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Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Precisamos falar sobre eutanásia em animais. Saiba mais sobre a "boa morte"

Eutanásia de animais tem sido tratado menos como tabu  - Getty Images
Eutanásia de animais tem sido tratado menos como tabu Imagem: Getty Images
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André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

17/06/2021 04h00

Infelizmente, se o seu pet não é uma tartaruga ou um papagaio, provavelmente você estará presente no fim da vida dele. Nesse momento, há uma grande chance de você se deparar com uma decisão sobre eutanásia.

Esta palavra, de origem grega, significa algo como "boa morte" ou "morte sem dor". Ou seja, seu objetivo é (ou deveria ser) o de aliviar o sofrimento em momentos de dor e doença não tratáveis. Para isso, na clínica de pequenos animais, são utilizados fármacos analgésicos e anestésicos, que possibilitam uma morte de maneira indolor e inconsciente.

Na veterinária, esse é um tema mais recorrente, já que, diferentemente de nós humanos, grande parte dos animais domésticos terminam a vida assim.

Infelizmente, porém, além dos casos em que é utilizada para abreviar sofrimento, a eutanásia na veterinária também é utilizada em outras situações necessárias, como em casos de saúde pública e em outras muito mais polêmicas, como no caso de problemas comportamentais, por conveniência, quando o animal tem uma condição ou doença tratável, mas seu dono não quer assumir o tratamento, ou por motivos financeiros.

O ponto de partida deste texto foi um estudo publicado na revista "Scientific Reports" no mês passado (em inglês). Ele analisou, entre quase 30 mil cães falecidos no Reino Unido, a proporção dos que foram eutanasiados e os que tiveram morte "não assistida", ou seja, morreram sem eutanásia.

O que influencia a decisão?

Ainda fez uma análise de que fatores são influenciadores na decisão de eutanásia e de quais as causas de morte dos animais de cada grupo. Esse estudo, realizado nos anos de 2015 a 2017, identificou que 91,5% dos animais presentes nesse banco de dados de clínicas veterinárias tiveram a eutanásia como causa de morte.

O principal fator que contribuiu para a tomada de decisão pela eutanásia é a idade. Claro, essa é uma conclusão óbvia, já que animais mais velhos tendem a ter mais problemas de saúde que são indicativos de eutanásia. Por outro lado, porém, ser um animal jovem aumentou as chances de uma morte "não assistida".

Esse dado pode ter uma contribuição, por exemplo, da alta incidência de mortes por causas traumáticas nessa faixa etária, que muitas vezes não possibilitam atendimento. No entanto, pode refletir também uma relutância de donos e veterinários em realizar a eutanásia neles, mesmo que ela seja indicada. Isso poderia sugerir uma maior chance de sofrimento ao fim da vida em animais mais jovens.

Outro fator relativo aos cães que aumenta a incidência de eutanásia é o tamanho. Cães maiores têm maior chance de ser eutanasiados do que cães pequenos.

Diversos fatores contribuem para isso, como problemas comportamentais, já que animais grandes e agressivos podem ser perigosos; o estigma relacionado a algumas raças, como os pit bulls; o custo de tratamentos, já que o gastos com eles é maior; e o manejo. Nesse último caso, podemos entender que um cão de 1 kg que não pode se movimentar é muito mais facilmente manejável do que um cão de 50 kg. Por esses motivos, a raça que teve a maior taxa relativa de eutanásias foi o rottweiler.

Entre as raças mais que mais morreram de maneira não assistida, temos em primeiro lugar bulldogues e pugs. Uma explicação dada para isso é que alguns estudos sugerem que os donos desses animais se apegam demais a eles. Além disso, tendem a ter uma percepção mais otimista do que a realidade sobre o estado de saúde de seu animal (falei um pouco sobre isso nessa coluna). Essas características poderiam dificultar a tomada de decisão pela eutanásia e levar ao sofrimento dos animais.

Avaliação é subjetiva

Entre os problemas que aumentaram a chance de eutanásia, a baixa qualidade de vida é o principal deles. Esse é um bom sinal, já que essa deveria ser a única coisa a se levar em conta neste momento.

Por exemplo, se um animal possui uma doença muito grave e incurável, mas segue mantendo sua rotina, se alimentando bem, sem dor e com bem-estar geral, de fato a doença grave por si não é um indicativo de eutanásia. A partir do momento que se perde a qualidade de vida de um modo irreversível, aí sim a eutanásia deve ser indicada. O problema aqui é que muitas vezes a qualidade de vida é uma avaliação subjetiva realizada pelos donos, que pode estar sujeita tanto a uma superestimação quanto a uma subestimação.

Comportamento não é motivo

O que me chamou a atenção negativamente foi a alta proporção de animais submetidos à eutanásia por problemas comportamentais: 7,3% dos cachorros eutanasiados do estudo.

Isso para mim reflete uma falha de todos: dos criadores que vendem um filhote sem indicar os cuidados necessários, de donos que adquirem um cão sem pesquisar o que estão levando para a casa e como cuidar dele e de nós veterinários que não temos a formação adequada para ajudar com esse problema e falhamos nas orientações desde que o animal é um filhote.

A imensa maioria de animais com problemas comportamentais pode ser tratada com sucesso e, para mim (e acredito que para a grande maioria dos veterinários), esse é um motivo inaceitável para eutanásia.

Mais doentes cardíacos

Por outro lado, entre os problemas que levam a um aumento na chance de morte não assistida, o que mais me chamou a atenção foram os problemas cardíacos. Animais com doença cardíaca tiveram um dos maiores riscos relativos de morrer de maneira não assistida. Isso pode ser explicado pelo fato de que, por mais que as principais doenças cardíacas dos cães sejam crônicas, que se desenvolvem ao longo do tempo, muitas vezes elas podem ter uma complicação súbita e levarem a óbito antes que seja possível pensar na eutanásia.

Porém, uma questão levantada pelo trabalho e que talvez tenhamos que refletir a respeito, é que é possível que alguns desses animais já tivessem uma má qualidade de vida antes de morrerem, já tendo indicação de eutanásia. Sabemos que a sensação de falta de ar, por exemplo, gera uma grande piora de qualidade de vida, e é possível que alguns desses animais estivessem passando por isso por algum tempo antes de morrerem.

Questão deve ser abordada

Esse trabalho traz à tona a importância de se falar mais sobre a eutanásia e dos veterinários prepararem os donos dos animais, desde cedo, para essa decisão. Afinal, como observamos nesse caso, 9 em cada 10 donos de cão tiveram que tomá-la.

Não sei o quanto desse estudo é possível extrapolar para a realidade brasileira, mas acredito que uma pesquisa semelhante no Brasil poderia trazer uma proporção menor de animais eutanasiados. Isso ocorre porque, por sermos um país mais pobre, talvez menos animais tenham acesso a um tratamento veterinário adequado. Em compensação, por esse mesmo motivo, talvez a nossa proporção de eutanásias por doenças evitáveis, como as infecciosas, ou por razões financeiras, em que o dono não consegue pagar o tratamento, seja maior.

Acredito que hoje, com o apego maior dos donos pelos pets, que se tornaram membros da família, a quantidade de eutanásias por motivos comportamentais, de conveniência, e financeiros esteja diminuindo. Ainda assim, todos os dias os veterinários passam por situações em que donos querem a eutanásia de um animal sem justificativa razoável. É por casos assim, que frequentemente os veterinários têm em suas casas animais paraplégicos, com três patas, um olho...

Em compensação, também tenho observado muito o outro extremo. Animais que têm uma condição irreversível, que estão sofrendo muito e que não há mais nada a ser feito, mas que seu dono não consegue aceitar a eutanásia. Essas são situações muito tristes, geram uma sensação de impotência nos veterinários, que incapazes de ajudar o animal, seguem vendo a manutenção de seu sofrimento.

Cuidado no fim da vida

Hoje em dia, assim como na medicina humana, os cuidados paliativos têm avançado muito na veterinária. Essa é uma especialidade cujo objetivo não é curar a doença que o animal tem, mas sim dar o máximo de conforto para evitar o sofrimento ao fim da vida. Nesses momentos, na qual há, por exemplo, um câncer incurável, uma alteração neurológica ou uma doença renal, o objetivo é que o animal não sinta dor, que não tenha mais náuseas e possa voltar a comer, que consiga seguir passeando. Enfim, que possa aproveitar um pouco mais de seu tempo.

Além disso, também têm sido desenvolvidas algumas ferramentas capazes de avaliar a qualidade de vida dos animais de maneira objetiva. Para isso, o dono responde perguntas sobre o estado geral de seu animal (alimentação, dor, hábitos de higiene, sono, mobilidade, entre outros.).

Com base nas respostas, são atribuídas pontuações, que ajudam na tomada de decisões sobre as possibilidades de tratamento e, em último caso, se a eutanásia está indicada. O uso desses questionários pode dar mais segurança para donos e veterinários nesse momento difícil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL