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"Parem de ver gravidez como doença", dizem atletas em desabafo sobre Nike

Alysia Montano chocou os Estados Unidos ao correr grávida em provas de atletismo - Ezra Shaw/Getty Images
Alysia Montano chocou os Estados Unidos ao correr grávida em provas de atletismo Imagem: Ezra Shaw/Getty Images

Ana Carolina Silva

Do UOL, em São Paulo

14/05/2019 20h58

Em relatos publicados pelo jornal "The New York Times", atletas olímpicas dos Estados Unidos desabafaram sobre a Nike nesta semana. Kara Goucher e Alysia Montaño alegam que a empresa colocou em pausa seus pagamentos de patrocínio quando engravidaram. Ciente de que precisava sustentar o bebê, uma foi obrigada a escolher entre correr e amamentar, e a outra chegou a competir no oitavo mês de gestação.

"Empresas como a Nike dizem para nós sonharmos alto. Nós dizemos: que tal se vocês parassem de tratar gravidez como doença?", relatou Alysia em vídeo, no qual mostrou parte da rotina como atleta e mãe. Segundo ela, o Comitê Olímpico dos EUA tirou seu plano de saúde durante a gestação, e a Asics, empresa de artigos esportivos, indicou que reduziria seu patrocínio em caso de acordo.

Em contato com o UOL Esporte, a Nike admitiu que, historicamente, "algumas atletas do sexo feminino tiveram pagamentos reduzidos com base no não cumprimento de suas obrigações contratuais de desempenho". A fornecedora diz que "é prática comum" que seus contratos incluam cláusulas relacionadas a desempenho".

No entanto, a empresa afirma ter mudado sua postura em 2018, ao reconhecer inconsistência no tema. "Padronizamos nossa abordagem em todos os esportes, de modo que nenhuma atleta feminina seja penalizada financeiramente pela gravidez", comunicou ao UOL.

Sydney Leroux treinou pelo Orlando Pride no 5º mês de gestação - divulgação/Orlando Pride
Sydney Leroux treinou pelo Orlando Pride no 5º mês de gestação
Imagem: divulgação/Orlando Pride

"Ficar grávida é o beijo da morte para uma atleta mulher. Se eu engravidasse, não contaria para a Nike de jeito nenhum", disse ao jornal "The New York Times" a atleta Phoebe Wright, que foi patrocinada pela Nike de 2010 a 2016. Alysia Montaño, por sua vez, levantou a voz por uma legislação de licença maternidade para as atletas.

"Não ter um sistema que proteja nossas atletas mulheres é algo que põe nossa saúde em risco. Nossos patrocinadores sabem que isso não é certo, e é por isso que colocam cláusulas de confidencialidade nos contratos que nos proíbem de falar do problema", acusou.

Kara Goucher ouviu de seu médico que precisava fazer uma escolha: correr 190 quilômetros por semana (para manter o ritmo e o desempenho que fariam com que seu pagamento não fosse reduzido) ou amamentar seu filho. Seu corpo não aguentaria as duas atividades no mesmo período.

Ela acabou marcando uma meia-maratona três meses após o nascimento do herdeiro, Colt. Mas ele logo ficou doente, e Kara foi forçada a tomar uma decisão difícil mais uma vez. Ela deveria ficar com o menino no hospital, ou treinar para a corrida que daria dinheiro a ela para sustentar o filho?

Kara continuou treinando. "Eu senti que precisava deixá-lo no hospital e continuar treinando, correndo, levando meu corpo ao limite, em vez de ficar com ele como uma mãe normal faria. Eu nunca vou me perdoar por isso", disse a atleta ao "Times", chorando.

Em 2019, a Nike já lançou pelo menos dois comerciais de televisão com temática progressista nos Estados Unidos. Em fevereiro, a tenista Serena Williams foi a voz e o rosto de uma campanha na qual dizia: "Se eles quiserem te chamar de louca, mostre a eles o que a louca pode fazer".

No último domingo (12), Dia das Mães, a empresa divulgou um vídeo intitulado "Sonhe Conosco" ("Dream With Us"). As imagens mostram mulheres superando seus limites físicos em diferentes esportes e níveis, entre amadoras e profissionais. As esportistas que desabafaram contrariam este discurso, e o debate expõe a distinção entre dois departamentos da Nike e de outras empresas da categoria: marketing e financeiro.

"A indústria do esporte permite que homens tenham uma carreira completa. Mas quando uma mulher decide ter um bebê, a indústria a expulsa", relatou. "Quando eu disse para a Nike que teria um bebê, eles disseram: É simples, vamos pausar seu contrato e parar de te pagar'".

Alysia enviou um recado às atletas que são gestantes, mães ou sonham com a maternidade.

"Se eles tratarem sua gravidez como distração ou lesão, lembre-os do que nos disseram: grandes atletas nunca desistem. Grandes atletas testam os limites do que é possível dentro e fora das pistas", disse a atleta, concluindo a mensagem com uma ironia relacionada à Nike: "Porque esse é o espírito que enche estádios e vende tênis".

Leia o comunicado enviado pela Nike ao UOL:

A Nike se orgulha de patrocinar milhares de atletas do sexo feminino. Como é prática comum, nossos contratos incluem cláusulas relacionadas a desempenho.

Historicamente, algumas atletas do sexo feminino tiveram pagamentos reduzidos com base no não cumprimento de suas obrigações contratuais de desempenho. Reconhecemos que havia uma necessidade de mais consistência em nossa abordagem e, em 2018, padronizamos nossa abordagem em todos os esportes, de modo que nenhuma atleta feminina seja penalizada financeiramente pela gravidez.

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