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Atletismo: Lucas Vilar, dos 200m rasos, parcelou 1º tênis em 10 vezes

Lucas Vilar vai representar o Brasil em Tóquio nos 200m  - Wagner Carmo/CBAt
Lucas Vilar vai representar o Brasil em Tóquio nos 200m Imagem: Wagner Carmo/CBAt

Roberto Salim

Colaboração para o UOL, em São Paulo

02/08/2021 04h00

Representante brasileiro nos 200m rasos nas Olimpíadas de Tóquio, Lucas Vilar era um menino magrinho e esmirradinho, como tantos outros da cidade de Guariba, a 338km da capital paulista. De origem humilde, ele não tinha parada, era muito ansioso e gostava muito de pescar com o avô Benedito à beira do Rio Mogi-Guaçu.

E a história do Luquinha, agora com 20 anos, bem parece caso de pescador, desses que animam o folclore do interior brasileiro com suas mentiras.

Ainda criança, aos 10 anos, ele começou a frequentar o projeto "Mexa-se Talento", que desemboca na surpreendente equipe de atletismo do Águias de Guariba. Atualmente, são atendidos 200 jovens com idades entre 7 e 18 anos. A prefeitura da cidade dá o apoio, cede o espaço e transporte. Mas são os professores Nelson Leme e Marcelo de Oliveira Moreira que tocam o projeto.

Nelson foi velocista e hoje é o orgulhoso treinador que encaminhou o menino veloz para a equipe do Sesi Santo André (na Grande São Paulo), depois da conquista da medalha de bronze na Olimpíada da Juventude, em Buenos Aires, em 2018, na prova dos 200m.

Bingos e rifas para bancar competições

Lucas Vilar, do atletismo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Lucas Vilar, do atletismo, começou a treinar aos 10 anos
Imagem: Arquivo pessoal

Até então, Lucas Vilar, o Luquinha, era só uma promessa, que, como tantas outras, corria o risco de encerrar a carreira precocemente para ajudar nas despesas de casa.

"Quando tinha competição fora da cidade, eu ajudava com R$ 2, a minha cunhada com mais dois, minha sogra com R$ 1. Foram momentos difíceis: treinava descalço, não tinha dinheiro para comprar lanche. Enfim, juntávamos um dinheiro para que ele pudesse comprar um sanduíche", conta a mãe Vanusa, com emoção à flor da pele.

"Aqui na cidade, comprávamos pão e fazíamos sanduíche de mortadela para levar na viagem. Levávamos suco também", relembra, com orgulho de garimpeiro, o técnico Nelson. "Fazíamos rifa, fizemos até bingo de moto para juntar dinheiro para incentivar a garotada e levar às competições."

O que o professor Nelson conta não é muito diferente do que ocorre na maioria das equipes de base do país, principalmente no atletismo.

"Teve uma vez que fizemos pizza. Aí fomos inventar uma grande feijoada. Passamos dias preparando tudo. A feijoada ficou muito boa, mas acabou que deu prejuízo. Acontece...", conta o treinador, que batizou seu primeiro filho com o nome de Lucas, em homenagem ao seu atleta, que ele trata também como alguém da família.

A mãe relembra das dificuldades financeiras no início da carreira do filho, que cogitou parar de treinar na ajudar nas despesas de casa.

"Teve uma época em que o Luquinha pensou mesmo em parar. Eu trabalho como babá, o pai, com caminhão na entrega de leite. E então, meu filho disse que ia trabalhar com o pai. Tinha 15 para 16 anos. Queria um tênis para competir e não tínhamos como comprar. A dificuldade era grande. E então, ele e a irmã Giovana, que é mais nova, começaram a acompanhar o pai em alguns trabalhos, como catar material reciclável nas ruas da cidade."

Nelson lembra direitinho dessa fase. "Ele estava para trabalhar como empacotador em um mercado aqui da cidade. Estava perdendo o estímulo. Nas provas, chegava em quarto lugar aqui e ali. E achava que não era mais para continuar. Então conseguimos uma bolsa de R$ 200 para ele", diz o técnico, que admite, após alguma insistência, que o dinheiro saiu de seu próprio salário.

E, finalmente, os resultados começaram a surgir: primeiro na pista de carvão do clube, depois nas competições.

"Compramos o tênis em um shopping, em 10 prestações", emociona-se a mãe ao lembrar que o primeiro calçado do filho custou R$ 300 em 2016. "Quem conhece a história do Lucas somos nós. Sei quantas lágrimas existem por trás dessa viagem para Tóquio, dessas medalhas."

Vanusa, mãe de Lucas Vilar, exibe as medalhas do filho - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vanusa, mãe de Lucas Vilar, exibe as medalhas do filho
Imagem: Arquivo pessoal

As medalhas passaram a enfeitar a parede do lar de dona Vanusa. Medalhas de sul-americano sub-20, torneios regionais, nacionais e a quase consagração nos Jogos Olímpicos da Juventude, quando ganhou o bronze nos 200m.

"E teve também o Campeonato Sul-Americano Sub 18, em Cuenca [Equador], onde ele brilhou muito e trouxe cinco medalhas: quatro de ouro (100m, 200m, revezamentos 4x100m e 4x400m) e uma de prata nos 400m."

E então veio a proposta do Sesi de Santo André. "O técnico Darci fez o convite, e isso foi fundamental para que ele se desenvolvesse ainda mais. Era importante ter as condições adequadas", diz Nelson.

"Agora quem nos ajuda nas despesas aqui de casa é o Luquinha, a quem eu chamo de meu Filho Amado", acrescenta Vanusa, que tem apenas 39 anos. O pai do Filho Amado é o padrasto Wesley, que o criou desde que tinha nove meses.

Convocação inesperada

Divulgada em 1º de julho de 2021, a lista oficial dos convocados para Tóquio não tinha o nome de Lucas. Porém, quatro dias após a divulgação, houve um remanejamento de vagas feito pela World Athletics, o Brasil conseguiu mais duas vagas no atletismo, o que abriu caminho para o jovem nos 200m.

"A convocação para os Jogos de Tóquio não foi pelo índice, mas, sim, pelos resultados que ele tem. E eu digo que agora não espero uma façanha tão grande no Japão. Mas podem escrever que em 2024, ele vai fazer história, vai ser finalista nos 200m", promete Nelson.

Vanusa atribui a um milagre a convocação tão precoce e inesperada de seu menino. "Já chorei muito, eu já não esperava. Nem ele esperava mais. E confesso que nem dormi quando ele viajou para Tóquio. Sabe como é mãe. E eu nem sei se vou conseguir assistir à prova na televisão. Sou muito nervosa, me emociono demais".

O professor Nelson já está organizando um grupo para acompanhar a corrida, especialmente as classificatórias dos 200m no dia 2 de agosto. E não vai faltar jovem atleta para torcer quando o amigo entrar na pista do Estádio Olímpico.

"O Luquinha é muito querido e, quando volta de qualquer competição, faz questão de distribuir todo o material que ganhou", ressalta o treinador, orgulhoso dos tempos do seu menino: 10s38 nos 100m e 20s56 nos 200m.

"Ele distribui calção, camiseta, sacola. É como se dissesse a todos: eu consegui, vocês podem conseguir também. E essa é a principal qualidade do meu filho: a humildade. E eu o chamo de Flecha do Arqueiro. O que está acontecendo com ele é um milagre. E Deus o está enviando cada vez mais longe."

A mãe já está pensando no retorno de sua flecha e a vovó Maria do Carmo já se prepara para fazer a receita que o querido neto tanto adora: bolo de abacaxi. Quem sabe, se Luquinha tiver tempo, o vovô Benedito o acompanhe à beira do velho rio Mogi, onde as piaparas estão escasseando ultimamente.

Mas essa história de pescador não termina aqui.

O professor Nelson recebeu a notícia de que um outro talento de sua trupe acabara de ser convocado para a equipe nacional que vai participar do Campeonato Mundial Sub-20, no Quênia, no mês de agosto: Isaías Alves Sales, 18 anos, que tem 10s46 nos 100m e tem 20s90 nos 200m.

Logo pode ser que Isaías seja encaminhado para uma equipe de ponta e ou levado também pelo técnico Darci Ferreira da Silva para Santo André. Pode até parecer coincidência. Coisa de história repetida, mas não é: as Águias de Guariba nasceram para voar muito alto.