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Por que Coudet não topou ouvir Inter e deixou clube imediatamente

Eduardo Coudet deixa o comando do Internacional na liderança do Campeonato Brasileiro - MAX PEIXOTO/DIA ESPORTIVO/ESTADÃO CONTEÚDO
Eduardo Coudet deixa o comando do Internacional na liderança do Campeonato Brasileiro Imagem: MAX PEIXOTO/DIA ESPORTIVO/ESTADÃO CONTEÚDO

Marinho Saldanha

Do UOL, em Porto Alegre

10/11/2020 04h00

Eduardo Coudet não é mais técnico do Internacional. Líder do Campeonato Brasileiro, o argentino aceitou oferta do Celta, da Espanha, e não comanda mais o Colorado. As razões para a saída não são exatamente técnicas, mas a soma de fatores internos que desagradaram o comandante desde o início de sua trajetória.

Em entrevista coletiva realizada ontem (9), a direção do Colorado declarou que foi pega de surpresa com a decisão irredutível de desligamento.

"O ambiente era normal. Terminou a partida contra o Coritiba [domingo], o Chacho [Coudet] e o Alexandre [vice-presidente] deram entrevista. Os jogadores, obviamente, não gostaram do resultado, e eu gosto quando vejo que o grupo ficou indignado quando o resultado não vem. Mas, depois da entrevista, ele [Coudet] nos chamou e comunicou a decisão, que para nós foi uma grande surpresa", contou o presidente Marcelo Medeiros.

Promessas x Realidade

Coudet foi convencido a aceitar o Inter com algumas promessas. Quando topou o primeiro desafio no Brasil, ouviu que o clube buscaria atender seus pedidos, montaria um time competitivo para voltar a conquistar títulos. A realidade, porém, não foi essa. Encarando uma dura situação financeira antes mesmo da pandemia de novo coronavírus, o Inter precisou medir investimento.

O clube, porém, pretendia vender ao menos dois jogadores após o primeiro semestre. Assim, uniria fundos para contemplar os anseios do técnico. Mas veio a pandemia, o investimento de clubes europeus também caiu, e somente Bruno Fuchs foi negociado.

O que já era ruim ficou ainda pior nos cofres vermelhos. Com a imposição dos jogos sem público e a paralisação nas competições por longos meses, as receitas secaram e a possibilidade de contratações ficou ainda menor. O "super Inter" esperado por Coudet nunca virou realidade.

Pedidos públicos e reclamações

Enquanto isso, o treinador não cansava de pedir publicamente por novos jogadores. Coudet — diferente de membros da direção — explicitou que queria ao menos outros quatro jogadores, que precisavam ser atletas experientes, não jogadores jovens com perspectiva. Evidenciou seu descontentamento em vários momentos e pressionou, nos microfones, atitudes da direção. Considerando desde o início da temporada, o Inter agregou 14 jogadores (um já deixou o clube).

O comando do futebol não gostou e respondeu — também publicamente — as frases do argentino.

Coudet já tinha "pago o preço" de ser muito sincero. No início do ano, reclamou da condição dos gramados do CT Parque Gigante e do Beira-Rio. Na ocasião já havia sido repreendido.

Política e instabilidade

A proximidade das eleições do Inter também desagradou Coudet. O treinador não escondeu seu descontentamento quando o vice de futebol Alessandro Barcellos foi desligado da direção por motivos políticos. Ele é um dos candidatos à presidência no pleito do fim deste mês.

Coudet era próximo ao dirigente e discordou do desligamento. Em entrevista coletiva recente, ele disse que nenhum profissional poderia se sentir seguro no Inter para 2021, independentemente de ter contrato ou não. "Não sei se irei permanecer", disse alegando a instabilidade gerada pela troca de direção.

"Quanto à dimensão, a forma que interpretou, isso é dele, é uma peculiaridade dele, ele fez essa análise, fez unilateralmente esta opção, quer trabalhar na Europa, foi uma escolha pessoal. Cabe a nós resolvermos isso o quanto antes para atendermos os anseios do nosso grupo porque já na quarta [amanhã] teremos um jogo decisivo contra o América-MG", explicou Medeiros, referindo-se ao jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil.

Reforços não utilizados e que não empolgaram

Coudet participou ativamente do processo de contratação do Inter, mas não aprovou todos os novos jogadores que recebeu. Yuri Alberto, por exemplo, só foi utilizado após o técnico se convencer de que ele poderia ser útil. Ao contrário de Leandro Fernández, que já chegou sob tutela de Chacho.

Mauricio, último a ser integrado ao grupo, também não empolgou o comandante, que queria jogadores mais experientes. Lucas Ribeiro, emprestado pelo alemão Hoffenheim, esteve poucos minutos em campo pelo Colorado. Matheus Jussa não começou uma partida sequer em suas posições preferidas: volante ou zagueiro.

Proposta da Europa, investimento e empresário

A oferta do Celta surgiu no horizonte de Coudet há bastante tempo. O empresário do técnico, Christian Bragarnik, tem ótimo trânsito no clube de Vigo, pelo qual Coudet foi atleta em 2003.

Além disso, a equipe — que briga contra a zona de rebaixamento no Espanhol — tem potencial de investimento maior que o Inter, e poderia atender mais facilmente os pedidos do comandante.

Não bastasse isso, estar no Celta é visto como trampolim para clubes maiores no Velho Continente e possibilidade de abertura de um mercado ainda não desbravado pelo treinador, mas já repleto de argentinos como Diego Simeone, Marcelo Bielsa, Maurício Pochettino, entre outros.

"Não dá para levar para o lado da mágoa, faz parte do futebol. É uma relação de empregador e empregado. Imagino que quando tivemos que demitir o Odair [Hellmann, atualmente no Fluminense], ele deva ter ficado magoado conosco também. Agora, o empregado recebeu uma oportunidade, entendeu que era melhor e deu sequência na sua vida", finalizou o presidente do Inter.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que informado anteriormente, o zagueiro emprestado ao Hoffenheim se chama Lucas Ribeiro e não Luciano Ribeiro. O erro foi corrigido.

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