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A história de Usuriaga: passagem pelo Santos, relação com cartel e tragédia

Usuriaga em ação pelo Santos contra o Fluminense no Brasileiro de 1996 - Reprodução
Usuriaga em ação pelo Santos contra o Fluminense no Brasileiro de 1996 Imagem: Reprodução

Eder Traskini

Colaboração para o UOL, em Santos

17/05/2020 04h00

O ano era 1996 e o Santos tinha vendido recentemente o ídolo Giovanni ao Barcelona (ESP). Para tentar ocupar a posição de referência da equipe, o Peixe contratou o colombiano Alveiro Usuriaga, conhecido como 'El Palombo'. O atacante, porém, jogou apenas um jogo pelo clube e morreu anos depois em crime bárbaro na Colômbia.

Em 2004, o jogador foi assassinado por um adolescente de 14 anos com 13 tiros enquanto jogava cartas com os amigos do bairro onde nasceu, o 12 de outubro, em Cali, na Colômbia, que vivia uma onda de crimes.

Dois anos depois, descobriu-se que a morte ocorreu a mando de uma organização criminosa que atua em oito países das Américas, conhecida como 'La Negra'.

A morte do colombiano foi anunciada um dia antes do crime ocorrer em uma chamada telefônica. Sua irmã, Diana, foi quem atendeu e não "fez caso", pois "não imaginava quem, nem por que quereriam matar Alveiro", disse ao jornal "El Pais".

Colombiano Albeiro Usuriaga durante sua passagem pelo Santos em 1996 - Folha Imagem
Colombiano Albeiro Usuriaga durante sua passagem pelo Santos em 1996
Imagem: Folha Imagem

Usuariaga sempre foi um 'boêmio' no futebol desde quando atuava na Colômbia. Ele chegou a ficar amigo dos chefões do cartel de Cali no início da década de 90. Ganhou fama ao ser campeão da Libertadores pelo Atlético Nacional (COL) e se transferiu ao Málaga (ESP).

Seu comportamento não era bem visto na Espanha e o atacante retornou à América do Sul para atuar no Independiente (ARG), onde se tornou ídolo. Em 1994, deu show na vitória dos argentinos por 4 a 0 sobre o Santos pela Supercopa Libertadores.

O desempenho chamou atenção do clube da Vila Belmiro, que o contratou dois anos depois, quando o atleta estava em baixa durante o empréstimo ao Barcelona de Guayaquil (EQU). Os equatorianos repassaram o empréstimo do atacante ao Peixe, e ele se apresentou com grande expectativa após marcar nos dois amistosos com o time brasileiro.

"Jogava pra caraca, pena que ficou pouco tempo. Era um trator, mas técnico e com presença de área para fazer gols. Muito inteligente no jogo. Enquanto jogou nos ajudou bastante", lembrou Robert, ex-jogador do Santos, em contato com o UOL Esporte.

Usuriaga demorou a estrear pelo Peixe por causa do imbróglio em sua contratação. O Independiente, dono de seus direitos, queria um valor para liberar o empréstimo e não aceitava o repasse feito pelo Barcelona. Assim, Usuriaga treinava no clube, mas não podia jogar sem a documentação que deveria ser enviada pelos argentinos.

O Peixe, então, conseguiu a licença de trabalho do jogador e liberou o técnico José Teixeira para escalá-lo diante do Fluminense. A expectativa do torcedor era alta e o próprio Usuriaga pressionava, chegando a dizer que poderia ir embora se não atuasse contra os cariocas.

Ele foi para o jogo que acabaria sendo o único oficial dele com a camisa alvinegra. O Peixe venceu por 1 a 0, mas o colombiano não fez muita coisa em campo. Após o jogo, o Fluminense entrou com um processo contra o Santos pela utilização do atleta. Com medo, a equipe da Vila Belmiro optou por não utilizar o jogador nos jogos seguintes e, com o Independiente exigindo dinheiro, desistiu da contratação.

Usuriaga em jogo entre Independiente e Boca Juniors na Argentina nos anos 90 - Reuters
Usuriaga em jogo entre Independiente e Boca Juniors na Argentina nos anos 90
Imagem: Reuters

"Ele ficou pouco tempo e não deu pra ter uma convivência com ele, mas era um cara tranquilo. Não demonstrava nenhum comportamento fora do normal. Ele acabou indo embora e eu nem vi! Não foi se despedir da gente", contou Robert.

'El Palombo' retornou ao Indepediente e acabou flagrado em um exame antidoping por uso de cocaína, sendo suspenso por dois anos. Em seguida, o colombiano entrou em uma profunda depressão e não conseguiu fazer o tratamento.

Depois, chegou a disputar alguns jogos pelo Millionários e Bucaramanga, mas foi preso por tentar subornar um policial após ser pego dirigindo alcoolizado em uma blitz. Ele ganhou a liberdade condicional, mas, endividado com traficantes de Cali, teve sua primeira esposa assassinada em 1999.

Ameaçado na Colômbia, saiu do país para jogar na Argentina, dessa vez em times menores. Até 2003, um ano antes de sua morte, ainda passou por Deportivo Pasto (COL), Sportivo Luqueño (PAR) e Carabobo (VEN).

Santos