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São-paulinos relatam racismo, ameaças e agressões de todo tipo em Barueri

Semifinal da Copinha entre São Paulo e Palmeiras, mesmo com torcida única, tem diversos relatos de violência - Diogo Reis/AGIF
Semifinal da Copinha entre São Paulo e Palmeiras, mesmo com torcida única, tem diversos relatos de violência Imagem: Diogo Reis/AGIF

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

23/01/2022 16h05

Uma invasão com tentativa de agressão e uma faca atirada no gramado não foram os únicos episódios de violência de torcedores do São Paulo ontem (22), na derrota para o Palmeiras por 1 a 0 na semifinal da Copinha. São-paulinos relatam casos de racismo, ameaças e diversas agressões tanto dentro quanto nos arredores da Arena Barueri.

Marcelo*, que é uma figura influente entre são-paulinos nas redes sociais, diz que o clima estava tenso desde antes do jogo, por causa da reação exacerbada de alguns torcedores ao termo "Trikas", que viralizou há alguns dias. Depois do jogo, ele conta que torcedores organizados fizeram uma espécie de "corredor polonês" na Av. João Vila-Lobos Quero, onde fica a Arena Barueri.

"Tinha torcedores da organizada dos dois lados, gente hostilizando dos dois lados e você sentia medo só de estar ali", relatou em depoimento ao UOL Esporte. "Estávamos em um grupo de cerca de 25 pessoas, muitos jovens. Em um deles jogaram um copo de cerveja na cabeça, porque ele tem o cabelo descolorido. Em outro chegaram querendo arrancar um piercing. Um de nós foi tentar proteger e levou um soco na costela", conta.

"Só queríamos ir embora, mas tínhamos que passar por ali para ir à estação [de metrô]. Chegando na estação, tivemos que esperar por uma hora e meia ao lado de um carro de polícia, porque tivemos medo de entrar no metrô com toda a torcida lá dentro", relata o torcedor.

Julio*, de 22 anos, caminhava em direção ao carro depois do jogo quando alguns torcedores organizados o abordaram. 'E aí, é o Trikas?', perguntaram. "Dei uma resposta atravessada, porque já sabia do que se tratava. Aí, um deles ficou me provocando, querendo brigar. Quando dei as costas, ele me deu um soco na parte de trás da cabeça", conta em conversa com o UOL Esporte. Ele diz ter pensado em revidar, mas um amigo evitou confusão maior. Depois, o torcedor relatou a agressão a policiais que estavam por perto, mas, no calor do momento, preferiu ir embora em vez de prestar queixa.

Apesar do episódio, o jovem não pretende deixar de ir aos jogos. "Cada vez mais os jogos do São Paulo têm a Independente contra a torcida comum. A organizada cria as regras dela, baixa normas como se mandasse na arquibancada e vai afastando o torcedor comum. Fico chateado, mas continuo indo porque gosto", afirma.

Ricardo*, de 22 anos, foi à semifinal a trabalho, para produzir conteúdo. Calhou de acompanhar a ida e a volta de torcedores organizados e presenciou um aumento de tensão já antes da partida. "Depois do jogo, encontrei amigos e fomos para a estação. No caminho, um torcedor com esposa e filho de colo foi constrangido porque vestia aquela camisa rosa do São Paulo, da campanha do câncer de mama. Depois, já na Barra Funda, um outro veio até mim e disse 'você é porco. Se eu descobrir, você está na roça', respondi que não, que estava no jogo com eles e consegui ir embora o mais rápido possível", relatou ao UOL Esporte.

Jéssica*, de 17 anos, foi à Arena Barueri com o pai e, já no final do jogo, ambos presenciaram um caso de racismo. Um homem que estava ao lado dos dois disparou xingamentos a jogadores do Palmeiras, incluindo a palavra macaco. "Isso mexeu muito comigo. Não é a primeira vez que acontece no futebol, mas é a primeira vez que vi com meus próprios olhos", relatou em publicação nas redes sociais. Ela e o pai são negros.

Torcedora relata caso de racismo em semifinal da Copinha entre São Paulo e Palmeiras - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Torcedora relata caso de racismo em semifinal da Copinha entre São Paulo e Palmeiras
Imagem: Reprodução/Instagram

Alessandro* comprou ingresso para o setor das torcidas organizadas por gostar da festa e das músicas. Depois de entrar no estádio, ele foi abordado por um integrante de uma torcida organizada porque vestia uma camiseta rosa, oficial do São Paulo. "Melhor você sair daqui, tirar essa camisa e ir lá para o canto, porque quando os caras da bateria chegarem você será hostilizado e não poderá nem reclamar, porque já estou te avisando", ele ouviu e contou nas redes sociais. Com medo de ser agredido, acatou a sugestão, mas não foi o suficiente.

Depois do jogo, ao sair do estádio, foi xingado por vários outros são-paulinos. "Vários membros de organizada passaram do meu lado e me xingaram, de 'bicha' e vários nomes, só porque a camiseta era rosa", afirmou.

Esses não foram os únicos relatos de violência entre torcedores nos arredores da Arena Barueri. Áudios que circulam desde ontem denunciam outras várias hostilidades e ameaças a quem vestia rosa ou estava usando brinco, piercing e até dread no cabelo, estilos ou adereços que, recentemente, foram "banidos" pela Independente, a maior torcida organizada do São Paulo.

Dentro do estádio, quatro torcedores invadiram o campo já nos acréscimos do jogo, e pelo menos um deles tentou agredir jogadores do Palmeiras. No meio da confusão, um vídeo mostra que uma faca foi atirada no gramado. O ângulo sugere que o objeto tenha sido atirado por alguém que estava no setor B, o local destinado às torcidas organizadas do São Paulo, mas a investigação policial ainda não tem qualquer conclusão neste sentido. O clássico teve torcida única.

Procurada, a torcida Independente não quis se pronunciar —em postagem nas redes sociais, tratou a cobertura como perseguição e ignorou a faca encontrada no gramado da Arena Barueri. Já o São Paulo divulgou uma nota oficial curta repudiando os casos de violência.

* Por questões de segurança, o UOL Esporte alterou os nomes dos torcedores citados neste texto.