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Sem dinheiro e com dívidas, Cruzeiro mira destaques em fim de contrato

Fachada da Toca da Raposa II, centro de treinamento do Cruzeiro - Guilherme Piu
Fachada da Toca da Raposa II, centro de treinamento do Cruzeiro Imagem: Guilherme Piu

Guilherme Piu

Do UOL, em Belo Horizonte

13/02/2021 04h00

Aquele ditado "vender o almoço para comprar o jantar" explica um pouco a atual situação do Cruzeiro. O clube está mergulhado em dívidas fiscais, tributárias, trabalhistas e sem poder de arrecadação — com agravante da pandemia —, inclusive, para bancar despesas básicas, como salários de jogadores e funcionários administrativos. Por isso, a diretoria está vendendo os diretos econômicos dos atletas oriundos de suas categorias de base para ganhar fôlego e se esforçar para manter o departamento de futebol "de pé".

O jovem volante Jadsom, 19 anos, que em um primeiro momento acionou a Justiça para deixar a Raposa por atrasos salariais e falta de pagamento de direitos trabalhistas, fez um acordo com a atual diretoria e será repassado ao Red Bull Bragantino. Essa negociação renderá pouco mais de R$ 5 milhões ao Cruzeiro e esse dinheiro servirá para quitar algumas pendências.

Além dessa saída, outro jogador revelado na Toca I pode sair. Trata-se do zagueiro Cacá, que interessa ao futebol japonês, e também pode render dinheiro aos cofres celestes.

A condição difícil no quesito financeiro exige que a diretoria busque alternativas dentro da realidade do clube. Por isso, o diretor de futebol André Mazzuco, que trabalha praticamente sem orçamento para contratações, analisa o mercado da bola e corre atrás de peças que se destacaram na Série B de 2020 e que estão em fim de contrato ou sem vínculo com algum clube.

Caso do meia Marcinho, destaque do Sampaio Corrêa na última temporada, e o primeiro reforço oficializado pelo Cruzeiro para 2021. O jogador foi confirmado ontem pela Raposa como contratação para esta temporada. Recentemente, o ex-treinador do meio-campista, Léo Condé, fez elogios ao jogador em entrevista ao UOL Esporte.

"O Cruzeiro precisa, antes de tudo, resgatar essa credibilidade, e isso passa pelas pessoas que estão no clube. A partir disso, a gente gera receita e começa a trazer esse clima para o ambiente", disse Mazzuco, em entrevista à Rádio Itatiaia.

Alguns jogadores já têm situação bem adiantada com o Cruzeiro, casos do volante Matheus Barbosa (destaque do Cuiabá), do também volante Matheus Neris, que pertence ao Palmeiras e estava no Figueirense e o zagueiro Eduardo Brock (deve deixar o Ceará para vir a Belo Horizonte). Se somam às situações desses atletas outros que interessam, como os meia Felipe Ferreira, que estava no Cuiabá, mas pertence à Ferroviária, e Bruno José, que jogou em 2020 no Brasil de Pelotas, mas pertence ao Internacional.

De todas as buscas e acertos já garantidos, de nada adiantará se o Cruzeiro não se livrar da punição imposta pela CNRD (Câmara Nacional de Resoluções e Disputas). É que o órgão puniu administrativamente a Raposa pela falta de pagamento ao PSTC, do Paraná, que não recebeu os 20% que tem de direito pela venda do zagueiro Bruno Viana, em 2016, ao grego Olympiacos. Viana, após mais de quatro anos no futebol europeu, voltou ao Brasil como reforço do Flamengo.

A dívida à época girava em torno de R$ 1,3 milhão, valor que pode sofrer juros e correções monetárias. Sem a quitação desse débito o time seguirá impedido de registrar atletas.

Atraso de salário pode gerar perda de ponto

O Cruzeiro deve cerca de R$ 10 milhões em salários para jogadores que ainda estão no clube e outros que saíram, mas fizeram acordo para receber os atrasados. E deixar de pagar salários pode acarretar punição com mais perda de pontos em campeonatos importantes.

Segundo o advogado Louis Dolabela, especialista em direito desportivo, o regulamento específico da Série B prevê que o clube que, por período igual ou superior a 30 (trinta) dias, estiver em atraso com o pagamento de remuneração, devido única e exclusivamente durante o campeonato, conforme pactuado em Contrato Especial de Trabalho Desportivo, o atleta profissional registrado ficará sujeito à perda de três pontos por partida a ser disputada, depois de reconhecida a mora e o inadimplemento por decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

"Ocorrendo o atraso, caberá ao atleta prejudicado, pessoalmente ou representado por advogado constituído com poderes específicos ou, ainda, por entidade sindical representativa de categoria profissional, formalizar comunicação escrita ao STJD, a partir do início até 30 (trinta) dias contados do encerramento da competição, sem prejuízo da possibilidade de ajuizamento de reclamação trabalhista, caso a medida desportiva não surta efeito e o clube permaneça inadimplente", comentou Dolabela.

O advogado ressalta a necessidade de haver a denúncia por parte do atleta ou representante. Assim sendo, após a denúncia, caberá, ainda e acordo com o jurista, "ao STJD conceder um prazo mínimo de 15 dias para que o clube inadimplente cumpra suas obrigações financeiras em atraso, de modo a evitar a aplicação da sanção de perda de pontos por partida."

"Caso inexista partida a ser disputada pelo clube inadimplente, quando da imposição da sanção pelo STJD , a medida punitiva consistirá na dedução de três pontos dentre os já conquistados no campeonato", finalizou.

No ano passado, o Cruzeiro praticamente não manteve sua folha salarial em dia. Fato que pode ser repetido em 2021, caso o clube não encontre solução viável e possível para evitar tais circunstâncias.

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