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Coluna do Veterinário

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cão ou gato soltam muito pelo? Saiba quando isso é um problema de saúde

Sofre com os pelos espalhados pela casa? Saiba por que os animais soltam fios - Getty Images/EyeEm
Sofre com os pelos espalhados pela casa? Saiba por que os animais soltam fios
Imagem: Getty Images/EyeEm
André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para Nossa, em Murcia (ESP)

28/05/2021 04h00

A queda de pelos costuma incomodar bastante donos de cães e gatos. Especialmente para os de primeira viagem, que podem ser pegos de surpresa, este é um dos grandes motivos de queixas durante consultas veterinárias.

Em geral, nesses casos há uma boa e uma má notícia: a boa é que na maioria das vezes a queda de pelos não é um problema de saúde, e sim fisiológica. A má é que, por ser fisiológica, não há muito o que fazer para evitá-la.

Os pelos dos animais têm um ciclo de vida que varia em função de espécie, raça, fase da vida e parte do corpo, entre outros fatores. O responsável pela produção dos pelos é o folículo piloso.

Em condições normais, ele tem uma fase produtiva, em que o pelo cresce até o seu tamanho padrão. Ele passa então para uma fase de atrofia, em que a base do pelo se desloca mais para a superfície da pele e, em seguida, um novo começa a crescer na base do folículo. Os pelos que vemos cair dos cães e gatos normalmente são aqueles velhos, que foram empurrados para fora e se soltaram durante a fase de atrofia.

Variação entre os cães

A espécie canina possui a maior variabilidade entre os indivíduos (eu acho incrível que um São Bernardo de 90 kg e um chihuahua de 1 kg são da mesma espécie). Quando observamos sua pelagem, as diferenças obviamente ficam muito claras: fino, grosso, ondulado, liso, curto, comprido…

Existem ainda os animais de pelagem dupla, que possuem dois tipos de pelo: um pelo mais longo externo e o subpelo, mais fino e curtinho, responsável pelo isolamento térmico. Essa é a pelagem que observamos em animais das raças spitz, chow chow, collie, bernese e golden retriever, por exemplo. O tipo de pelagem também influi diretamente no padrão de quedas de pelo ao longo do ano.

A primeira coisa que as pessoas costumam imaginar quando observam um cachorro peludo — como um yorkshire ou um poodle — é que devem soltar muito pelo. Porém, de maneira contra intuitiva, esses animais perdem muito pouco pelo.

Já alguém que compra um pug, com seu pelo curtinho, pode pensar que não terá problemas com isso. De fato, cuidar de sua pelagem é tarefa muito mais simples, mas, em compensação, eles soltam muito pelo, durante todo o tempo.

E por que isso ocorre?

O pelo do pug e dos cães de pelagem curta em geral tem um ciclo de vida menor do que o dos cães de pelo longo. Isso significa que, em um mesmo período de tempo, eles vão trocar muito mais de pelos do que um yorkshire, por exemplo.

Então, pensando no trabalho de limpeza da casa, os de pelo curto, por incrível que pareça, dão um trabalho maior e mais constante ao longo do ano.

Sazonalidade

Além da troca constante de pelos, ainda existem as trocas sazonais, que ocorrem duas vezes ao ano, durante a primavera e o outono. Elas são determinadas por alterações hormonais, que ocorrem induzidas pelos períodos de luminosidade no dia e pela temperatura.

Essas trocas são mais pronunciadas em locais de maior latitude, onde as estações do ano são melhor definidas. Por isso, em grande parte do Brasil, elas não ocorrem de maneira tão evidente.

Novamente, durante as trocas sazonais também são observadas diferenças entre os tipos de pelagem dos cães. Neste caso, notamos uma troca bem evidente nos cães de dupla pelagem. Neles, o subpelo, principalmente, é trocado: no outono o pelo de verão, menos denso, cai, em preparação para ser substituído pelo de inverno, que ajuda a proteger do frio. Já na primavera ocorre a principal queda de pelos, quando a pelagem espessa do inverno é perdida, de modo a adaptar o corpo ao calor do verão.

Esse pico de trocas sazonais geralmente dura algumas semanas, não devendo passar muito de um mês.

Aqui na Espanha, onde moro, essas variações são muito perceptíveis. Tenho dois cães, o Chico (homenagem ao Buarque), um típico vira-latas caramelo de pelo curto brasileiro, e a Tereza (da praia), uma golden retriever.

O Chico solta pelo durante todo o ano, um pelo chato, que gruda nas roupas e nos móveis. Já a Tereza, que costuma soltar menos pelos, compensa tudo isso no outono e, principalmente na primavera.

Nesse momento, estamos no pico do sofrimento em casa. Tenho que passar aspirador todos os dias, e parece que quando termino, já preciso começar novamente. É possível que os leitores que moram mais para o Sul do Brasil estejam sofrendo nesse momento com as trocas de pelo de outono de seus amigos.

Gatos

Gato tem pelos escovados - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Os gatos, assim como os cães, possuem uma queda fisiológica mais constante e também as quedas sazonais.

Nos felinos que vivem totalmente dentro de casa, as trocas sazonais são menos evidentes, já que eles estão menos expostos às variações climáticas e de período diário de luz. Esses animais acabam tendo uma troca mais pronunciada e constante ao longo do ano.

A espécie apresenta menos variações que os cães e, salvo raças como Sphynx (aquele gato careca do Dr. Evil do Austin Powers), por razões óbvias, a queda de pelos costuma ter um padrão mais homogêneo entre as diferentes raças.

Até que ponto consideramos normal?

Durante a primavera eu fico realmente impressionado com a quantidade de pelos que sai da minha cachorra. Não parece possível caber tudo isso nela! Confesso que já recorri a amigos dermatologistas para confirmar se estava tudo bem mesmo. Porém, felizmente eles sempre me atestaram que estava tudo normal e me lembraram das dicas a serem observadas.

A queda de pelos normal deve ocorrer sem a presença de qualquer sintoma. Portanto, antes de se preocupar, observe se o seu animal apresenta algum desses sinais: coceira, falhas na pelagem, perda em uma região específica, presença de caspa ou alterações como diminuição no brilho e presença de oleosidade.

Importante notar ainda a presença de outros sintomas, como apatia, perda ou ganho de apetite e de peso, que podem indicar que o animal tem um problema sistêmico que também causa a perda de pelos.

Caso haja algum sintoma associado, é importante buscar atendimento veterinário o quanto antes, para descobrir o que está acontecendo.

Como diminuir a queda de pelos?

Infelizmente, evitar a queda de pelos fisiológicos é impossível, já que ela faz parte da biologia de nossos amigos.

O que pode ser feito e que tem melhor eficiência para diminuir a sujeira pela casa é rasquear o animal. Isso deve ser feito com uma escova própria, e cada tipo de animal tem uma frequência mais adequada para isso. Além disso, banhos regulares também ajudam na remoção dos pelos mortos dos cães.

Seu pode explicar o modo e a periodicidade ideal para fazer a escovação e dar os banhos. A remoção dos pelos mortos ainda ajuda no conforto dos animais e diminui a formação de bolas de pelo no estômago dos gatos.

No caso da identificação de alguma patologia associada, o tratamento se dará na causa do problema, que podem ser muitos: uma dieta inadequada — que pode ser resolvida por uma simples troca de ração ou utilização de suplementos —, alergias, infestações por parasitas e até problemas endócrinos como o hiperadrenocorticismo.

Pode ainda ser indicativo de estresse, necessitando de mudanças ambientais ou no manejo. Para todos os casos, somente uma consulta com veterinário poderá dizer realmente o que está acontecendo.

Se tratando de pele, é sempre bom lembrar: se o seu animal tem qualquer problema de pele, não aplique nada antes de consultar o veterinário.

É muito comum que cheguem à consulta animais que já receberam aplicação de pomadas, spray de prata, violeta genciana, entre outros. Esses produtos, quando mal utilizados, podem dificultar o diagnóstico e até piorar o problema que o animal apresenta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL