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Uma tragédia não basta, Landim?

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo - Thiago Ribeiro/AGIF
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

21/05/2020 04h00

Trinta e um autos de infração foram registrados e ignorados no Ninho do Urubu, antes da tragédia que vitimou 10 meninos que moravam num container sem saídas de emergência e alertas de incêndio. Uma chaga até hoje aberta na alma rubro-negra, graças à irresponsabilidade da administração anterior e à insensibilidade da atual, no tratamento com a família dos mortos.

Duas mortes (a do adorado massagista Jorginho e a da mãe do jovem Ronald, da base), quatro jogadores do elenco profissional contaminados (dois deles, segundo o clube, recuperados) e vários outros casos confirmados entre integrantes do departamento de futebol e parentes e funcionários dos atletas.

Num momento dramático da pandemia no Brasil, em geral, e no Rio, em particular (estado onde tem morrido mais de um centena de pessoas por dia), o presidente do Flamengo Rodolfo Landim, acompanhado do chefe do seu departamento médico Marcio Tannure e do presidente do Vasco, Alexandre Campello, outro profissional da medicina, resolve ir ao presidente da República Jair Bolsonaro, em Brasília, pedir a volta do futebol.

Todos sorridentes e sem máscaras, embora, nos testes no clube, Tannure estivesse vestido como um astronauta em filme de ficção. Detalhe: um assessor do vice-presidente Hamilton Mourão, com trânsito livre no Planalto, testou positivo na semana passada. Qual a lógica?

Não bastasse isso, contrariando orientações da secretaria municipal de saúde, o Flamengo liberou a volta aos treinos, flagrados pelo helicóptero da Rede Globo, em sobrevoo no Ninho do Urubu.

E fica a pergunta que não quer calar: treinar pra que, se não há nem sequer previsão da volta dos jogos? Botafogo e Fluminense se recusam, com razão, a jogar o Estadual enquanto durar essa tragédia no Rio e o Brasileiro, a Libertadores e a Copa do Brasil são momentaneamente inviáveis por envolver estados e países em fases completamente distintas na pandemia.

Pelo visto, os atuais dirigentes não se conformaram com a divisão de responsabilidades na tragédia do Ninho. Parecem fazer força, agora, para obter um pacote completo: irresponsabilidade, insensibilidade (com a situação que o País e o Estado atravessam) e culpa. Querem uma tragédia inteira pra chamar de sua!

Já não basta o enorme susto com os testes de Jorge Jesus, na época em que o vice-presidente Maurício Mattos contraiu a doença, que o obrigou a internação em um hospital, em Brasília? Querem matar o Mister? Ou algum jogador? Ou outro funcionário do departamento de futebol?

Só falta mesmo se confirmar aquela história absurda de querer levar o time para treinar ou jogar em Brasília (sonho de Bolsonaro), ao lado do hospital de campanha montado no Mané Garrincha. Em se tratando de Landim, Bap e cia., experts em insensibilidade e insensatez, tudo é possível...

A vergonha de Moraes

Francisco Moraes é um dos torcedores mais conhecidos do Flamengo. Tem mais de 60 anos e testemunhou, in loco, praticamente todas as grandes conquistas do clube, desde a gloriosa era Zico. Foi um dos fundadores da Raça Rubro-negra e viajou o mundo atrás do clube de seu coração, sempre pagando do próprio bolso, muitas vezes com grande dificuldade. É dele o emocionado e enfurecido texto que se segue, publicado em seu site História de Torcedor. Bagá o assinaria sem pestanejar. Com idêntico linguajar...

"Presidente Landin, boa tarde, meu nome é Moraes e sou um torcedor do Flamengo do site Historiadetorcedor.com.br que tem exatos, 9 seguidores. Espero que o senhor esteja bem assim como seus familiares. Tá circulando aí uma foto sua de Brasília, mostrando que num tá usando máscara. Por favor, Presidente. Dê o exemplo e inté mermo por uma questão de saúde, pois o senhor pode ser contaminado ou contaminar os outros.
E é pra falar sobre a tal foto que mando esse e-mail pro Senhor. O Flamengo presenteou esse cidadão que ESTÁ Presidente da República com a camisa número 2, branca, linda. Infelizmente num é pro meu bico. Nem tenho dindin pra comprar. Inté aí tudo certo. O errado é que essa p... aki virou um inferno. "... tu num vai falar nada não? Tu viu que mais de mil pessoas morreram ontem e esse #$%@" fez um vídeo dizendo: "se num kizer tomar Cloroquina toma tubaína ah.ah.ah" tripudiando os quase 20 mil mortos no Brasil". Vai se esconder? Você é nossa voz, blá-blá-blá. Odeio redes sociais, mas fui lá vê e senti vergonha, isso, pela primeira vez na vida senti VERGONHA da minha camisa, mas pensei:
Tem alguma coisa por trás disso. O Presidente Landin num seria tão idiota pra aceitar isso pacificamente". O quê? Só ele pode explicar".
Mengão vai treinar em Brasília, como pré-temporada? Num pode ser só isso, num pode. Por que? Primeiro porque num tem propósito. Segundo que isso custa dinheiro. Quem vai pagar? O Governador de lá vai meter a mão no bolso DELE usando dindin privado? Duvido. Vão usar dinheiro público? Po..., Brasília acabou de pedir ao Governo Federal pra comprar respiradores. Num tem dindin pra comprá-los, mas tem dindin pra bancar treinamento de time de futebol? E as vidas que poderiam ser salvas? Como ficam?
Não, num pode ser só isso. Minha camisa num pode se sujar com essa lama, num pode.
Pra resumir. Presidente Landin, o Senhor num é dono do Flamengo. O Flamengo num tem donos. O SENHOR ESTÁ PRESIDENTE DO FLAMENGO, portanto tem a OBRIGAÇÃO de esclarecer essa bagaça.
Chegou a hora de botar a cara na chuva e deixar o vento bater.
Por favor, convoque a imprensa, faça uma live com jornalistas, com perguntas e respostas, pruma satisfação ao meu Povo que tá CONSTRANGIDO E ENVERGONHADO com essa situação. Passar bem. Valeu. Moraes"

Renato Maurício Prado