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Histórias do Mar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A ilha maldita: por que ninguém pode (e nem deve) entrar aqui

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Imagem: Reprodução
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Jorge de Souza

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista "Náutica" e criador, entre outras, das revistas "Caminhos da Terra", "Viagem e Turismo" e "Viaje Mais". Autor dos livros "O Mundo É Um Barato" e "100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil". Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas - que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Colunista do UOL

20/11/2021 04h00

Desde que as imagens aéreas de todo o planeta foram disponibilizadas na internet, através do Google Earth, os restos de um navio na beira da praia de uma ilha do Golfo de Bengala, entre a Índia e Myanmar, tem chamado a atenção dos internautas mais atentos.

FOTO 1 - Sentinela - Google Earth - Google Earth
Imagem: Google Earth

Não que a imagem de um velho navio encalhado numa ilha seja algo raro ou curioso, mas sim por conta da ilha em questão: a Sentinela do Norte, habitada por uma das últimas tribos ainda selvagens do mundo e, por isso mesmo, considerada um dos locais mais infames do planeta, com acesso proibido.

O que teria acontecido com os ocupantes daquele navio diante dos nativos selvagens da ilha? Esta é a pergunta que todos os internautas conhecedores da macabra fama dos habitantes da Ilha Sentinela do Norte se fazem ao ver os restos do navio espetado na praia.

FOTO 6 - Sentinela - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Não poderia haver pior lugar no mundo para escapar de um naufrágio", escreveu recentemente um internauta, nas redes sociais. E é pura verdade.

Ilha maldita

FOTO 2 - Sentinela - Google Maps - Google Maps
Imagem: Google Maps

O que torna tão maldita a Ilha Sentinela do Norte, uma das muitas que formam o arquipélago da Andaman — que pertence à Índia, embora o governo indiano não tenha nenhuma ingerência naquela ilha — são os seus habitantes: os sentineleses, nativos que vivem ali há cerca de 60 mil anos. E do mesmo jeito, até hoje.

FOTO 3 - Sentinela - Indian Coastguard/Survival International - Indian Coastguard/Survival International
Imagem: Indian Coastguard/Survival International

Totalmente alheios ao mundo exterior, os sentineleses, como foram batizados pelos antropólogos, são considerados umas das tribos mais isoladas — e menos estudadas — do mundo, por conta da principal característica do grupo: a violência e a hostilidade com quem chega na ilha — cujo acesso proibido vez ou outra é burlado por infratores.

Flechas e lanças

Descobertos e contatados pela primeira vez no século 18 por um pesquisador inglês chamado John Ritchie e, depois, "analisados" por outro inglês, Maurice Portman, que chegou a sequestrar dois adultos e quatro crianças para "estudos" fora da ilha (os dois adultos morreram, mas as crianças foram devolvidas, tempos depois), os sentineleses são seres de pele bem escura e baixa estatura, mas com grande força física, que andam nus e vivem enfiados na densa mata que reveste a ilha — suas casas, por exemplo, jamais foram vistas.

Caçadores habilidosos, usam grandes arcos e lanças para caçar e pescar, além de se alimentarem de frutos e moluscos, abundantes na ilha, que tem o dobro do tamanho de Fernando de Noronha — e um mar tão lindo quanto.

Mas convém nem pensar em se aproximar da ilha.

Sentinela  - Survival International - Survival International
Imagem: Survival International

Ao menos na agressividade, os sentineleses são o que de maior parte restou dos homens das cavernas, em pleno século 21. Entrar na ilha deles é morte certa.

O missionário que foi executado

O caso mais recente — e trágico — envolvendo uma tentativa de contato com os sentineleses aconteceu três anos atrás, em novembro de 2018, quando um missionário americano, de 26 anos, chamado John Allen Chau, convenceu um grupo de pescadores a levá-lo até a ilha, onde pretendia converter os agressivos nativos ao cristianismo.

Após desembarcarem o missionário na ilha, a última imagem que os pescadores tiveram do jovem americano foi a do seu corpo sendo arrastado pelos sentineleses na praia, após ser atingido por uma chuva de flechas.

FOTO 5 - Sentinela - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Imagem: Reprodução Instagram

Nem o corpo do missionário pode ser resgatado, porque o governo indiano proíbe qualquer contato com os habitantes da ilha.

Flechadas no helicóptero

Doze anos antes, em 2006, dois pescadores tiveram o mesmo fim do missionário americano.

Ao se aproximarem da praia para capturar ilegalmente lagostas, foram atacados pelos nativos e mortos a flechadas e golpes de lanças.

Em seguida, os corpos dos dois pescadores foram abandonados na areia da praia, mas nem assim as autoridades conseguiram recuperá-los, porque até o helicóptero de resgate foi recebido com flechadas, que impossibilitaram o desembarque.

Crimes sem punição

Tal qual no caso do missionário americano, nenhum nativo foi responsabilizado pelas mortes dos pescadores, porque, de acordo com as leis vigentes, os sentineleses, assim como os índios de algumas remotas tribos brasileiras, são considerados inimputáveis, porque seus atos apenas seguem as tradições do seu povo.

No caso deles, de extrema hostilidade e violência com quem chega de fora.

Imagem histórica

Em 1974, uma equipe de cinegrafistas da National Geographic tentou filmá-los, mas, mesmo à distância, tiveram que abandonar o projeto quando o chefe do grupo foi flechado na perna.

No ano seguinte, o fotógrafo indiano Raghubir Singh, que também trabalhava para a National Geographic, conseguiu algumas das mais famosas fotos já feitas dos sentineleses (como esta abaixo), todos armados com grandes arcos e flechas, na beira da praia.

FOTO 7 - Sentinela - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Na ocasião, Singh arremessou cocos, bananas e peças de roupas na praia.

As frutas foram recolhidas pelos nativos.

Mas as roupas foram ignoradas.

Os sentineleses vivem nus até hoje.

Pouco se sabe sobre eles

Em 1991, aconteceu o único contato pacífico entre estudiosos e os nativos de Sentinela do Norte.

Com o objetivo de descobrir qual língua eles falavam, um pequeno grupo de antropólogos, acompanhados de membros de outras tribos da mesma etnia, se aproximou da praia e passou a jogar cocos e utensílios no mar, numa tentativa de fazer os sentineleses se aproximarem dos barcos.

Eles fizeram isso, coletaram os presentes, mas demonstraram claramente que era para os visitantes irem embora em seguida.

Não foi possível sequer identificar o dialeto que falavam.

Até hoje, quase nada se sabe sobre os habitantes da Ilha Sentinela do Norte.

Acesso proibido

Depois disso, o governo da Índia proibiu totalmente o acesso à ilha (tanto por temer pela segurança das pessoas, quanto, sobretudo, para preservar e proteger os nativos, que não têm nenhuma resistência contra as doenças urbanas), criou uma faixa de exclusão de 10 quilômetros no entorno da ilha, nos quais o acesso de barcos não é permitido, e passou a patrulhar a região com navios da Marinha.

Mas nem isso impede que, de vez em quando, alguma embarcação se aproxime da ilha, ainda que contra a vontade dos seus tripulantes.

Terror no navio

Foi o que aconteceu com o navio que, até hoje, décadas depois, provoca calafrios nos escarafunchadores das imagens da ilha no Google Earth.

Ilha Sentinela - Robert Fore - Robert Fore
Imagem: Robert Fore

Em agosto de 1981, durante um tufão, o cargueiro panamenho Primrose perdeu o controle da navegação e encalhou a míseros metros da praia de Sentinela do Norte, onde seus tripulantes viveram momentos de tensão e terror, por causa dos habitantes da ilha (clique aqui para conhecer esta história, que, de tão bizarra, nem parece ter ocorrida no Século 20).

40 anos depois, os restos do navio ainda estão visíveis na ilha. Já os seus habitantes, seguem vivendo como que viviam há 60 mil anos: com arcos, flechas, lanças e muita selvageria contra quem ousa entrar nos seus domínios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL