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Reclassificações de rivais deixaram Daniel Dias sem 5 ouros e R$ 800 mil

Daniel Dias durante classificatória da natação nas Paralimpíadas de Tóquio - Ale Cabral/CPB
Daniel Dias durante classificatória da natação nas Paralimpíadas de Tóquio Imagem: Ale Cabral/CPB

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em São Paulo

02/09/2021 12h00

Depois de ganhar 14 medalhas de ouro nas últimas três edições dos Jogos Paralímpicos, Daniel Dias encerrou sua participação em Tóquio-2020 com apenas duas medalhas individuais, ambas de bronze, e passando longe de brigar por algo melhor. Não que o brasileiro tenha piorado consideravelmente seus tempos, seus velhos rivais da classe S5 tenham evoluído ou alguém mais talentoso tenha surgido. O desempenho é reflexo de contestáveis rebaixamentos funcionais de atletas da Itália, da Espanha, da Ucrânia e da China, que tiraram R$ 800 mil e cinco medalhas de ouro do brasileiro.

"Eu senti muito na pele. Toda essa reclassificação afetou o número de medalhas do que eu podia conquistar, o que eu podia fazer", avaliou Daniel Dias, em entrevista coletiva em Tóquio. Não fossem os atletas rebaixados, o brasileiro teria ganho cinco medalhas de ouro. Cada uma delas vale prêmio de R$ 160 mil oferecido pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

No esporte paralímpico, os atletas competem contra rivais com deficiências semelhantes, assim como nos esportes de luta há subdivisão de peso. Na natação existem três classes para deficientes visuais, uma para deficientes intelectuais, e dez para deficientes físicos. Todas começam com a letra S. Quanto maior o número, maior a funcionalidade. A classificação funcional é feita em um processo que envolve testes de forma muscular, mobilidade articular e testes motores (realizados dentro da água), entre outros.

Historicamente esse é um tema sensível no movimento paralímpico, mas a situação vem gerando um desconforto grande desde 2019 e que impactou nos resultados em Tóquio. Um exemplo: os 50m costas na classe S5. Daniel Dias venceu essa prova em Londres-2012 com o tempo de 34s99, então recorde mundial, e com 35s40 na Rio-2016. Em Tóquio, piorou um pouco, para 35s99, tempo que seria suficiente para o ouro nas duas edições anteriores das Paralimpíadas. Ainda assim, ficou apenas em quinto.

Todos os atletas que chegaram na frente dele, três chineses e um ucraniano, eram da classe S6 até o início do ciclo paralímpico e foram rebaixados para competir contra atletas de maiores restrições físico motoras. Tao Zheng, ouro, chegou a competir na S7, foi medalhista na Rio-2016 na S6 e venceu os 50m costas com incríveis 31s42, quatro segundos a menos do que o tempo do ouro do brasileiro em 2016.

O chinês Lichao Wang, segundo colocado, e o ucraniano Yaroslav Semenenko, quarto, também foram medalhistas na Rio-2016 na S6, classe em que também competia o chinês Wang, bronze. Todos já tinham resultados expressivos em uma categoria mais rápida e foram colocados para competir contra atletas mais lentos, mesmo sem que houvesse uma mudança oficial do chamado "perfil de classe". O que mudou foi o entendimento sobre as deficiências de todos esses atletas.

Isso impediu que qualquer atleta que historicamente é da S5 chegasse ao pódio em Tóquio. Em todas as cinco provas individuais que nadou, Daniel Dias foi o melhor entre eles, perdendo apenas para adversários que vieram da S6. É o caso também do italiano Francesco Bocciardo (ouro nos 100m livre) e do espanhol Antoni Ponce Bertran (prata nos 200m), ambos multimedalhistas mundiais na S6 e depois rebaixados. Até o cazaque Siyazbek Daliyev, quinto nos 50m borboleta, que ficou à frente de Daniel Dias nessa prova, veio da classe mais alta.

Nessa leva de rebaixamentos, o Comitê Paralímpico Internacional (IPC) chegou a reclassificar também o italiano Antonio Fantin, que bateu o recorde mundial dos 100m livre na S5 em 2019. Nesse caso, não houve como negar o erro e voltar atrás. No retorno à S6, Fantin ganhou o ouro nos 100m com 1min3s, seis segundos mais rápido que fizeram os melhores da S5 em Tóquio. Suas restrições de mobilidade são tão mais leves que ele vai competir na S7 nos 50m livre.

"A natação evoluiu, o esporte paralímpico evoluiu, mas a classificação não acompanhou isso. Tenho conversado com muitos atletas. Muitos estão parando de nadar por causa da reclassificação", disse Daniel Dias, apontando o exemplo de André Brasil, brasileiro dono de sete ouros paralímpicos que, em 2019, foi desclassificado. Ou seja: a deficiência dele não mais o torna apto para disputar provas paralímpicas.

"A gente não entende como o André Brasil, que foi a três Paralimpídas, não é hoje considerado um atleta paralímpico. O recorde dele está aí ainda. Se ele não é mais paralímpico, como pode valer o recorde dele?", questionou.

A revolta quanto às reclassificações na natação brasileira é enorme desde 2019, mas Daniel vinha se abstendo de fazer críticas mais incisivas e havia prometido falar depois de encerrar a carreira. O tema é delicado porque a natação paralímpica do Brasil culpa o presidente do IPC, Andrew Parsons, pela bagunça, ao mesmo tempo em que é grata a ele, que é ex-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

"É um assunto que precisa ser mais falado. A gente vê a classificação um tanto quanto inconclusiva, subjetiva, confusa. Isso eu falo porque eu conversei com bastante atletas, e é triste dizer que a natação tem regredido nesse sentido, e a gente quer que isso avance. Peço ao IPC que olhe com carinho enorme nesse assunto. É preciso ouvir atletas, técnicos, biomecânicos, todos envolvidos na natação", cobrou Daniel, em discurso que também tem teor político, já que ele é candidato a representante dos atletas no IPC.