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Rodrigo Mattos

Fifa diz querer novos superclubes no mundo, mas privilegia seleção de Tite

Rodrigo Mattos

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de ?O Estado de S. Paulo? em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

19/09/2020 04h00

Em um congresso virtual, nesta sexta-feira, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, voltou a repetir um mantra seu recente que é incentivar o surgimento de "superclubes" pelo mundo além das fronteiras da Europa. Seu objetivo é tornar mais igual as disputas pelo globo com times que possam enfrentar os grandes europeus.

No mesmo dia, quase no mesmo horário, o técnico da seleção, Tite, convocava jogadores para as datas das eliminatórias da Copa do Mundo em outubro. Chamou jogadores do Flamengo, Palmeiras e Athletico-PR que desfalcarão seus times por quatro rodadas - além dos estrangeiros como Arrascaeta e Kaneman que também não estarão em campo.

Embora não dê para perceber diretamente, as duas cenas têm uma relação direta. No mesmo congresso, a Fifa anunciava a autorização junto com a Conmebol da volta das eliminatórias da América do Sul, em outubro. A entidade mundial se esforçou para viabilizar essas datas negociando com países onde estão os jogadores para derrubar as quarentenas por conta da pandemia do coronavírus. Dos 21 países, 19 aceitaram a demanda, menos China e Eslováquia.

Não houve por parte da Fifa uma redução das datas ou das eliminatórias da Copa do Mundo. Nenhuma adaptação por conta do calendário apertado resultado da epidemia mundial.

Diante desse cenário, a CBF completa empilhando jogos de sua seleção no meio do Brasileiro, seja em 2020 ou em 2021. E que se danem os clubes porque o que interessa é a entidade faturar com sua seleção. Ainda que as eliminatórias sul-americanas tenham 18 longas, desnecessárias e arrastadas datas. Uma enquete com qualquer grupo vai mostrar a falta de interesse do torcedor nesta competição.

Ao falar sobre o calendário, Infantino discursou: O próximo trabalho é o calendário internacional. Precisamos perguntar se todas as competições são interessantes para os fãs? Nós decidimos nos livrar da Copa das Confederações. Temos competições de mais ou não o bastante? Quantos jogos um jogadores pode jogar, quanto precisa descanso? Precisa ser um descanso real e não encher com outras atividades. Vamos debater", analisou, e ressaltou que o futebol deve se preocupar em não perder público.

Pois bem, para além da CBF que esculhamba nosso calendário, há jogos de seleção demais quando o maior interesse está nos clubes. Confrontos de times nacionais deveriam ser exceções, eventuais, não essa série de amistosos e competições longas. Mas, para mexer nisso, Infantino precisa tirar dinheiro das federações nacionais que lucram com esses jogos. E, depois, são essas federações nacionais que o elegem.

No final das contas, o sistema da Fifa é bem parecido com o da CBF com as federações estaduais. A entidade organizadora mantém o status quo delas e, em troca, seu presidente ganha apoio político. Internacionalmente, as eliminatórias da Copa longas e amistosos fazem o papel dos Estaduais. Não há só jogos demais de seleções na América do Sul, isso ocorre também na Europa e na Ásia.

Quando fala em incentivar grandes times globais, Infantino foca mais em mudanças de legislação para transferências ou salários e no Mundial de clubes. "Temos que reduzir o gap para que 50 times nacionais possam ter chance de ser campeões mundiais, não 10. Precisamos desenvolver o futebol mundial para ter 50 clubes. Como podemos fazer? Debatendo, reforçando, olhando para as regras do jogo, reforçando as competições como Mundial de Clubes", discursou.

Uma cota milionária do Mundial de Clubes pode ajudar um ou dois times sul-americanos, mas não vai eleva-los aos europeus. A legislação, se reforçar o poder dos clubes formados, é um bom instrumento. Mas é essencial mexer no calendário.

Com seu poder político, a Fifa poderia negociar uma legislação que obrigasse entidades como a CBF a paralisar seus campeonatos quando a seleção jogasse. Essa seria uma ação real. Como a Fifa espera que se forme um superclube no Brasil quando um time não contará com jogadores convocados por seleções em quase metade do Brasileiro-2021?

A questão é: a Fifa está disposta que suas filiadas abram mão de jogos (e portanto dinheiro) em favor dos clubes? Não é o que ela demonstrou ao aprovar uma eliminatória sul-americana igual à anterior.

Rodrigo Mattos