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Guerra fria entre Sette Câmara e Kalil expõe bastidores do Atlético-MG

Antes parceiros, Sette Câmara e Kalil agora têm relações estremecidas  - Bruno Cantini/Atlético-MG
Antes parceiros, Sette Câmara e Kalil agora têm relações estremecidas Imagem: Bruno Cantini/Atlético-MG

Guilherme Piu e Thiago Fernandes

Do UOL, em Belo Horizonte e São Paulo

30/10/2020 04h00

Classificação e Jogos

O cenário político em Belo Horizonte pela proximidade do primeiro turno das eleições municipais está efervescente. E de tão movimentado, acaba respingando no futebol pelo lado alvinegro da cidade. É que existe uma 'guerra fria' envolvendo dois personagens importantes do Atlético-MG: o atual presidente Sérgio Sette Câmara e o ex-mandatário Alexandre Kalil, que em um passado recente, diferentemente de hoje, já foram grandes aliados.

A briga entre Sette Câmara e Kalil deixou os bastidores do Galo para ganhar contornos que atingem dimensões bem maiores da capital de Minas Gerais. Tudo por causa do vazamento de documentos sigilosos que compõem um relatório preliminar da Kroll — empresa de auditoria e investigação corporativa — contratada pela atual gestão atleticana, e que fez uma "devassa" nas contas do clube entre 2009 e 2017.

Além disso, Sérgio Sette Câmara é aliado da família Menin, grande parceira do Galo em investimentos no futebol, e que também emprega receitas na campanha política de um rival de Kalil à cadeira na Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH).

"Galoleaks"

Alexandre Kalil

Candidato à reeleição para permanecer no cargo de prefeito da capital mineira por mais quatro anos, Kalil viu seu nome citado nesses vazamentos, que mais parecem uma versão atleticana do Wikileaks — organização criada pelo ativista australiano Julian Assange e que divulga na internet documentos confidenciais obtidos ao redor do mundo.

Nos apontamentos da auditoria da Kroll foram citados gastos de quase R$ 400 mil do ex-presidente atleticano e sua família com viagens para destinos diversos, nacionais e internacionais, entre 2010 e 2014.

Nesse período a família do então presidente atleticano e atual chefe do município belo-horizontino viajou para a ilha caribenha de Aruba, Dubai, Líbano, Nova Iorque, África do Sul, Rio de Janeiro e Londres, com gasto de R$ 396.486,03, de acordo com dados apontados pela Kroll.

Segundo relato no próprio documento da empresa de investigação corporativa, várias viagens realizadas foram feitas pela mesma agência de turismo, sem que os destinos estivessem relacionados a alguma atividade do clube ou jogo do time principal do Atlético-MG. Porém, apesar de citar valores e locais visitados, a própria Kroll não garante que os pagamentos foram feitos com dinheiro do caixa alvinegro.

"A Kroll nota que, embora haja a possibilidade de estas faturas terem sido pagas pelo clube, os históricos dos registros contábeis não detalham o motivo da emissão de notas fiscais e, com isso, não é possível corroborar essa informação", diz parte do documento vazado nas redes sociais.

Lásaro Cândido

Depois que esses documentos vieram à tona, mesmo com dispositivo legal em contrato entre Atlético-MG e Kroll sobre sigilo de dados, mais dirigentes foram citados além de Alexandre Kalil. Personagens com atuações antigas no clube também aparecem nos relatos da investigação corporativa. O vice-presidente Lásaro Cândido da Cunha é um desses.

O nome de Lásaro é citado por sua atuação enquanto diretor jurídico. A Kroll apurou que o nome do advogado aparecia na lista de funcionários do Galo, porém "a base de folha de pagamento fornecida pelo clube demonstra que Lásaro Cândido não recebeu pagamento por meio do regime CLT — Consolidações das Leis Trabalhistas, salário registrado em carteira de trabalho —, mas, sim, por meio de uma empresa em nome do próprio dirigente.

"Conforme informações da base de fornecedores do Atlético fornecida pelo clube, a Lásaro Advogados foi cadastrada em 13 de abril de 2016 e recebeu o total de BRL 495.528 em pagamentos entre 4 de outubro de 2016 e 11 de agosto de 2017", diz um dos recortes do documento da Kroll que vazou.

A apuração da Kroll aponta ainda que durante a gestão Daniel Nepomuceno no Atlético, Lásaro Cândido, por meio de sua empresa, firmou contrato de prestação de serviço de assessoria e consultoria jurídica à diretoria executiva do clube, com vigência de 16 meses — início em 1 de setembro de 2016 e fim em 31 de dezembro de 2017.

"A remuneração prevista era de R$ 48 mil mensais. Com isso, o montante bruto a ser pago à Lásaro Advogados, entre setembro de 2016 e dezembro de 2017, seria de BRL 768.000", apontou a Kroll, que deu mais detalhes.

"Embora o contrato tenha sido assinado em setembro de 2016, o Atlético efetuou pagamentos à Lásaro Cândido desde 15 de abril e 2016. As despesas decorrentes deste contrato foram reconhecidas entre 26 de abril de 2016 e 11 de agosto de 2017, no montante total de BRL 768.000. A Kroll identificou que desse valor, BRL 240.000 foram reconhecidos como notas fiscais emitidas diretamente à Lásaro Cândido, como autônomo e BRL 528.000 foram notas fiscais emitidas pela Lásaro Advogados", completa.

Presidente do Galo

Sette Câmara se posicionou oficialmente sobre o vazamento de informações sigilosas oriundas do trabalho da Kroll. Na noite de ontem (29), o presidente alvinegro demonstrou tristeza pela situação e confirmou apuração do UOL sobre caráter preliminar do relatório que vazou em grupos nas redes sociais.

"Vejo com tristeza, né [vazamento de relatório]. A documentação que vazou era um relatório preliminar, a Kroll faz um relatório básico em cima da documentação que foi encontrada, disponibilizada pelo clube. O Atlético-MG era muito desorganizado nesse aspecto. Após o primeiro relatório, o clube faz uma análise e trata o relatório de maneira atirada ali, aquilo que efetivamente não faz nenhum sentido, e depois é gerado um relatório final. Inclusive, já entreguei para o Conselho Deliberativo, Conselho Fiscal e o Conselho de Ética. A gente lamenta que esse tipo de coisa aconteça, é uma irresponsabilidade muito grande, e estamos buscando apurar o que de fato aconteceu", disse Sette Câmara à TV Galo.

"É preciso lembrar que essas auditorias não são de caça às bruxas. É aprender com o que aconteceu no passado para não continuar errando, criar mecanismos de controle no clube. O Atlético-MG de hoje tem uma administração completamente controlada. Mais do que isso, claro, se nós detectarmos irregularidades, vamos buscar reparações devidas ao clube. Isso não precisa ser alardeado, são coisas que eu gostaria de fazer dentro de uma linha discreta, até para que não fique execrando a imagem de pessoas que prestaram relevantes serviços ao clube, e que não podem ter seu nome manchado por conta de vazamento irresponsável, como aconteceu", completou.

Posicionamento da Kroll

Em contato com o UOL, a Kroll lamentou o vazamento de informações sigilosas do trabalho realizado no Atlético-MG. A empresa aproveitou para comentar de forma breve sua atuação dentro do Clube Atlético Mineiro.

"A Kroll afirma que a investigação financeira realizada no Clube Atlético Mineiro teve como objetivo apontar irregularidades e vulnerabilidades, com base em documentos corporativos disponíveis na instituição. Nossas conclusões, enviadas confidencial e exclusivamente para uso interno, são subsídios para que o cliente busque sanar as vulnerabilidades identificadas, incluindo a falta de documentação para algumas transações. A Kroll é referência em investigação no segmento esportivo e lamenta a divulgação de informações sigilosas, fora do contexto do trabalho realizado", disse

Resposta de Lásaro

Em vídeo publicado em sua conta particular no Twitter na noite da última quarta-feira, Lásaro Cândido explicou a situação que envolve o seu nome e os serviços prestados ao Atlético-MG.

"Venho dar uma satisfação à massa atleticana. Tive notícia há pouco que parte de um relatório atribuído à Kroll, que insinua que recebi remuneração do Atlético, eventualmente sem contrato. Isso é tudo falso. Não sei se esse trecho é verdadeiro, porque não tive acesso, apenas a presidência. Essa parte que é atribuída a mim é lamentável. Já publicizei várias vezes que, em 12 anos de clube, fui remunerado em 1 ano e 7 meses, com tudo registrado. Os outros 10 anos foram sem remuneração. Qual o problema que tem nisso?", questionou.

Ele prometeu acionar a empresa Kroll para tomar nota do trabalho, já que teve informações sobre "investigações em e-mails particulares", que de fato vazaram, mas sem a confirmação de que foram analisados pela empresa de investigação corporativa.

"Só quero esclarecer que peguei os contratos no Atlético. Agora, outras questões envolvidas no relatório, se tiverem irregularidades, que se tomem medidas. Eu só acho que é quase uma sacanagem fazer isso. Divulgar e-mails, inclusive particulares. Vou interpelar a Kroll para saber como ela teve acesso aos meus e-mails pessoais, apesar de lá não ter nada de errado, mas é minha vida. Estou encerrando meu período de gestão em 2020, mas é revoltante isso", criticou.

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