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Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cães enxergam em preto e branco? Saiba o que há de mito nesta história

Será que seu cachorro enxerga em preto e branco? Não é bem assim - Getty Images
Será que seu cachorro enxerga em preto e branco? Não é bem assim
Imagem: Getty Images
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

10/06/2021 04h00

Quando eu era criança, o cachorro da família era um poodle rabugento chamado Mick. Nessa época, as viagens de carro em família sempre o incluíam, que ia em cima do tampão do porta-malas latindo para tudo enquanto lhe durasse o fôlego. As viagens costumavam ser longas, já que íamos com frequência para a casa de meus avós em uma cidadezinha chamada Potirendaba, no interior de São Paulo, que fica a 440 quilômetros da capital. Assim, o Mick latia na primeira hora de viagem e depois disso se acalmava, passando então a fazer uma coisa estranha: latia apenas para os carros e caminhões vermelhos.

Esse fato me chamava a atenção, já que desde pequeno aprendi que os cães enxergam em preto e branco. Ora, se ele não era capaz de ver cores, por que então latia apenas para uma delas?

O que eu descobri depois de alguns anos é que a ideia da visão em preto e branco é errada. Na verdade, os cães são sim capazes de ver cores, mas não da mesma maneira que nós.

Cor e brilho

Para poder ver as cores, nós humanos temos 3 tipos de células do tipo cone. Cada um deles é responsável por responder a um comprimento de onda luminosa (azul, verde e vermelho) e transformar isso em um estímulo elétrico, que é então processado pelo nosso cérebro. A junção das imagens produzidas por cada uma das células dá a cor e imagem final.

Os cães possuem apenas dois desses tipos de células, as capazes de reconhecer amarelas e azuis. Isso significa que sua visão varia entre os tons de amarelo, azul e cinza. Portanto, eles possuem uma visão parecida com a das pessoas que têm deuteranopia, um tipo de daltonismo, em que os portadores não são capazes de distinguir verde e vermelho.

Entretanto, ainda que exista controvérsia, alguns estudos sugerem que, mesmo sem ter as células cone vermelhas, os cães são capazes de distinguir objetos vermelhos e verdes não através da cor, mas pela diferença no seu brilho. Essa poderia ser uma explicação para o caso do meu poodle, mas ainda assim faltaria explicar porque ele não gostava do vermelho.

Como saber?

Descobrir como um animal enxerga o mundo não é tarefa fácil, afinal ele não vai nos contar qual cor está vendo em cada coisa. Mesmo em humanos, muitas vezes o diagnóstico do daltonismo se dá com a pessoa já adulta, e algumas vezes por acaso. Um exemplo disso é meu amigo Marcel, veterinário de animais silvestres, que descobriu que era daltônico aos 25 anos de idade, durante uma consulta com o oftalmologista para trocar o grau de seu óculos. Isso ocorre porque sem os testes adequados, a pessoa se acostuma a ver cada cor de sua maneira, e para ela aquilo é o normal.

Assim, para descobrir como os cães enxergam e como reagem aos diferentes estímulos, muitas vezes temos que recorrer à tecnologia. A capacidade visual pode ser examinada por meio de aparelhos como o eletrorretinógrafo, que detecta a resposta nervosa a cada um dos estímulos e cores. O problema é que esse aparelho em geral requer o animal sedado, e isso inviabiliza algumas avaliações.

Para avaliar as respostas de um cão acordado, hoje os pesquisadores têm utilizado até da ressonância magnética funcional, um exame que pode dizer através de imagens que áreas do cérebro são ativadas com diferentes estímulos. Isso requer um grande treinamento dos cães, mas tem possibilitado avanços no estudo da visão canina.

A visão dos cães é objeto de muitos estudos porque sua capacidade visual interfere em mais do que o seu dia a dia. Cães são usados como modelo em diversos estudos cognitivos e comportamentais, e muitos desses estudos são baseados em estímulos visuais. Assim, para saber se ele responde ao estímulo da maneira esperada ou não, antes de mais nada é necessário saber se ele é capaz de ver o estímulo.

Não pior, mas diferente

O que sabemos hoje com base nesses diversos estudos é que os cães possuem uma visão que se diferencia da nossa não apenas nas cores. De maneira geral, eles enxergam pior do que a gente. Sua visão é menos acurada, o que significa que eles veem as coisas com menos detalhes. Se estima que um objeto que está a uma distância de 5 metros é visto por um cão com a mesma nitidez que uma pessoa de visão normal teria desse objeto a uma distância de mais de 10 metros.

Por outro lado, a visão deles é mais especializada na detecção de movimento. Isso se justifica pelo fato de serem caçadores. Enquanto caçam, é mais importante saber para onde a presa está se movimentando do que qual a forma exata que ela tem. Observo bastante isso com a minha cachorra. Quando estamos brincando com uma bola de tênis, ela sempre sai correndo certeiramente atrás da bola. Porém, se em algum momento ela perde de vista e a bola acaba parando, tem muito mais dificuldade para encontrá-la, por mais que esteja na sua frente. Nesse momento, ela acaba utilizando o faro para poder encontrar a bola.

Uma vantagem em relação a nós é que eles são mais capazes de se orientar em situações de baixa luminosidade. Isso se deve a algumas características de seu olho, como a presença do tapetum lucidum na retina, que é a estrutura responsável por aquele brilho que reflete o farol do carro na escuridão. Essa reflexão da luz, presente em muitas outras espécies de vertebrados, como os gatos, mas não nos humanos, faz com que em situações de pouca luz a capacidade visual aumente.

Outra característica, é que os cães enxergam em uma frequência um pouco mais alta (80Hz) que a nossa (60Hz). Esse fato tem uma implicação que você talvez já tenha notado em casa. Os televisores, principalmente os menos modernos, possuem uma frequência de transmissão de 60 Hz. Isso significa que a cada segundo passam pela tela 60 quadros de imagem.

Para humanos, essa troca de quadros fica imperceptível, já que ocorre na mesma frequência de nossa visão. No entanto, para os cães, assistir um vídeo nessa frequência pode ser bem tedioso, já que ele aparentará estar em câmera muito lenta. Esse é um dos motivos que faz com que eles não se interessem tanto por esse objeto. Isso não significa que cães não podem ver e interagir com telas, mas elas precisam estar em frequências apropriadas e com imagens e sons que os atraiam. Por isso, existem canais e programas de televisão desenvolvidos especialmente para eles.

A verdade é que ainda há muito a se descobrir com relação à visão de nossos melhores amigos. Mais do que isso, a grande variabilidade das raças proporciona variações visuais dentro da espécie.

A conformação da cabeça de um pug e de um doberman, por exemplo, são totalmente diferentes. Isso influi no ângulo de visão de cada um e também pode afetar a noção de profundidade de cada um deles. Além disso, o tapetum lucidum, aquele que ajuda na visão noturna, também tem variação entre os indivíduos e raças, e é possível que isso também altere como cada um vê no escuro.

Calma! Há vantagens em ter "olhos de cão"

E se você ficou triste pelo fato de seu cão não enxergar tão bem e não poder ver todas as cores, não se preocupe. Eles compensam isso com outras características muito interessantes! Um estudo de 2014 da revista Proceedings of the Royal Society B — Biological Sciences indica que provavelmente os cães são capazes de enxergar luz ultravioleta, aquela faixa de luz invisível para nós que é emitida pelo sol e que também está presente na luz negra, por exemplo.

Soma-se isso a uma super audição, um super olfato e ainda sua capacidade de se orientar pelo campo magnético da terra, e no fim acho que nós é que temos que invejar seus sentidos!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL