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Histórias do Mar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Família Schurmann conta em livro como achou submarino nazista no mar de SC

Família Schurmann - U-153 - Divulgação
Família Schurmann - U-153 Imagem: Divulgação
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

11/12/2021 04h00

Passava pouco mais das duas da madrugada do dia 14 de julho de 2011 quando o magnetômetro, aparelho que indica a presença de metais submersos, apontou algo no fundo do mar em um ponto ermo do litoral de Santa Catarina, a mais de 80 quilômetros da costa.

Família Schurmann - U-153 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Imediatamente, todas as pessoas a bordo do veleiro Aysso, pertencente à família Schurmann (pai Vilfredo, também comandante do barco, mãe Heloisa, e os três filhos, Pierre, David e Wilhelm) se juntaram aos dois técnicos que monitoravam o aparelho e prenderam a respiração.

U-513 família schurmann - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Na medida que o aparelho descia ainda mais na escuridão do mar ficava claro que havia, de fato, algo grande debaixo dele.

E logo veio a certeza.

Havia um enorme objeto metálico, com muitas toneladas de peso e forma alongada, com mais de 70 metros de comprimento, lá no fundo.

Só podia ser ele.

E era: o submarino alemão da Segunda Guerra Mundial U-513, que afundara quase 70 anos antes, em 19 de julho de 1943, após ser bombardeado por um avião americano de patrulha, no litoral de Santa Catarina.

E cuja localização, até então, era desconhecida.

Mas não mais, daquele dia em diante.

Família Schurmann - U-153 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Fantasma de 68 anos atrás

A confirmação do achado gerou uma algazarra, em plena madrugada, a bordo do veleiro dos Schurmann, primeira família brasileira a dar a volta ao mundo velejando (viagem que, depois, repetiriam outras duas vezes), já consagrados como a mais famosa turma de navegadores do Brasil.

Família Schurmann - U-153 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Após dois anos de buscas, finalmente o catarinense Vilfredo Schurmann e seus familiares haviam encontrado o que tanto vinha buscando, desde que ouviram o relato de um amigo sobre o naufrágio de um submarino alemão no mar catarinense, durante a Segunda Guerra Mundial.

Família Schurmann - U-153 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Foi emocionante. A última vez que aquele submarino havia sido visto por olhos humanos fora 68 anos antes. E, agora, ele estava ali, bem debaixo do nosso barco, feito um fantasma que voltara no tempo", escreveu Vilfredo no livro que acabou de lançar, sobre a incansável busca da família Schurmann por aquele submarino alemão, afundado no mar de Santa Catarina.

O primeiro a ser achado

em busca do submarino - duvulgação - duvulgação
Imagem: duvulgação

O livro "Em busca do submarino U-513", lançado ontem, no Iate Clube Cabanga, em Recife, onde Vilfredo e família se encontram neste momento, durante uma escala da longa viagem (mais uma...) que irão fazer pelos mares do mundo para estudar a poluição de plásticos nos oceanos, narra, com depoimentos e muitas fotos, a saga e a determinação dos Schurmann em encontrar aquele improvável submarino no fundo do mar catarinense, cujos registros haviam se perdido no tempo.

O U-513 foi um dos onze submarinos (dez alemães e um italiano) afundados na costa brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, e o primeiro a ser localizado, graças ao empenho dos Schurmann, que, durante um par de anos, trocaram as travessias oceânicas por uma incansável e obstinada busca no fundo do mar de Santa Catarina — e que resultou em uma descoberta histórica, com a ajuda, também, de técnicos da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Agulha no palheiro

O U-513 repousava a 135 metros de profundidade — fundo demais para ser visitado por simples mergulhadores, como era o caso do grupo.

Um robô submarino foi então alugado, e, pela primeira vez, mostrou imagens do submarino alemão no fundo do mar.

família shurmann - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

"Foi como achar uma agulha no palheiro", resume Vilfredo no livro, que, graças a patrocinadores, será vendido por preço abaixo do custo (R$ 30,00, nas livrarias virtuais da Internet), com versão acessível até para deficientes visuais.

Filho de alemão

"Antes de acharmos o U-513, que está inteiro no fundo do mar, passamos 18 vezes sobre ele sem saber, porque a região das buscas era gigantesca", conta o comandante-aventureiro, que decidiu escrever o livro narrando a descoberta de dez anos atrás só quando precisou passar três meses confinado no seu barco, nas Ilhas Malvinas, durante a pandemia da Covid-19.

Vilfredo Shurmann - Expedição U-153 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

"Sou filho de alemão e adoro histórias da Segunda Guerra Mundial. Quando fiquei sabendo do afundamento do submarino nazista na costa de Santa Catarina, aquilo virou uma obsessão para mim, mesmo eu não tendo nenhuma experiência no assunto. Não sosseguei enquanto não encontrei o U-513, com a ajuda de muita gente. Foi a primeira vez que um submarino da Segunda Guerra Mundial foi achado no Brasil", diz Vilfredo, orgulhoso — e até surpreso — com o próprio feito.

Achar, sim. Entrar, não

Mas a frustração veio em seguida, quando a Marinha Brasileira e o governo da Alemanha, a quem ainda pertence os restos do U-513, negaram os pedidos dos Schurmann para penetrar no submarino naufragado.

"Queríamos filmar o interior e coletar alguns pequenos objetos, para criar um museu sobre o naufrágio, mas a Alemanha foi contra e as autoridades brasileiras também, alegando que o submarino se transformara em um sítio arqueológico, além de ser um túmulo de guerra, já que no seu afundamento morreram 46 marinheiros. Respeitamos a decisão, mas ainda temos esperanças de, um dia, poder entrar no submarino que nós encontramos. O mais difícil, que foi achá-lo no fundo do mar, nós já fizemos", diz Vilfredo, que, tal qual todos os membros da equipe, logo após o achado assinou um termo de confidencialidade, se comprometendo a jamais revelar a localização exata do submarino.

"É preciso preservar o submarino no fundo do mar e inibir os saqueadores de naufrágios", explica Vilfredo, que, além do livro, também produziu, com a ajuda do filho, o cineasta David Schurmann, um documentário sobre o naufrágio, a ser exibido no ano que vem.

Menos de um ano de uso

Como a maioria dos submarinos usados na Segunda Guerra Mundial, a vida útil do U-513 foi bem curta.

Ele ficou menos de um ano em ações de combate.

Família Schurmann - U-153 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

O U-513 foi lançado ao mar em dezembro de 1942, no auge da guerra, e afundou exatos 222 dias depois, ao ser atacado por um hidroavião americano que patrulhava o litoral brasileiro em busca, justamente, de submarinos alemães — mas nenhum tão ao Sul da costa brasileira quanto o U-513, o que, desde o começo, também deixou Vilfredo intrigado.

"A explicação mais plausível para o U-513 ter sido afundado em Santa Catarina é que ele tenha recebido a missão de atacar navios em pontos bem mais distantes do Nordeste brasileiro, onde os submarinos alemães costumavam atuar, para forçar os Aliados a ampliar as áreas de buscas e assim pulverizar e enfraquecer os contra-ataques".

"Daí ele ter tomado o rumo de Santa Catarina", explica Vilfredo, no livro.

família shurmann - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Afundou navio brasileiro

Dias antes de ser atacado, o submarino alemão, então sob o comando do premiado capitão Friedrich Guggenberger, responsável, entre outros feitos, por afundar um dos maiores porta-aviões ingleses na guerra, o Ark Royal — o que lhe rendeu homenagens do próprio Hitler —, havia torpedeado e afundado o cargueiro de bandeira brasileira Tutoya, no litoral sul de São Paulo, matando sete dos seus tripulantes, todos brasileiros.

Já as vítimas no submarino alemão foram bem mais numerosas.

Dos 53 tripulantes que havia a bordo do U-513 no dia do ataque, só sete sobreviveram - entre eles, o próprio comandante Guggenberger, que foi preso e enviado aos Estados Unidos, onde cumpriu pena, até fugir da cadeia, em uma vida cheia de peripécias.

Não foi o pior de todos

Embora tenha sido o único submarino da Segunda Guerra Mundial até hoje encontrado no mar do Brasil, o U-513 não foi o mais famoso dos submarinos nazistas que atuaram na costa brasileira, durante aquele conflito.

O título coube a outro U-boat, como eram chamados os submarinos alemães na guerra, o U-507, capitaneado por um dos mais implacáveis comandantes da Alemanha nazista, Harro Schacht, responsável, entre outros feitos, por afundar seis navios brasileiros em sequência no litoral do Nordeste, em 1942, no que ficou conhecido como Agosto Negro.

Clique aqui para conhecer a história do submarino que pôs o Brasil na guerra, também contada em outro livro que tem o mar como tema e igualmente lançado esta semana: o novo "Novas Histórias do Mar + 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", do mesmo autor desta coluna, que pode ser comprado clicando aqui.