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Venuto fez cinco partidas em um ano de Santos. Por que não joga mais?

Lucas Venuto, atacante do Santos, durante treino em 24/6. Ele espera mais chances pós-quarentena - Ivan Storti/Santos FC
Lucas Venuto, atacante do Santos, durante treino em 24/6. Ele espera mais chances pós-quarentena Imagem: Ivan Storti/Santos FC

Gabriela Brino

Colaboração para o UOL, em Santos

27/06/2020 04h00

Ser atacante com 1,64 m de altura é um grande desafio na vida de Lucas Venuto. Ele sempre conviveu com a desconfiança da própria torcida e de rivais. No Santos há quase um ano, só jogou cinco vezes -- uma com o técnico Jesualdo Ferreira. Por quê?

A concorrência na posição é uma das respostas. Eduardo Sasha e Soteldo são os titulares mais frequentes do setor por viverem boas fases e atenderem às expectativas do treinador português. Marinho, por causa de uma fratura no pé esquerdo, ficou mais de um mês afastado, mas assim que se recuperou foi a campo uma única vez e é visto com bons olhos por Jesualdo.

Além disso, Kaio Jorge, Raniel, Yuri Alberto e Arthur Gomes também estão nos planos e à frente de Lucas Venuto na preferência.

Segundo apurou o UOL Esporte, Jesualdo Ferreira prefere um estilo de atacante mais objetivo. Por isso prioriza Sasha e Soteldo por ali. Venuto, em entrevista exclusiva, confessa não entender e crê que ainda não recebeu a oportunidade que gostaria. Ele ainda não engatou uma sequência no Peixe.

"Particularmente, não. [Jesualdo] Nunca teve alguma conversa direta comigo, não. Do elenco atual fui um dos que pouco jogou, não tive muita oportunidade. Às vezes sou questionado pelos torcedores, por eles não entenderem. Por onde passei pude entrar em campo, pude jogar. E não tive a oportunidade ainda que gostaria de ter, mas, mesmo assim, vou continuar trabalhando para reverter isso aí", diz ao UOL Esporte.

Sendo bem resumido, acho que se eu tiver mais oportunidade, sem dúvidas darei respostas.

"Mas se não tem oportunidade de jogar tanto, fica difícil de provar. Não é à toa que eu joguei em três países diferentes [Áustria, Alemanha e Canadá], me adequei, me adaptei e no meu país não iria conseguir. É questão da oportunidade aparecer para eu agarrar ela. Trabalho muito pra isso. Eu quero dar uma resposta para o Lucas Venuto e para a torcida."

Venuto - Ivan Storti/Santos FC - Ivan Storti/Santos FC
Atacante em partida contra o Ituano, derrota por 2 a 0, em fevereiro deste ano
Imagem: Ivan Storti/Santos FC

Com passagem por Alemanha, Áustria e Canadá, o atacante de 25 anos é santista desde pequeno. Foi um sonho realizado voltar ao Brasil, ficar mais perto da família e ainda jogar no clube do coração. Uma nova história para Lucas, mas ainda sem final feliz.

"É uma camisa gigante, um time universal. A realização do sonho como profissional foi essa. Quando eu era criança eu via o Santos jogar, o time do Neymar, Diego, Robinho, eu vi jogar. Não pensei duas vezes. O Santos é um time respeitado no mundo, é um dos maiores clubes do mundo, na minha opinião. Um sonho realizado voltar para o Brasil em um clube como o Santos. Por tudo que o Santos já fez pelo futebol, revelações, é o que mais revela jogador e craques. Está sendo um desafio bem diferente e espero ter um final feliz ainda", explica.

E a disputa de posição é vista pelo baixinho como tranquila. Soteldo e Marinho, por exemplo, são amigos de Lucas. Com um já foi à praia e saiu para jantar, por exemplo, enquanto com o outro a brincadeira com a altura é frequente. Com o tempo veio a parceria.

"A qualidade dos jogadores é grande, a concorrência... Todos me receberam muito bem. São jogadores em uma fase muito boa, que é Marinho e Soteldo, admiro muito os dois. É uma concorrência saudável, há lealdade. Sei lidar com isso. Com Marinho tenho uma relação super boa, já saímos pra comer, conversamos bastante. Soteldo a gente brinca muito com a questão da estatura [risos]. Antes de ele chegar no Santos, eu não o conhecia. Após chegar, eu comecei a observar. Ele é muito importante pro grupo e pro Santos. Admiro e torço pelo sucesso dele", afirmou.

Chama o 'terrorista'

Lucas Venuto chegou ao Santos somente em 2019, mas seu destino estava traçado há mais tempo do que ele imaginava. Na passagem pelo Red Bull Brasil, na época com 17 anos, Sergio Guedes esteve à frente do time. Isso mesmo, o ex-goleiro que foi ídolo do Peixe, com cabelos loiros longos e mais de 240 partidas.

Anos mais tarde ele esbarrou em Venuto na categoria sub-17 e viu potencial no jovem que dava trabalho aos adversários. Era tão invocado que Sergio o chamava de "terrorista". Por isso definiu que daria uma oportunidade a ele e puxou para o time principal.

venuto - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Venuto jovem jogando no Red Bull Brasil
Imagem: Arquivo pessoal

"Quando estive no Red Bull, era um clube com muito recurso e quem passava por lá realmente dava para dar uma atenção maior. E eu queria muito conhecer a base e o clube deu importância para isso. E o Venuto fazia a maior correria pelo lado. Baixinho, mas muito agressivo e sem medo Tentavam provocar, e ele piorava, ia pra cima. Até chamava ele de 'terrorista'. Falava: 'chama o terrorista lá, que ele vai fazer o que a gente quer'. E foi por essa razão que puxamos ele pro time principal", recorda Sergio Guedes ao UOL Esporte.

"Era valente, e da atual conjuntura, jogava torneio de acesso na época. Uma competição onde a força física prevalece, às vezes intimidação e ele enfrentava. Com ele não tinha receio não, sabe? E me chamava a atenção. Fico feliz de saber que o atleta que você vê lá atrás engatinhando, ameaçando... Ele começa a evoluir e colocar em prática o que a gente achava que ele era capaz de ter."

O ídolo arrisca dizer que Venuto pode até ser o tipo de atacante que o Santos procura ao lembrar das características do jovem jogador.

"Sempre foi muito astuto e valente. Eu que venho de uma geração em que era futebol de contato, a habilidade era prevalecida. Os caras iam pra cima e tinha a imposição, a intimidação. Antigamente, era pesado pra pegar cartão. Hoje, dão por qualquer coisa. Creio que o Santos tem que olhar melhor por ele. Hoje ele está mais maduro, confiante. Futebol é de oportunidade, né? Ele pode ser até o jogador que o Santos procura. Atacante que quebra linha, sabe? Eu acho que para ele chegar onde chegou, deve ter aprimorado", finaliza.

Sérgio Guedes - Douglas Teixeira - Douglas Teixeira
Último trabalho de Sérgio Guedes foi na Portuguesa Santista, encerrado na pandemia após três anos
Imagem: Douglas Teixeira

Lucas tem contrato com o Santos até dezembro de 2022. Em meio à pandemia do novo coronavírus, o clube retoma aos poucos os treinamentos e dia a dia com o elenco e comissão. Sem jogos por enquanto, Lucas continuará tentando impressionar Jesualdo para, quem sabe, poder começar colocar em prática seu final feliz.

Futebol (e Santos) no sangue

Venuto sequer falava direito, mas já sabia chutar a bola que seu pai, Eber Venuto, o presenteou em um dos primeiros aniversários. Incentivado por ele, que tentou ser jogador profissional, ganhou intimidade com o esporte desde cedo.

A mãe, Evani Ferreira, conta que até talheres Lucas roubava das gavetas para brincar de mano a mano. Tampas de canetinhas, canetas...

"Percebemos algo diferente no Lucas ainda bebê. Ele tinha apenas 1 aninho e começou a chutar diferente a bola que o pai dele deu para ele. O pai dele olhou e falou: 'Lucas vai ser bom de bola'. O Lucas foi se interessando em brincar com talheres, colher... Ele brincava, e eu pensava que ele seria brigão [risos]. Falava enrolado e batia uma colher na outra, simulando dois jogadores brigando pela bola. Ele cresceu e ao conhecer as cores, com 2 anos, eu comprei um caderno de desenho e lápis para colorir. Ele pegou um lápis azul e o preto, colocou o preto como Atlético-MG e o azul como Cruzeiro. Gritava gol, escalava time, com 2 anos, sentado na cama. Não era normal uma criança, naquela idade, ter aquele interesse todo."

Lucas Venuto na infância 1 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal
Lucas Venuto na infância 2 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal
Lucas Venuto na infância 3 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal
Lucas Venuto na infância 4 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Imagem: Acervo pessoal

Aos 7 anos, Lucas entrou em uma escolinha de Governador Valadares (MG). Se destacou e não demorou para chamar atenção do Cruzeiro aos 8. Aos 12, saiu de casa para morar na Toca da Raposa.

Aos 16, o pontapé inicial para iniciar a carreira profissional. Após a passagem pela Raposa, o Red Bull Brasil contratou Lucas Venuto e o potencializou. Com uma estrutura maior, o atacante conta que demorou a cair a ficha do que estava realizando.

"Um clube que abriu as portas para mim, fiquei surpreendido pela forma que trabalhavam. Pessoas muito sérias e capacitadas. Foi onde assinei meu primeiro contrato profissional. E foi um sonho realizado. Um clube que tenho carinho gigante, me abraçou. Aprendi muita tática europeia por lá, eles tentam trabalhar que todos os clubes tenham uma tática de jogo todos semelhantes. Isso me ajudou muito quando fui pra fora [do Brasil]. Me deu muita visibilidade, eu estava em alta. Demorou pra cair a ficha, eu vinha tentando realizar desde pequeno. Um garoto que saiu do interior de Minas Gerais, uma cidade distante, chegar em São Paulo, me destacando... Foi algo que a ficha demorou a cair", explica.

Perrengues estrangeiros

Sair do Brasil com destino à Alemanha sem nenhuma intimidade com a língua, cultura e clima foi outro grande desafio na vida de Lucas. Esse quase o fez desistir da carreira. O Red Bull o enviou para o RB Leipzig, onde o atacante teve que se adaptar ao frio rigoroso, um idioma complicado, novo estilo de jogo e sem conhecer ninguém.

"Adaptação foi bem difícil. A comida era muito diferente, o frio era muito forte... No início sofri bastante, viu? Até porque eu não fui com contrato milionário, como jogadores saem daqui mais novos e chegam lá em alta. Difícil em vários sentidos. E a saudade da família ficou ainda maior, estar fora do meu país. Até pensei em desistir, porque foi realmente muito complicado, mas consegui superar. E foi a partir daí que as coisas realmente começaram a fluir, porque passar por esse teste aí [risos], mostra que você está apto a seguir", conta.

A língua foi uma das maiores complicações por lá, tanto que Venuto quase dormiu no vestiário uma vez. Ele foi esquecido após um treino e não sabia como avisar os responsáveis, mas conseguiu recorrer ao tradutor e voltou para casa.

venuto  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Venuto jogando no Austria Wien
Imagem: Arquivo pessoal
venuto - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Venuto jogando pelo RB Leipzig
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu já fui esquecido no vestiário após um treino. Fui tomar banho, todo mundo foi embora e eu fiquei lá [risos]. O rapaz que buscava a gente foi embora, esqueceu de mim. Com a falta de comunicação e a dificuldade da língua, não foi me buscar e eu fiquei lá. Se não fosse a ajuda de um celularzinho para traduzir que eu precisava ir embora [risos]. Aí consegui, traduzi, mandei pra um rapaz e ele foi me buscar, consegui ir pra casa."

Somente na Áustria a adaptação fluiu, por ser um país parecido com a Alemanha. Lucas se adaptou mais rápido pelos times que passou e teve um maior número de jogos. Participou de competições como a Liga Europa e ao todo foram 130 partidas em três times diferentes: RB Liefering, SV Grodig e Austria Viena.

"Tento carregar muita coisa do que aprendi por lá. Tento mesclar minha vida, tenho meu lado brasileiro, mas não deixo perder no sentido, por exemplo, eles são muito pontuais. Eu tento ser. Eles são menos emoção. O brasileiro é muito emocional, né? Lá eles são muito mais frios, mais razão. Eu tento mesclar, né? [risos]. A cultura, do jeito de viver. Do futebol em si, guardo muita coisa taticamente falando. Ligo até pra algumas pessoas pra treinar o alemão, é muito bacana."

Experiência, Lucas já tem. Resta saber se Jesualdo Ferreira dará a oportunidade que o "terrorista" procura.

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