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Mexicano que perdeu a família emociona a Copa: "só tento viver dignamente"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Julio Gomes

Do UOL, em Ekaterimburgo

29/06/2018 12h00

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Esta não é apenas a história mais triste da Copa do Mundo. É, possivelmente, das mais tristes que você vai ler na vida. A história de Gilberto Martínez, 41, já é conhecida no México. Tão conhecida que, enquanto conversamos com ele, em frente ao portão 7, quase embaixo das arquibancadas provisórias da Arena de Ekaterimburgo, várias pessoas passam ao lado e tocam o ombro dele, em um gesto de apoio. Alguns dão um abraço. Falam algo em voz baixa. Sentem o luto. E, depois, seguem com a própria festa de Copa do Mundo.

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O advogado estaria fazendo a festa dele na Copa, como qualquer família mexicana com dinheiro e vontade para ir até a Rússia, não tivesse sido atingido por uma tragédia.

Gilberto Martinez e colegas de costas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
A mulher, Verónica, 42, e os filhos, Diego, 8, e Mía, 6, morreram dois meses atrás em um acidente de carro na Flórida, Estados Unidos. Gilberto já tinha passagens e ingressos comprados para toda a família para assistir a cinco jogos da Copa do Mundo - os três do México na primeira fase, um da Argentina, terra natal de Verónica, e o do Brasil contra a Costa Rica, porque o filho, Diego, queria ver Neymar em campo.

Apesar do luto e do sofrimento, Gilberto decidiu ir à Copa. Trouxe dois amigos. Cláudio, argentino, e Francisco, mexicano, vão com eles a todos os lados e também usam uma camiseta do México que tem, nas costas, os nomes das três vítimas da tragédia.

“Foi muito diferente, foram emoções fortes. Uma viagem de muitas lágrimas, de muitas risadas. De bons momentos, de maus momentos. Esta viagem foi importante, me serviu para fechar uma conta pendente que eu tinha com eles. A tragédia não se supera. Mas viramos uma página”, contou Gilberto ao UOL Esporte logo antes da partida entre México e Suécia, em Ekaterimburgo.

“Todos os dias, peço apenas para que estejam comigo. E apenas tento viver dignamente, para que se orgulhem de mim”.

Enquanto conversamos, ele percebe que ali por perto está a mulher do goleiro Ochoa, com o filho do casal no colo. Aproxima-se para conversar com ela. Se abraçam. Conversam por alguns minutos. Mais pessoas passam para dar um abraço ou um tapa no ombro. Sabem quem é ele, não quem é ela.

“Eu conhecia o empresário de Guillermo (Ochoa), ele já havia mandado um vídeo no aniversário de 5 anos de Diego. Quando aconteceu a tragédia, me mandou uma mensagem de muito carinho, dizendo que meu filho seria um anjo que lhe ajudaria a voar”, conta Gilberto, voz baixa e pausada, olhos constantemente marejados.

Gilberto Martinez e colegas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Depois da vitória sobre a Alemanha, ele ganhou de presente o par de luvas de Ochoa e uma camiseta assinada por todos os jogadores da seleção mexicana. “Esta vitória foi por tua família”, dizia a mensagem de Ochoa, por Whatsapp. O UOL Esporte tentou conversar com o goleiro mexicano sobre a história de Gilberto, mas não obteve êxito. “O que eu tenho para falar para ele é somente para ele”, falou o goleiro.

Diego, 8 anos, apaixonado pelo Barcelona, jogava futebol desde cedo e sonhava ser jogador profissional e jogar uma Copa.

“Tive a chance de entrar no campo em Rostov. E foi como se meu filho tivesse jogado a sua Copa do Mundo. Ele é um anjo. Está aqui. Tenho certeza que o México fará sua melhor campanha em Mundiais, porque ele está aqui ajudando.”

Advogado, Gilberto agora cuida também de uma fundação para ajudar crianças sem recursos financeiros a se aproximarem do futebol no México. Foi a maneira de, de algum jeito, homenagear o filho, dando a oportunidade a outros de cumprirem o sonho que foi interrompido.

Gilberto Martinez e credenciais - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
As camisas da seleção mexicana que os filhos usavam e os Fan IDs (a credencial que identifica os torcedores na Copa da Rússia) de Verónica, Diego e Mía estão sempre com ele. No sábado, volta ao México para assistir o jogo de sua seleção contra a de Neymar pela TV. Mas promete. “Eu volto à Rússia se chegarmos à final”.

Esta era a parte da viagem que não estava prevista por Verónica - todo o resto havia sido meticulosamente planejado por ela. Mas Gilberto logo se apressa para falar do maior ensinamento recebido após a tragédia.

“Eu aprendi a viver todos os dias como se fosse o último. Não se preocupar mais com besteiras nem por um segundo. O maior conselho que posso dar a quem tem filhos é: viva todos os dias, todos os momentos, todas as brincadeiras. Viva intensamente. Ame seus filhos. Porque, em um segundo, tudo pode mudar.”

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