PUBLICIDADE
Topo

Renato Maurício Prado

Rogério Ceni a um passo da Tríplice Coroa... de espinhos

Alexandre Vidal/ Flamengo
Imagem: Alexandre Vidal/ Flamengo
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

28/12/2020 04h00

Rogério Ceni chegou ao Flamengo com chances (e, certamente, enorme esperança) de conquistar a Tríplice Coroa: Copa do Brasil, Libertadores e Brasileiro. Após a péssima atuação e o empate diante do Fortaleza, está a um passo de fechar outra tipo de Tríplice Coroa. A de espinhos, perdendo melancolicamente as três competições, dirigindo o melhor elenco do país.

Nas eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores, ainda havia o atenuante do pouco tempo que teve para treinar a equipe que recebeu do catalão Domènec Torrent, após duas goleadas humilhantes: 4 a 1 para o São Paulo, no Maracanã, e 4 a 0 para o Atlético Mineiro, no Mineirão.

Agora, depois de três semanas completas de treinos e a volta de praticamente todos os titulares, já não há desculpa para o desempenho patético, diante um adversário tão limitado.

Na entrevista pós-jogo, Ceni fez um curioso autoelogio que, sem perceber, revelou uma fraqueza:

"A dificuldade que o Flamengo enfrentou hoje se deve muito a um sistema de três anos que foi montado por nós aqui no Fortaleza", disse ele.

Ora, se a tal estratégia (em português claro: uma baita retranca) é de sua autoria, não seria também ele o mais indicado para saber e treinar a melhor forma de superá-la? Pelo visto, não! Fez o veneno, mas não sabe o antídoto...

O que se viu no Castelão foi um Flamengo perdido, sem encontrar soluções para chegar ao gol do Fortaleza. Sem movimentação (em determinados chegava a ser impressionante como os atacantes se mantinham estáticos enquanto Gérson ou Arão buscavam encontrá-los desmarcados, para o passe), sem brilho, sem alma, sem nada. E jogando, teimosamente, da mesma forma que não dava resultados.

Algo inadmissível, repito, após três semanas inteiras de treinamento. Onde foram parar as triangulações, as tabelas, as jogadas de pé em pé, dos bons tempos de Jorge Jesus? Por que desapareceram a intensa movimentação e as constantes trocas de posições? Por que tantos erros de passe? Não há mais jogadas ensaiadas? Tudo se resume a constantes e infrutíferos cruzamentos altos sobre a área? Não há variações táticas para usar durante o jogo? É inaceitável, ínsito, o melhor elenco do país atuar tão mal contra um rival bem mais fraco.

É verdade que alguns jogadores, como Éverton Ribeiro, caíram brutalmente de rendimento. Mas qual é a explicação? Má forma física? Problemas extracampo? Síndrome pós-Tite? Talento Éverton tem de sobra. Cabe a Rogério Ceni buscar a melhor maneira de recuperar o seu bom futebol. E até que isso aconteça, um banco de reservas seria bem-vindo.

Faltando 11 rodadas (ainda que o Flamengo tenha um jogo a menos), a diferença de sete pontos para o São Paulo (que pode cair para quatro, caso o rubro-negro carioca vença o confronto adiado contra o Grêmio, em Porto Alegre), o título brasileiro parece praticamente perdido.

Nem tanto pela distância na tabela, mas acima de tudo pela diferença colossal entre o futebol que o São Paulo e o Flamengo estão jogando. O time de Fernando Diniz vive o seu melhor momento. O de Ceni continua tão irregular quanto estava sob o comando de Domènec.

A impressão que fica é a de que o departamento de futebol inteiro do rubro-negro se perdeu com a saída de Jorge Jesus. Sem o português e sua comissão técnica, a coisa desandou em todos os setores. Eram eles, e somente eles, os responsáveis diretos pelo enorme sucesso.

Se Rogério Ceni pretende continuar no Flamengo, após o Brasileiro, precisa, pelo menos, conseguir que a equipe rubro-negra volte a exibir um futebol à altura dos excelentes jogadores que possui. Ainda que, a esta altura do torneio, isto talvez não seja suficiente para ganhar o octacampeonato. Caso sua bola continue murcha como agora, a Tríplice Coroa de Espinhos lhe será fatal.

A palavra de Jesus

Em Portugal, Jorge Jesus assistiu, pela TV, ao empate com o Fortaleza e, pelo WathsApp, confessou a um saudoso amigo rubro-negro o seu otimismo:

"Ainda acredito que o Flamengo vá ganhar o Brasileiro!"

Haja otimismo! Será que crê também que o Benfica ganhará o Campeonato Português? Ou a Liga Europa?

Renato Maurício Prado