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Série escancara 'lado Coringa', mas trata Neymar como 'herói possível'

Neymar em seu último jogo antes da lesão pelo PSG, contra o Saint-Étienne, em 28 de novembro de 2021 - Aurelien Meunier/PSG via Getty Images
Neymar em seu último jogo antes da lesão pelo PSG, contra o Saint-Étienne, em 28 de novembro de 2021 Imagem: Aurelien Meunier/PSG via Getty Images

Gabriel Carneiro

Do UOL, em São Paulo

25/01/2022 04h00

É lançada hoje (25) pela Netflix a série documental "Neymar: O Caos Perfeito". São três episódios entre 50 e 60 minutos de duração que se propõem a contar vida e carreira do jogador do PSG e da seleção brasileira com imagens e entrevistas exclusivas, além da promessa de apresentar "um lado ainda pouco conhecido de Neymar Jr., sem fugir das controvérsias", segundo diz o texto de divulgação.

Não fica na promessa. Fã do personagem Batman, Neymar tem exposto na série o seu lado Coringa —o grande vilão das histórias. Quase todas as maiores polêmicas da carreira do astro são abordadas na produção, de modo sutil ou escancarado. Isso não é lá muito comum em conteúdos audiovisuais autorizados pelo jogador e seu estafe e agrega valor à série da Netflix. O diretor David Charles Rodrigues diz que teve a palavra final em cada cena. Por isso, ironicamente, o fato de a narrativa fugir do controle de Neymar a deixa mais atraente.

A reflexão do diretor em entrevista ao UOL é que se uma série documental sobre Neymar não mostrar as polêmicas, crises, derrotas, brigas, frustrações e ódios, perderia força quando exibisse o momento das glórias. Portanto, dá-lhe polêmicas.

A acusação de estupro feita por Najila Trindade contra Neymar em 2019 ocupa três minutos e quinze segundos do segundo episódio da série. Está certo que o caso foi arquivado no mesmo ano e que o documentário o apresenta como uma espécie de malefício de ser famoso, mas ele abre uma das cenas mais preciosas de "Neymar: O Caos Perfeito": uma discussão feia entre o jogador e o pai, que também é seu empresário.

Neymar - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Neymar e o pai em sessão de fotos na série "Neymar: O Caos Perfeito"
Imagem: Divulgação/Netflix

O pai de Neymar mostra preocupação com o fato de o filho correr muitos riscos de arranhar a imagem por causa da vida extracampo. Até diz que Neymar hoje detesta sua companhia, mas que continuará acompanhando por proteção. A reação do jogador à declaração é tão forte e inesperada que o pai ensaia um choro na cena e sugere que o filho age de modo arrogante e sem humildade. O astro encerra a discussão dizendo que é por isso que ele faz tudo o que o pai manda, para não dar briga. Que cena!

Mais controvérsias

A série apresenta muitas vozes críticas a Neymar, especialmente de torcedores do PSG e da seleção brasileira. No maior estilo "fala-povo", dizem que "é difícil gostar de Neymar", que ele "deveria parar de agir como uma celebridade" e "não tem se esforçado, até engordou um pouco". Para um fã de Neymar, são palavras que devem doer.

Também há entrevistas com dois jornalistas, um deles o colunista do UOL Juca Kfouri, e ambos expõem opiniões duras sobre o jogador. Logo no início do primeiro episódio, Kfouri diz temer que Neymar "vá ser um caso clássico de alguém que não chegou no limite do seu talento". No segundo, afirma que Neymar saiu do Barcelona para ser protagonista e "se arrependeu rapidamente". Até o atacante Luis Suárez diz em sua entrevista que não concordou com a saída de Neymar do Barcelona em 2017.

Ainda há menções à fama de cai-cai, com exibição de muitos memes que invadiram a internet durante a Copa do Mundo da Rússia, à tentativa forçada de saída do PSG em 2019 e à exposição midiática que afastou o jogador da essência do futebol.

O curioso é que todas estas passagens sobre o lado Coringa de Neymar estão presentes numa série que a princípio sugere o contrário. A primeira cena de "Neymar: O Caos Perfeito" é do diretor perguntando ao jogador de que forma deveria começar o documentário. Neymar pede que seja "começando com o monstro" para no fim o conhecerem devidamente. A questão é que o "monstro" nunca sai de cena.

O primeiro episódio tem 50 minutos e se chama "Juninho". Além de um panorama geral na abertura, mostra os primeiros passos de Neymar no futebol e os tempos de glória com a camisa do Santos. A ideia parece ser explorar a essência. No segundo e mais longo episódio, "Neymar do Brasil", de 61 minutos de duração, a narrativa chega às Copas do Mundo de 2014 e 2018, às Olimpíadas de 2016 e ao auge no Barcelona. Já o terceiro episódio se chama "O Pai Tá On" e tem 53 minutos. Aí surgem o PSG e a pandemia de covid-19.

Neymar - Michael Regan - UEFA/UEFA via Getty Images - Michael Regan - UEFA/UEFA via Getty Images
Vice da Liga dos Campeões 2019/2020 deixou Neymar "completamente triste", ele diz
Imagem: Michael Regan - UEFA/UEFA via Getty Images

Todas estas passagens da carreira de Neymar são contornadas por aspectos da vida pessoal e polêmicas e sob o plano de fundo da temporada 2019/2020, que os documentaristas acompanharam de perto. Foi neste período em que o PSG foi finalista da Liga dos Campeões da Europa, derrotado pelo Bayern de Munique no que poderia ser uma nova consagração de Neymar. Pelo menos como mecanismo narrativo funcionou.

"Na real não poderia ter tido um final melhor do que foi aquela Champions", conta o diretor David Charles Rodrigues, antes de completar:

"O que foi muito importante para mim foi capturar o que o Neymar estava vivenciando naquele momento presente, a temporada 2019/2020, e usar momentos daquele ano para poder contar a carreira inteira dele."

"Herói possível"

"Neymar: O Caos Perfeito" não segue a cartilha convencional das histórias de heróis, em que as provações da vida servem para anunciar a redenção. Pelo contrário, o Coringa não sai de cena. Mas o Batman também não. A sensação é de que os problemas não são escondidos, mas, de certa forma, justificados em muitos pontos da série, com argumentos para Neymar ser como é e agir como age diante de um contexto em que é mal compreendido e tem a liberdade limitada.

A série foi encomendada por Neymar e seu estafe para a plataforma "UNINTERRUPTED", do astro do basquete LeBron James, que em seguida formalizou parceria com a Netflix para a produção. Por isso, a ideia não é tornar o brasileiro vilão ou mocinho, e, sim, mostrar camadas que podem —ou não— gerar identificação com o público.

Neymar - Lucas Figueiredo/CBF - Lucas Figueiredo/CBF
Neymar em comemoração de gol contra o Peru, em setembro de 2021, é o segundo maior artilheiro da história da seleção
Imagem: Lucas Figueiredo/CBF

Mais do que isso: é encontrar o lugar de Neymar dentro do esporte entre o "herói possível", como diz seu pai, e o "caos perfeito", como relata o ex-companheiro de clube Daniel Alves. O próprio Neymar reflete sobre essa lógica de mão dupla na série:

A galera fica um pouco revoltada de eu ser o Neymar assim, focado em campo, mas também um cara que vive sua vida. Acho que isso ninguém conseguiu fazer bem e eu faço."

É difícil que alguém goste mais ou goste menos de Neymar depois de assistir aos três episódios da série, como ele queria, mas a produção parece ter capacidade de atingir de alguma forma ao fã e ao hater —e isso é sinal de coisa boa. Por fim, as escolhas da direção, os 26 entrevistados e a profusão de imagens íntimas mostram que Neymar está, sim, preocupado com o modo como é visto e como isso pode atrapalhar sua ideia de construção de marca e legado. Ao menos é uma história que não acaba agora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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