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"Nos Fla-Flus é o Ai, Jesus!": Expressão volta à tona com português no Fla

Jorge Jesus, técnico do Flamengo, durante partida contra o Emelec no estadio Maracana pela Libertadores - Thiago Ribeiro/AGIF
Jorge Jesus, técnico do Flamengo, durante partida contra o Emelec no estadio Maracana pela Libertadores Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF

Alexandre Araújo

Do UOL, no Rio de Janeiro (RJ)

20/10/2019 04h00

"Nos Fla-Flus é o Ai, Jesus!". Os elementos presentes no 12º verso no hino do líder do Brasileirão se encontram neste domingo (20), no Maracanã. Flamengo de um lado, Fluminense do outro e, à beira do gramado, o técnico Jorge Jesus. Diante da coincidência, o UOL Esporte buscou mostrar a origem da expressão cantada a plenos pulmões por rubro-negros, mas que já apareceu em faixa da torcida tricolor.

Vale lembrar que o hino que hoje todo mundo conhece e é comumente entoado nas arquibancadas não é o que podia ser chamada de oficial. Este era de autoria de Paulo Magalhães e foi criado em 1920, começando com "Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar".

Posteriormente, na década de 40, Lamartine Babo criou versões das canções, hinos populares, para alguns clubes do Rio. Dentre eles, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco, além do America, clube do qual era torcedor fanático. A partir de 1992 é que a notória variante passou a ser reconhecida e a integrar o estatuto do Rubro-Negro.

No hino do Flamengo, ele fez uma referência ao clássico com o Fluminense no trecho "Nos Fla-Flus é o Ai, Jesus!". Para os tricolores, a expressão - que chegou a ser grifada em uma enorme faixa - gerava um certo orgulho, uma vez que indicaria que o rival o temia.

Paulo Tinoco (à esq), e o sambista Moacyr Luz beijam bandeira do Fla - Reprodução / @fla_musica
Paulo Tinoco (à esq), e o sambista Moacyr Luz beijam bandeira do Fla
Imagem: Reprodução / @fla_musica

Paulo Tinoco, autor de "FlaMúsica - A memória musical rubro-negra", projeto que tem catalogado cerca de 1060 músicas que fazem referência ao clube da Gávea, a expressão, na verdade, é uma exaltação ao Flamengo. Ele ressalta o significado que, talvez, tenha se perdido ao longo do tempo.

"O 'Ai, Jesus' é uma expressão portuguesa, que tinha duas correntes. Podia-se dizer que o 'Ai, Jesus' era o queridinho, o preferido. Trazendo um exemplo para os dias atuais, talvez, possa ser 'Gabigol é o 'Ai,Jesus' da torcida. Outra questão era o de 'arrancar suspiros', querendo dizer que, nos Fla-Flus, o Flamengo é o time que emociona mais os torcedores, que é o time que causa mais emoção, por ter a preferência da maioria da torcida", conta ele, que recorda de qual época são os primeiros registros da canção:

"Em meus estudos, a primeira nota que encontrei sobre esse hino foi em uma edição de um jornal de dezembro 1943, sobre o 'Trem da Alegria', programa de auditório que era apresentado também por Lamartine Babo e vinha homenageando os clubes cariocas. Em janeiro de 44, em uma nota sobre o programa, apresentando os hinos dos clubes cariocas, trazia o hino do Flamengo".

Paulo Tinoco lembra ainda que, no próprio hino do Flamengo, há uma outra parte que, com o passar do tempo, pode não ter uma interpretação muito clara nos dias de hoje:

"Há a 'muita libra já pesou', que era uma expressão do remo. Os barcos tinham de ser pesados antes das provas e o barco que ganha a regata tinha de ser pesado novamente, em libras, para homologar a vitória. Então, significava que tinha muitos títulos no remo".

Reprodução Facebook
Imagem: Reprodução Facebook

O jornalista e pesquisador Roberto Assaf, autor de livros como "Fla-Flu, o Jogo do Século", acredita que o 'Ai, Jesus' no hino rubro-negro mostra o quão inesperado era o resultado dos duelos entre as equipes.

"É uma expressão que se usava muito à época [da composição do hino]. Um termo importado de Portugal. Os portugueses, e aqui no Rio tinham muitos, usavam bastante. "'Ai, Jesus', como vai ser?". E o Lamartine Babo acabou incorporando ela ao hino. Acredito que era porque nunca se sabia quem ia vencer o Fla x Flu, o que era muito comum. Fla x Flu era um jogo imprevisível, como é até hoje", aponta.

Assaf recorda que o fato de o Flamengo citar o Fluminense no hino pode causar estranheza a alguns, mas a história dos dois clubes são unidas.

"Flamengo e Fluminense tiveram uma ligação muito forte. Há um texto curioso que aponta que os tricolores torciam para o Flamengo no remo e o rubro-negro para o Fluminense no futebol, antes da criação do departamento de futebol no Rubro-Negro. Os clubes sempre foram unidos. Certa vez, o Flamengo ficou sem estádio e treinou nas Laranjeiras. Treinou lá e, depois, enfrentou o Fluminense na própria Laranjeiras", disse, lamentando que hoje a rivalidade entre os times seja quase sinônimo de violência:

Roberto Assaf é jornalista e pesquisador - Reprodução / robertoassaf.com.br
Roberto Assaf é jornalista e pesquisador
Imagem: Reprodução / robertoassaf.com.br

"De uns tempos para cá é que começou a existir um ódio no futebol que eu, sinceramente, não consigo compreender".

Luiz Antonio Simas, escritor, professor e historiador, aponta que tanto acreditar se tratar do 'mais querido' ou quanto que seria sobre um sentimento de apreensão em relação ao clássico estão corretas. Ele lembra o contexto histórico em que a composição de Lamartine Babo foi feita, em uma época em que muitas expressões portuguesas ainda eram usadas no Brasil e que o Fla-Flu era um duelo de extremo equilíbrio.

"Esse negócio do "Ai, Jesus" vai depender de cada torcida porque tem uma polêmica nisso e é impossível dizer qual é a veracidade. Só o Lamartine Babo poderia falar disso. Para os flamenguistas, os "Ai, Jesus" vem do fato de ser uma expressão portuguesa denotando o mais querido, aquele que é o predileto. É uma expressão que era muito usada para se referir ao filho caçula. Seria, então, o mais querido nos Fla-Flus. Os tricolores já trabalham que seria o inverso porque o hino é composto na década de 40, quando o equilíbrio no clássico é muito grande, O negócio era seríssimo. Então, os tricolores trabalham com a hipótese de que o "Ai, Jesus" é a agonia que o Fla-Flu causa, um sentimento de tensão, de expetativa", conta

Luiz Simas é escritor, professor e historiador - Reprodução instagram @luizantoniosimas
Luiz Simas é escritor, professor e historiador
Imagem: Reprodução instagram @luizantoniosimas

Simas ressalta que não há registros de Lamartine Babo indicando o motivo de ter usado tal expressão e celebra o fato de o hino ter essa margem para interpretação, aguçando ainda mais a rivalidade entre os clubes:

"As duas interpretações são coerentes e Lamartine Babo não se pronuncia sobre isso. Em nenhum momento ele fala sobre essa questão, do motivo de ter colocado que "Mais cotado nos Fla-Flus é o 'Ai, Jesus' ". Mas como ele coloca que é o mais cotado, ou seja, o Flamengo é mais cotado para ganhar que o Fluminense, acho que esse "Ai, Jesus" tem mais o sentido dessa expressão carinhosa do português de Portugal, que era muito falado no Brasil. Mas só o Lamartine poderia definir isso e eu acho um barato o fato de o hino deixar margem à interpretação o que, no fim das contas, acaba estimulando a rivalidade. Tomara que ninguém psicografe o Lamartine Babo para que ele diga o que ele quis dizer com isso que se mantém essa expectativa. E o hino do Bangu acaba citando os dois, porque aí o Lamartine vira e diz que "A torcida reunida mais parece a do Fla-Flu"."

Cronologia do hino do Flamengo

(pesquisa de Paulo Tinoco - projeto FlaMúsica)

1945 (janeiro) - Hino lançado em disco de 78 RPM com o nome "Sempre Flamengo" (gravado pelo Grupo vocal Quatro Ases e um Coringa);

1950 - Lançado o Box com 6 discos de 78 RPM com os hinos dos clubes do RJ por ocasião da Copa do Mundo de 1950. Nesse box o Hino do Flamengo foi regravado com o nome de "Marcha do Flamengo" pelo Trio Melodia;

1956 - Lançado o disco de 10 polegadas "Mengo tu é o maior", feito em homenagem ao Tricampeonato Carioca de 53-54-55, cujo jogo final entre Flamengo e América ocorreu em 4 de abril de 1956. Nesse disco, o hino foi regravado com a grafia "Hino do Flamengo" por Gilberto Alves. Todas as 49 regravações subsequentes saíram com essa grafia.

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