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Histórias do Mar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Velório, cortejo e cinzas ao mar: a morte do golfinho mais famoso dos EUA

Clearwater Marine Aquarium
Imagem: Clearwater Marine Aquarium
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

22/01/2022 04h00

Na semana passada, uma cerimônia inédita aconteceu no mar do Golfo do México, bem diante da cidade de Clearwater, na Florida, Estados Unidos.

Pela primeira vez na história, as cinzas do corpo cremado de um golfinho foram depositadas no mar, diante de uma emocionada plateia e sob uma chuva de pétalas de rosa — homenagem, até então, jamais feita a um ser da espécie, nem mesmo ao mais célebre de todos os golfinhos, o Flipper, da antiga série de TV, que, no entanto, não era apenas um indivíduo, mas sim vários, que iam se revezando nas filmagens.

Golfinho winter foto 1 - Clearwater Marine Aquarium - Clearwater Marine Aquarium
Imagem: Clearwater Marine Aquarium

Além de choros comovidos, pétalas de rosa, discursos e leitura de poemas, a cerimônia, feita a bordo de um grande barco, teve até voo rasante de avião da Guarda Costeira Americana, homenagem reservada apenas àqueles que entraram para a história pelos seus feitos.

Não era um golfinho como outro qualquer

Mas ninguém ali considerou a cerimônia demasiadamente humanizada para um golfinho, porque, há bastante tempo, o merecedor de tamanha honraria deixara de ser um simples animal marinho.

Golfinho winter foto 2 - Clearwater Marine Aquarium - Clearwater Marine Aquarium
Imagem: Clearwater Marine Aquarium

Ele era Winter, o golfinho mais famoso dos Estados Unidos, cuja história inspirou dois filmes, justamente pelo o que tornava tão especial: ser o primeiro golfinho biônico da história.

Prótese no lugar da cauda

Winter, um golfinho fêmea de 16 anos de idade, que morreu em novembro do ano passado, mas homenageado apenas na semana passada, fora resgatada ainda filhote no mar da Florida, em dezembro de 2005, após ter tido a cauda decepada por uma armadilha para pegar caranguejos — e, desde então, usava uma prótese especialmente desenvolvida para o animal, por uma equipe de cientistas.

Golfinho winter foto 3 - Clearwater Marine Aquarium - Clearwater Marine Aquarium
Imagem: Clearwater Marine Aquarium

A inédita solução de uma prótese no lugar do rabo decepado do animal ganhou, na época, manchetes no mundo inteiro, e tornou Winter ("Inverno", em inglês, época do ano em que ela foi resgatada) a principal atração do Clearwater Marine Aquarium, para onde, após o resgate, ela foi levada, medicada, tratada, condicionada a usar o artefato e — claro — treinada para fazer alguns malabarismos para a plateia — fama que explodiu depois que sua história foi adaptada para o cinema, no filmes "Winter, o Golfinho" 1 e 2, onde contracenou com o ator Morgan Freeman, ambos exibidos com sucesso também no Brasil.

Golfinho winter foto 4 - Clearwater Marine Aquarium - Clearwater Marine Aquarium
Imagem: Clearwater Marine Aquarium

Tanque de 80 milhões de dólares

No aquário de Clearwater, onde passou a viver desde então (veja abaixo o vídeo), Winter gozava de um gigantesco tanque com parede de vidro, construído ao custo de 80 milhões de dólares (mas quase nada perto do 1 bilhão de dólares que o animal gerava com visitantes para a cidade), e podia ser observada nadando normalmente, com sua prótese biônica, na companhia de outros golfinhos — além de se apresentar em abomináveis espetáculos, empurrando patinhos de borracha na água ou brincando com bolinhas de sabão, segundo seus cuidadores, um dos passatempos preferidos do animal.

Winter morreu "nos braços dos seus cuidadores", segundo a direção do aquário, de torção no intestino, problema que não teve nada a ver com a prótese que o animal usou por 16 anos.

Confinamento necessário

Embora tenha vivido praticamente a vida inteira em um tanque de aquário, Winter foi um raríssimo caso de confinamento positivo de um golfinho, animal que, por sua inteligência e imagem simpática às pessoas, se tornou a estrela preferida dos parques aquáticos, hábito hoje, felizmente, mundialmente condenado e proibido em diversos países, inclusive o Brasil — mas não nos Estados Unidos, que ainda os exploram estes animais para ganhar dinheiro com ingressos, disfarçados sob o nome de "santuários", como também era o caso do aquário de Clearwater.

Golfinho winter foto 5 - Clearwater Marine Aquarium - Clearwater Marine Aquarium
Imagem: Clearwater Marine Aquarium

No caso de Winter, o confinamento era necessário.

Sem a cauda para ajudar a se movimentar, ela não teria como sobreviver na natureza, razão pela qual foi mantida — e convenientemente exibida pelo aquário durante mais de uma década e meia — no seu tanque de vidro, que tinha até transmissão ao vivo pela internet, 24 horas por dia.

Cerimônia exagerada

"Poder devolver as cinzas de Winter ao mar, seu habitat natural, foi um dos melhores sentimentos do mundo", disse o responsável pelo Clearwater Marine Aquarium, Kelly Martin, na tocante — mas exagerada — cerimônia marítima da semana passada.

"Nosso objetivo sempre foi o de reabilitar animais marinhos e devolvê-los à natureza. Mas, no caso dela, isso era impossível. Agora, de certa forma, Winter voltou para casa", completou o responsável pelo aquário que, antes da cerimônia de lançamento das cinzas do golfinho ao mar (o que foi feito dentro de uma urna funerária feita com sal, para dissolver na água), já havia promovido uma espécie de velório do animal, com coroas de flores e depoimentos emocionados para uma plateia diante no aquário de vidro onde o golfinho vivia.

Golfinho winter foto 6 - Clearwater Marine Aquarium - Clearwater Marine Aquarium
Imagem: Clearwater Marine Aquarium

"Inspirou milhões de pessoas"

"Com sua perseverança e resiliência, Winter desafiou todos os prognósticos e inspirou milhões de pessoas, mostrando que tudo é possível, se nós acreditarmos nisso", exagerou o diretor do aquário, repetindo as mensagens que os dois filmes sobre o golfinho mutilado tentaram passar ao público — e quem não se emocionou com atuação de Morgan Freeman no papel do cientista que descobre a saída para o problema de Winter que atire o primeiro patinho de borracha no tanque de um parque aquático.

Golfinho winter foto 7 - Clearwater Marine Aquarium - Clearwater Marine Aquarium
Imagem: Clearwater Marine Aquarium

Mas não era preciso humanizar tanto a despedida e o funeral para um animal.

No passado, outro golfinho excepcional

Golfinhos sempre cativaram as pessoas, a ponto de fazer muitas delas enxergarem neles sentimentos humanos.

Muito disso reside na inteligência destes animais e na capacidade que eles têm de traçar estratégias e tomar decisões.

A ciência já comprovou isso inúmeras vezes, mas o comportamento de alguns golfinhos continua intrigando — e surpreendendo — as pessoas em geral.

Também nos Estados Unidos, no final do século 19, muito antes de Winter e sua formidável capacidade de adaptação a uma prótese mecânica, outro golfinho ficou especialmente famoso por duas características igualmente incomuns: ele era albino — portanto, tinha o corpo totalmente branco — e, embora vivesse solto no mar, guiava, voluntariamente, os barcos até um dos portos mais perigosos da costa leste americana, na Carolina do Norte, sem que tivesse sido treinado para isso — clique aqui para conhecer esta incrível história.

Por essas e outras, o golfinho albino do Cabo Hatteras, onde ficou conhecido como Hatteras Jack e aparecia diariamente para mostrar o caminho mais seguro para os barcos até o porto, acabou virando símbolo de toda a região.

E, hoje, batiza ruas, lojas e restaurantes em toda a região.

É, mais ou menos, o que também irá acontecer em Clearwater, daqui em diante. Para todos os visitantes, ela será sempre a "cidade da Winter", o golfinho que teve até cortejo fúnebre.