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Carioca - 2020

Abel Braga e Flamengo se reencontram sem saudades e com feridas abertas

Abel Braga durante passagem pelo Flamengo: título do Carioca e saída conturbada - Gustavo Tessaro/Flamengo
Abel Braga durante passagem pelo Flamengo: título do Carioca e saída conturbada Imagem: Gustavo Tessaro/Flamengo

Bruno Braz e Leo Burlá

Do UOL, no Rio de Janeiro

22/01/2020 12h00

Classificação e Jogos

A mais recente passagem do hoje vascaíno Abel Braga pelo Flamengo foi curta, mas teve a força de um verdadeiro furacão para clube e treinador.

Após 28 jogos, período no qual conquistou o Carioca, colocou o Fla nas oitavas da Libertadores, mas sem jamais conseguir conquistar a arquibancada, o técnico do Vasco deixou a Gávea contrariado com as pressões internas e colocou um ponto final em um relacionamento que começou com promessa de novos tempos no Rubro-Negro.

Escolhido para liderar o time que seria montado no primeiro ano na gestão de Rodolfo Landim (após a recusa de Renato Gaúcho), ele viu o relacionamento se deteriorar à medida em que suas ideias não dialogavam com os pensamentos da cúpula do futebol. Sem muita cerimônia, deixou Arrascaeta no banco de reservas, fato que causou incômodo no Ninho. Reforço mais caro da história rubro-negra, o uruguaio foi preterido e não escondeu o abatimento.

Em um Fla que começava a demonstrar poder de fogo no mercado, Abel insistiu muito para que Bruno Henrique fosse contratado. A aposta do comandante demonstrou-se das mais acertadas, já que o camisa 27 foi uma das peças mais importantes em 2019, ano da redenção do Flamengo no cenário do futebol. No entanto, a incapacidade de fazer os astros atuarem juntos foi minando o treinador, que viu o amparo dos dirigentes se esvair ao passo que as vozes na torcida eram cada vez mais contrárias.

Já enfraquecido, o técnico do Vasco pôs ainda mais lenha na fogueira após uma derrota para o Internacional. Ainda no Beira-Rio, disse que o estádio colorado era o "estádio mais lindo do mundo". Ainda que o comentário não dissesse respeito às dificuldades do seu time para se acertar em campo, a fala pegou muito, muito mal entre diretores e torcedores. A partir dali, a relação estava fadada ao rompimento.

O casamento ficou ainda mais abalado dias depois, quando ele, após um revés para o Atlético-MG, disse que perder para o clube mineiro era "normal". Curiosamente, Jorge Jesus, português que o sucederia no clube, acompanhou aquela partida em um camarote no Independência.

Aliado ao desempenho instável da equipe, um posicionamento sobre poupar jogadores no Brasileirão foi o estopim para a crise definitiva. Depois de bater o Athletico, Abel afirmou que iria usar os titulares ante o Corinthians, mas pela Copa do Brasil. A estratégia foi questionada pela direção, que já via a permanência como insustentável. Apesar do apoio de primeira hora de caciques como Luiz Eduardo Baptista, vice de relações externas, a guerra estava perdida e o destino já escrito, embora houvesse um clima cordial com o grupo. Antes de ser mandado embora, foi ao Ninho e comunicou sua saída.

Com cara de poucos amigos, deixou clara a sua insatisfação para os funcionários que trabalhavam no centro de treinamento. Acabava ali uma história mal resolvida e que nunca foi totalmente cicatrizada.

Alexandre Campello apresenta Abel Braga como o técnico do Vasco - Rafael Ribeiro/Vasco - Rafael Ribeiro/Vasco
Alexandre Campello apresenta Abel Braga como o técnico do Vasco
Imagem: Rafael Ribeiro/Vasco

Amigo pessoal do presidente Alexandre Campello, foi o escolhido pelo dirigente para substituir Vanderlei Luxemburgo, que não chegou a um acordo de renovação.

Ciente dos problemas financeiros do Vasco, abusou da sinceridade em sua entrevista coletiva de apresentação ao revelar a conversa particular que teve com o mandatário, quando ouviu que não receberia em dia. Internamente, o "sincericídio" diante dos microfones pegou mal.

Sua contratação dividiu opiniões na torcida. Houve os que apoiaram a escolha em mais um experiente treinador para "segurar a bronca" dos problemas financeiros do clube — como fez Luxa em sua passagem —, mas também houve a ala dos que preferiam uma aposta menos conservadora de Campello e seus pares.

No cotidiano dos treinos, tem sido o mesmo Abelão de sempre, já tentando implementar o estilo "paizão" com os jovens. Dois dos que já se tornaram seus xodós são o volante Bruno Gomes e o atacante Gabriel Pec, ambos promovidos ao profissional no segundo semestre do ano passado.

O profissional assinou contrato até o fim de 2020 com o Vasco, clube no qual se destacou como zagueiro na década de 70 e foi vendido posteriormente para o Paris Saint-Germain (FRA), fato que o faz, sempre que pode, demonstrar gratidão ao Cruz-Maltino. Apesar de estar mais em casa em São Januário, já encarou a impaciência da torcida, que demonstrou não ter gostado nada do empate sem gols contra o Bangu.

Do outro lado da rivalidade, Abel irá rever alguns amigos, outros tantos desafetos, mas com a certeza de que uma vitória na noite de hoje (22), às 21h, no Maracanã, terá um gostinho especial de revanche para ele.