no porto de Óbidos, no Pará, às margens do Rio Amazonas, para mais uma escala na viagem que vinha fazendo de Belém à Manaus. Estava abarrotado de carga má distribuída e isso fez com que ele perdesse estabilidade, ao receber mais mercadorias, e tombasse junto ao porto, levando para o fundo do rio um número jamais sabido de vítimas, já que não havia um controle do número de passageiros a bordo — muitos corpos foram levados pela correnteza e desapareceram para sempre.

Estima-se que tenham morrido quase 90 pessoas naquele episódio, que também ficou marcado pela impunidade. Nem o dono do barco foi responsabilizado e ainda recebeu o barco de volta — que, depois de reformado e rebatizado Cisne Branco, navega até hoje.

Vital de Oliveira
Abandonado pela escolta

Vital de Oliveira - Histórias do Mar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Na noite de 19 de julho de 1944, o Vital de Oliveira, navio da Marinha do Brasil, foi afundado pelo submarino alemão U-816 no litoral entre o Espírito Santo e Rio de Janeiro, gerando a morte de 151 dos seus 250 tripulantes — todos brasileiros. Apesar das dimensões da tragédia, ninguém ficou muito chocado, porque, em tempos de guerra, catástrofes assim já eram esperadas.

O que chocou mesmo foi a atitude do comandante do barco que deveria dar apoio ao Vital de Oliveira, o Javari, também da Marinha do Brasil, que além de não impedir o ataque, ainda seguiu em frente, deixando os sobreviventes sem nenhum socorro no mar — e este inexplicável comportamento nunca teve uma explicação convincente. Logo após o episódio, os oficiais do Javari foram transferidos para outras áreas da divisão e o caso caiu em um cômodo esquecimento. Ninguém foi punido no único naufrágio de um navio da Marinha do Brasil durante aquele conflito.

Novo Amapá
Também sem punição até hoje

Novo Amapá - Reprodução/Rede Amazônica - Reprodução/Rede Amazônica
Imagem: Reprodução/Rede Amazônica

Em 6 janeiro de 1981, o barco Novo Amapá, abarrotado com uma tonelada de carga e quatro vezes mais passageiros do que comportava, partiu do porto de Santana, no Amapá, com destino a outras cidades do estado. Mas nunca chegou lá. Pesado e superlotado, tombou e afundou no início daquela noite, no Rio Amazonas, gerando a maior tragédia da navegação amazônica até hoje.

Nunca se soube o número exato de vítimas do naufrágio, já que o número de pessoas que havia a bordo também jamais foi conhecido. Estima-se que eram cerca de 600 pessoas (embora o barco só tivesse capacidade para 150), e que 250 delas tenham morrido no acidente — inclusive um dos donos do barco, embora o seu sócio tenha sobrevivido, e, mais tarde, resgatado a embarcação, que voltou a navegar — o mesmo que aconteceu com outro barco do gênero, o Sobral Santos II, apenas oito meses depois, na mesma região. Até hoje, 41 anos depois, os familiares das vítimas ainda esperam por indenizações.

Kapunda
O desastre que poucos ficaram sabendo

Kapunda - Histórias do Mar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Na madrugada de 20 de janeiro de 1887, dois grandes barcos ingleses, o cargueiro Ada Melmore e o Kapunda, este transportando 313 passageiros da Inglaterra para a Austrália, colidiram no litoral sul de Alagoas — e disso resultou uma das maiores tragédias ocorridas do mar do Brasil, embora nenhum brasileiro tenha sido vítima do acidente. Nada menos que 306 pessoas morreram naquela noite, quase todas ocupantes do Kapunda, que afundou em menos de cinco minutos.

As que sobreviveram foram resgatadas pelo próprio cargueiro vítima da colisão que, mesmo danificado, seguiu viagem. Mas não por muito tempo. Logo, ele também começou a fazer água e igualmente afundou, em algum ponto até hoje não sabido do litoral de Pernambuco. Seus ocupantes, no entanto, tiveram melhor sorte e foram resgatados e levados para o Rio de Janeiro — quando, só então, os brasileiros ficaram sabendo sobre uma das maiores tragédias já ocorridas nas águas no nosso país, envolvendo dois barcos estrangeiros.

SS Principessa Mafalda
Perdeu o hélice e virou tragédia

SS Principessa Mafalda Alcheton Histórias do Mar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Na tarde de 24 de outubro de 1927, quando navegava na altura do litoral sul da Bahia, após ter partido de Gênova com destino a Buenos Aires (mas com escalas no Rio de Janeiro e em Santos), o navio italiano de passageiros SS Principessa Mafalda estremeceu por inteiro. O motivo era o eixo de um de seus dois hélices, que havia se partido. Não seria um grande problema, já que ele tinha dois motores, não fosse o fato de que o tal eixo havia caído no mar e permitido que a água invadisse o navio pelo seu duto.

Horas depois, após uma série de brigas entre os passageiros pelos espaços disponíveis nos barcos salva-vidas, o grande navio, com 147 metros de comprimento, afundou, causando a morte de 324 das 1.255 pessoas que havia a bordo — quase todas de famílias italianas que imigravam para a Argentina.

Uma delas, escapou por pouco da tragédia. A família Bergoglio (avós, tios e pais do atual Papa Francisco, que ainda não havia nascido) iria embarcar no SS Principessa Mafalda, mas na última hora adiou a viagem, para ter tempo de vender os sacos de café que ajudariam a garantir o início de uma nova vida, na Argentina. Foi uma "obra divina", diria o futuro Papa.

Cruzador Bahia
Pontaria desastrada

Cruazdor Bahia Histórias do Mar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Na manhã de 4 de julho de 1945, dias após o final da Segunda Guerra Mundial, o cruzador Bahia, da Marinha do Brasil, estava parado a cerca de 800 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte, prestando auxílio via rádio aos aviões americanos que retornavam do conflito, quando o seu comandante resolveu promover um exercício de tiro, para distrair os 372 oficiais e marinheiros que havia a bordo — além de quatro operadores americanos de rádio.

Porém, logo no primeiro disparo, a popa do navio voou pelos ares, gerando a morte de 340 ocupantes do Bahia, que afundou em menos de quatro minutos. Só 36 homens sobreviveram à maior tragédia da história naval brasileira, que, ao que tudo indica, foi causada por um absurdo erro de pontaria, aliado à má localização de bombas que ele transportava, estocadas a céu aberto, no convés — um patético caso de auto-explosão, que ficou marcado para sempre na história da Marinha Brasileira.

De tão absurdo, o incidente fomentou teorias de que o cruzador havia sido torpedeado pela chamada Frota Fantasma de Hitler, que estaria levando fugitivos nazistas para a Argentina. Mas isso jamais foi provado.

Vítimas do submarino alemão U-507
O algoz do "Agosto Negro"

U-507 Histórias do Mar - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Até agosto de 1942, a Segunda Guerra Mundial, então em curso na Europa, parecia tão distante do Brasil quanto a lua. Mas a chegada ao mar brasileiro do submarino alemão U-507 mudou essa história. Em apenas quatro dias, entre 15 e 19 de agosto daquele ano, nada menos que cinco navios brasileiros foram afundados no litoral do Nordeste por aquele infame submarino alemão, deixando um rastro de 605 mortes — 286 delas apenas na primeira vítima, o vapor Baependy, que inaugurou a tragédia. Seguiram-se os afundamentos dos navios Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Aragipe, além de uma simples escuna, a Jacira — no total, seis naufrágios em apenas quatro dias.

Perplexos diante daquele fato inédito, os brasileiros foram às ruas e pressionaram o governo de Getúlio Vargas para que saísse da neutralidade e aderisse à guerra, como aliado dos Estados Unidos, o que aconteceu em seguida. Mas, antes disso, o algoz dos navios brasileiros foi caçado por aviões americanos e afundado em algum ponto do litoral do Rio Grande do Norte, quando se preparava para deixar o mar brasileiro, satisfeito com o seu feito, no que ficou conhecido como "Agosto Negro".

Príncipe de Astúrias
O Titanic brasileiro

Desenho do Príncipe de Astúrias, que naufragou perto de Ilhabela - Blog do historiador Jeannis Platon - Blog do historiador Jeannis Platon
Imagem: Blog do historiador Jeannis Platon

Na madrugada de 5 de março de 1916, um domingo de Carnaval, o Brasil viveu a pior tragédia marítima de sua história: o naufrágio do transatlântico espanhol Príncipe de Astúrias, em uma das pontas de Ilhabela, no litoral de São Paulo. O navio vinha da Espanha, com destino a Santos e Buenos Aires, com um número impreciso de pessoas a bordo. Oficialmente, eram 654, sendo mais de 500 delas passageiros. Mas, como era hábito na época, possivelmente havia clandestinos a bordo, o que aumentaria ainda mais as dimensões do desastre. Só 143 pessoas sobreviveram, o que, pelos cálculos oficiais, dariam 511 mortos. Mas, talvez, tenham sido mais, como é possível avaliar após conhecer em detalhes como aconteceu o pior naufrágio no mar brasileiro em todos os tempos — clique aqui para ler.