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Medalhista olímpico, Piu tinha o sonho de ser recordista brasileiro juvenil

Amanda Romanelli

Colaboração para o UOL, em São Paulo

03/08/2021 00h38

Medalhista de bronze nos 400 metros com barreiras em sua primeira participação olímpica, Alison dos Santos, o Piu, tinha um sonho bem mais modesto quando começou a encarar o atletismo como profissão: ele queria ser recordista brasileiro juvenil (sub-20). O ano era 2016, e o adolescente nem poderia imaginar que, cinco anos depois, ele já teria batido recordes brasileiros 12 vezes, seis apenas neste ano —a última delas, na final dos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Tal como Cesar Cielo, que ficou "torcendo" para que seus recordes mundiais dos 50m e 100m livre, conquistados em 2009, não fossem batidos agora em 2021, o desejo de Alison era que seu nome ficasse para a posteridade. Afinal, um recordista sempre será lembrado em sua prova enquanto a melhor marca da disputa não for superada.

"Quando comecei, meu foco principal era ser recordista brasileiro juvenil, um feito que consegui conquistar. Eu sonhava muito com isso! Queria ter meu nome como recordista. Pensa... vai ter um Campeonato Brasileiro juvenil: aí, na hora em que saísse o resultado, meu nome estaria lá, mesmo que eu não estivesse participando, mesmo que já tivesse passado muito tempo... meu nome estaria lá, como recordista", contou, empolgado. Mas Alison já foi muito além.

O primeiro recorde brasileiro (e também sul-americano) de Alison foi, justamente, na categoria sub-20, ou seja, juvenil. No dia 19 de abril de 2019, ele correu os 400m com barreiras em 49s48 no Bryan Clay Invitational, disputa realizada na Califórnia. A marca anterior era 49s62, de Mikael de Jesus, obtida em 2016.

Esse resultado, além de recorde nacional e continental, também valeu ao barreirista o índice para a sua primeira grande competição entre os adultos, os Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru.

Impressionante, porém, foi a sequência de recordes batidos desde então. Só em 2019, com 18 e 19 anos —ele nasceu em 3 de junho de 2000, ou seja, é um autêntico representante da Geração Z—, Alison melhorou o recorde nacional e continental mais seis vezes. Ainda em abril daquele ano, o barreirista venceu o GP Brasil em 48s84, resultado que lhe garantiu vaga em seu primeiro Mundial Adulto, em Doha (Catar).

Em 11 de julho, Alison fez 48s57 na final da Universíade de Nápoles. Dez dias depois, correu a decisão do Campeonato Pan-Americano sub-20, na Costa Rica, em 48s49. No dia 8 de agosto, fez 48s45 na final dos Jogos Pan-Americanos de Lima. Três grandes resultados em três finais de importantes torneios. Mais do que correr rápido, Alison ganhou o ouro em todos.

Aí veio a principal competição da temporada de 2019: o Mundial de Doha, o seu primeiro entre adultos. E Alison bateu o recorde brasileiro e sul-americano sub-20 mais duas vezes. Na semifinal, fez 48s35. Na final, conquistou a 7ª posição com a marca de 48s28 e garantiu a classificação para as Olimpíadas de Tóquio. Fazia 20 anos que o Brasil não tinha um finalista mundial nos 400m com barreiras.

Em 2021, mais seis recordes batidos: os últimos, nas Olimpíadas

O Mundial de Doha foi a última competição oficial de Alison até abril de 2021. No atletismo, o período entre setembro e fevereiro é chamado de "base". É a época do ano em que os atletas se dedicam à preparação para a temporada de competições do ano seguinte. Por causa da covid-19, a base para 2020 acabou justamente quando o mundo se fechou por causa da pandemia.

Assim como atletas do mundo todo, Alison teve dificuldades para treinar em 2020 —e até pegou covid. Mas, quando 2021 começou, nem parecia. É difícil de acreditar, mas essa é a primeira temporada do brasileiro como adulto. "Só sei que na minha vida as coisas aconteceram muito rápido", admite o barreirista, que completou 21 anos em junho e é o atleta mais novo da equipe masculina brasileira em Tóquio.

Logo na segunda prova do ano, em 24 de abril, Alison venceu o Drake Relays, tradicional competição nos EUA, com o tempo de 48s15: recorde brasileiro e sul-americano sub-23.

Piu emendou mais uma sequência de resultados impressionantes: no dia 9 de maio, tornou-se o primeiro brasileiro a correr os 400m com barreiras abaixo dos 48 segundos. Ele foi terceiro colocado no USATF Golden Games, na Califórnia, com a marca de 47s68. Ali, tornava-se recordista nacional e continental adulto, superando os resultados do brasileiro Eronilde de Araújo (48s04, de 1995) e do panamenho Bayano Ali Kamani (47s84, de 2005).

Desde então, Alison não escondeu seu desejo de ser um atleta sub-47. E está cada vez mais próximo disso. Em três participações em provas da Diamond League, o principal circuito do atletismo mundial, melhorou ainda mais sua marca: em 28 de maio, fez 47s51 em Doha. Em julho, correu 47s38 em Oslo e 47s34 em Estocolmo.

E aí chegaram os Jogos Olímpicos de Tóquio. Alison passou com tranquilidade pela eliminatória, com o objetivo apenas de classificar. Na semifinal, sem poder correr o risco de ficar fora da disputa por medalhas, fez uma corrida forte e bateu o recorde pela quinta vez na temporada. Com 47s31, recolocou o Brasil em uma final olímpica dos 400m com barreiras após 21 anos. Na final, melhorou ainda mais esta marca, fechando a prova em 46s72.