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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O transatlântico que vai virar sucata porque não há onde guardá-lo

Reprodução
Imagem: Reprodução
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

18/12/2021 04h00

Na semana passada, um grande e bonito navio transatlântico chegou, apitando longamente, a uma praia do Paquistão.

Os apitos, porém, não anunciavam a chegada de um alegre grupo de turistas à praia, como seria de se esperar de um navio de cruzeiros.

Eram apitos melancólicos, longos e repetidos que só cessaram quando o enorme navio estacou, propositalmente encalhado, na água rasa da beira da praia.

Foram os últimos suspiros do Antares Experience, navio transatlântico que terminava ali, precocemente, sua vida útil, depois de quase ter escapado do desmanche — uma espécie de canto do cisne de um navio bastante conhecido no passado, só que com outro nome: Costa Romântica.

histórias do mar - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Foi um triste desfecho — como costumam ser todas as derradeiras viagens dos navios de cruzeiro rumo ao estaleiro onde serão desmantelados.

Mas, no caso do ex-Costa Romântica, foi ainda mais dramático, porque faltou apenas um mísero detalhe para ele escapar de virar uma pilha de placas de aço, como agora já está sendo transformado:

Não havia lugar para guardá-lo.

Faltou pouco para salvá-lo

O plano era transformar o ex-transantlântico, de 220 metros de comprimento, 790 cabines, quatro restaurantes, duas piscinas, cassino e um spa de 4 mil m2, em um hotel flutuante, permanentemente atracado no principal porto do Paquistão, em Karachi, maior cidade do país.

Visaria hospedar turistas, além de viajantes a negócios pela região.

Mas o projeto começou a fazer água quando a administração do porto de Karachi negou o pedido de "hospedagem" do navio feito pelo seu então dono, o empresário Ahmadullah Khan, que, no entanto, havia comprado o navio com outros planos: desmanchar de fato o navio e vender o aço do seu casco como sucata.

Mas a elegância do navio, os seus imponentes 14 andares de altura e o bom estado geral do transatlântico sensibilizaram o empresário, que logo mudou de ideia e decidiu transformá-lo em um hotel flutuante.

No entanto, a negativa da administração do porto, o único do Paquistão com condições de abrigar um navio daquele porte, inviabilizou a ideia e forçou Ahmadullah Khan a voltar ao plano original de transformar o bonito transatlântico em mera sucata - apenas porque não havia onde atracá-lo.

Como alguém que é obrigado a mandar um automóvel ainda em bom estado para o ferro-velho apenas porque não encontra uma garagem para guardá-lo.

Boas lembranças para os brasileiros

Para alguns brasileiros, o agora já semidemolido transatlântico traz boas lembranças.

Ainda sob o nome Costa Romântica, ele esteve no Brasil em duas temporadas, em 2008 e 2013, fazendo cruzeiros pela costa brasileira.

Depois, com a pandemia, ficou parado na Europa por meses à fio, até que, para diminuir custos, foi vendido à outra empresa de cruzeiros, a Celestyal, que o rebatizou Celestyal Experience.

Mas os novos donos nem chegaram a usá-lo.

A violenta crise no setor de cruzeiros causada pela Covid-19 logo fez com que a Celestyal revendesse o navio ao empresário Ahmadullah, que, após se apaixonar pelo transatlântico (e ver nele uma boa fonte de renda como hotel flutuante), o rebatizou Antares Experience e o tentou salvá-lo do desmanche.

Não conseguiu.

Apitos de protesto

Na semana passada, o outrora elegante Costa Romântica, sob apitos de protesto e lamento de seus últimos tripulantes a bordo, como quem chora o fim próximo, foi arremessado de encontro a praia de Gaddani, onde já está sendo desmantelado nos infames estaleiros da cidade — todos tão precários e improvisados que os desmanches de grandes navios são feitos à mão, com os operários trabalhando sob condições desumanas, na própria areia da praia.

histprias - NGO Shipbreaking Platform - NGO Shipbreaking Platform
Imagem: NGO Shipbreaking Platform

Em termos de recursos e segurança para os trabalhadores, os abjetos desmanches de navios do Paquistão só perdem para o pior de todos os estaleiros do gênero, na praia de Alang, na vizinha Índia, considerado o maior cemitério de navios do mundo (clique aqui para conhecer sórdidos detalhes sobre como é feito o desmanche de navios por trabalhadores que usam apenas as próprias mãos como ferramentas).

Não poderia haver final mais melancólico para um bonito navio, como era o Costa Romântica