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Liga dos Campeões - 2020/2021

Dinheiro de petróleo muda futebol europeu e domina semifinais da Champions

Neymar comemora com Mauricio Pochettino após PSG se garantir nas semifinais da Liga dos Campeões - Xavier Laine/Getty Images
Neymar comemora com Mauricio Pochettino após PSG se garantir nas semifinais da Liga dos Campeões Imagem: Xavier Laine/Getty Images

Jamil Chade

Colaboração para o UOL, em Genebra

15/04/2021 11h50

Classificação e Jogos

Eles já eram ricos. Agora, entram em campo para serem grandes e confirmar uma mudança na geopolítica do futebol. Três dos quatro clubes que chegam às semifinais da Liga dos Campeões neste ano (PSG, Manchester City e Chelsea) são de propriedade de oligarquias estrangeiras, alimentados pelo petróleo e que, de uma maneira clara, desafiam o poder estabelecido dos tradicionais clubes europeus.

De um lado, Manchester City e PSG se enfrentam em uma das semifinais daqui a duas semanas, tendo cada um deles desbancado os principais clubes alemães: Borussia Dortmund e Bayern de Munique. O duelo será também uma disputa "regional" entre o emir do Catar e dono do clube de Paris, Tamim Bin Hamad Al Thani, e o xeique de Abu Dhabi e investidor do City, Mansour bin Zayed Al Nahayan.

Ambos desembarcaram no futebol europeu há pouco mais de dez anos, com objetivos claros de usar os clubes como instrumento político e diplomático. Os dois precisavam compensar a falta de democracia em seus regimes com uma estratégia de sedução dos "corações e mentes" no Ocidente.

Mas o impacto para a história recente do futebol europeu foi profundo. De um lado, o Catar retirou um clube da condição de segunda classe do futebol francês para transformar o PSG em uma nova realidade para o país e continente. Em 30 anos, o time de Paris apenas havia estado na Liga dos Campeões em cinco ocasiões. Agora, é um ator incontornável.

Antes de o Catar injetar dinheiro, a equipe estava distante do pódio por duas décadas. Depois de investir 1 bilhão de euros em dez anos, finalmente chegou à final da Liga dos Campeões em 2020.

Não faltaram polêmicas em relação ao papel dos investidores no clube francês, inclusive denúncias de que a participação tenha uma relação direta com o direito do Catar em sediar a Copa de 2022. Uma das suspeitas aponta que o emir teria prometido investimentos na França em troca do voto de Michel Platini para o Catar, na Fifa.

Já o City se transformou na nova referência de futebol na cidade de Manchester, deslocando o antigo dono da bola - o Manchester United - para uma nova posição. Com o dinheiro árabe, o clube voltou para a competição europeia em 2011, depois de uma ausência de 42 anos.

Esses dois clubes já são os principais atores no mercado da bola internacional. Em listas como a da Forbes, ambos aparecem entre os dez times mais valiosos do mundo. O City ocupa a sexta posição, avaliado em US$ 4 bilhões, contra US$ 2,5 bilhões no PSG, que aparece em nono.

Mas em listas que consideram apenas situação atual, avaliando o valor dos jogadores e valor de mercado, ambos já são líderes e deixaram para trás os tradicionais atores do futebol europeu. Para a Soccerex Football Finance, o clube mais poderoso em termos financeiros é o Paris Saint-Germain, seguido por Manchester City e Bayern de Munique.

Chelsea já foi campeão com "novo dinheiro" e pode voltar à final

O vencedor da "semifinal do Golfo" poderá enfrentar na final outro expoente do "novo dinheiro" no futebol: o Chelsea.

A história da equipe de Londres que alternou alguns bons e muitos péssimos momentos também foi revolucionada pelo dinheiro russo. Quando Roman Abramovic comprou o clube, em 2003, o que se constatou foi um fluxo permanente de recursos do petróleo para alimentar uma transformação no time.

Desde então, o Chelsea chegou a sete semifinais da Liga dos Campeões, algo que jamais tinha ocorrido. Em 2012, veio o maior resultado do projeto de Abramovic com o troféu europeu. Foram ainda cinco conquistas do Campeonato Inglês.

Se esses novos donos trouxeram títulos que a torcida jamais tenha imaginado e que foram amplamente festejados, um dos principais debates em relação ao desembarque do dinheiro de magnatas e regimes árabes no futebol é o temor de que esses clubes percam sua identidade local.

Ações são realizadas por cada um desses times para manter a relação com a comunidade de origem. Mas nenhum deles nega que, hoje, o objetivo é tornar suas marcas globais.

A identidade, portanto, ganha um novo significado. Quando voltarem aos estádios, as pessoas ocupando as arquibancadas não serão apenas a família do bairro do clube que, ao longo de décadas, apoiou o time. Mas também turistas que passaram a incluir um jogo do PSG no mesmo patamar de importância em um roteiro que visitar o Louvre ou a Torre Eiffel.

Outro debate se refere à inflação que tais investidores geraram no futebol. Para dezenas de clubes intermediários, os gastos realizados por esses magnatas afastou ainda mais as chances de que o futebol europeu seja "democrático".

Em sua campanha para presidir a Fifa em 2014, o dirigente francês Jerome Champagne já alertava sobre o risco de um distanciamento entre os clubes europeus e uma concentração de riqueza ainda maior que poderia ameaçar o futebol.

"Os clubes da Europa jogavam juntos há 30 anos, apesar da Cortina de Ferro. Hoje, substituímos uma cortina política que nunca impediu de jogar junto por uma cortina financeira que impede que um clube da Hungria enfrente o Real Madrid", disse.

De fato, em 2019 pela primeira vez, todos os 16 clubes nas oitavas de final da Liga dos Campeões vinham de apenas cinco países e que de fato controlam 85% das finanças do futebol europeu.

Real Madrid, maior campeão, é esperança da "velha guarda"

Nesta semana, ao superar o Bayern de Munique, Neymar declarou de forma orgulhosa que o PSG era já "um grande clube". No caminho de todos esses novos ricos, porém, há uma pedra. E uma enorme pedra: o Real Madrid. O clube mais tradicional da Europa vai para sua 29ª semifinal, dessa vez contra o Chelsea.

Em 2018, ao conquistar sua 13ª Liga dos Campeões, o time de Madri se deu conta que a vitrine na sala de troféus não tinha mais lugar para as taças europeias.

Uma nova vitrine teve de ser construída, mandando um sinal claro de que o clube não vai se conformar em apenas fazer parte da história do futebol.