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Renato Maurício Prado


Renato Maurício Prado: Hora de aplaudir e admirar o Flamengo

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Gols da Libertadores
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

24/10/2019 04h00

Tive a sorte e o enorme prazer de acompanhar bem de perto a época de ouro do futebol do Flamengo. Fui repórter setorista do clube de 1980 a 1983, quando Zico e Cia. ganharam três Brasileiros, uma Libertadores e um Mundial, além de vários estaduais e, de quebra, ainda devolveram ao Botafogo o famoso 6 a 0, sofrido em 1972. Era um timaço admirado no Brasil inteiro e enchia os estádios por onde passava. Todos queriam ver de perto Zico, Júnior, Leandro, Andrade, Adílio, Tita, Nunes e etc.

De lá para, nenhum outro time rubro-negro nem sequer chegou perto de tal nível de excelência, embora outros títulos brasileiros tenham sido conquistados, bem como algumas Copas do Brasil e diversos Carioquinhas. Mas não eram mais times excepcionais, daqueles capazes de encher os olhos da crítica e até das torcidas adversárias.

O Flamengo de Jorge Jesus, que lidera o Brasileiro com dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado e acaba de se classificar para a final da Libertadores, massacrando o Grêmio, no Maracanã, tal como acontecia nos melhores anos de Zico, é uma equipe que encanta e merece ser aplaudida. Quem, de fato, aprecia o bom futebol, gosta de vê-la jogar. E, mesmo que não admita abertamente, se fascina com suas partidas, como faz com os melhores jogos das Ligas europeias.

Atuações exuberantes e categóricas contra os mais fortes rivais do País (Palmeiras, Santos, Internacional e Grêmio, praticamente em sequência, pelo Brasileiro e pela Libertadores) não deixam margem a dúvidas. Em tempo recorde, o técnico português soube armar com maestria um elenco que pratica um futebol extremamente ofensivo e moderno e, em seu time titular, não tem pontos fracos, do goleiro ao ponta-esquerda.

Ao contrário do que acontecia nos anos Bandeira de Mello, quando foi iniciada a elogiável recuperação econômica, mas as contratações no futebol eram quase sempre equivocadas e o time não decolava, na administração Landim, graças à presença de uma velha raposa do futebol, Marcos Braz, os tiros foram certeiros! Rodrigo Caio, Bruno Henrique, Arrascaeta e Gabigol chegaram no início da temporada e Rafinha, Filipe Luís, Pablo Mari e Gerson, no meio do ano, completando um quadro praticamente irretocável. Dos onze titulares, oito foram contratados este ano!

Como bem dizem Jesus e seus jogadores, o Flamengo ainda não ganhou nada até agora. Mas, pela enorme vantagem que tem e pelo que está jogando, é improvável que não conquiste o Brasileiro e está na final da Libertadores - o que possibilita uma dobradinha praticamente inédita em termos do nosso futebol. Apenas o Santos levantou as duas taças nos mesmos anos (62 e 63), mas o torneio brasileiro era a Taça Brasil, bem diferente (e mais curta) que o campeonato atual.

O incomparável Flamengo de Zico sempre dava aos seus torcedores (e aos jornalistas que, como eu, o acompanhavam) a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, venceria a maioria de seus adversários, independentemente, do desenrolar dos jogos, tamanha era a sua superioridade técnica e tática (então, implantada pelo revolucionário Cláudio Coutinho).

É isso que este Flamengo de Jorge Jesus está repetindo agora. Diante de um Grêmio que aumentou o poder de marcação e teve a coragem de ataca-lo no início da partida, no Maracanã, os comandados pelo treinador português tiveram até certa dificuldade, nos primeiros vinte minutos. Mas mantiveram-se fiéis ao próprio jogo, confiantes de que era uma questão de tempo se impor - e o gol saiu ainda no finalzinho da etapa inicial.

Após o intervalo, sobreveio o massacre, com os gols rubro-negros, que deveriam ter acontecido no primeiro tempo na Arena do Grêmio, saindo um atrás do outro, no Maracanã. Que exibição!

Se o Flamengo mantiver o nível de suas últimas atuações tem condições de derrotar o River Plate. Um bom time argentino, mas que não demonstra, este ano, o alto nível de futebol praticado pelo rubro-negro.

Se ganhar o bi da Libertadores, a revanche contra o Liverpool, adversário massacrado em 81 pelo esquadrão de Zico, no Mundial, deverá ser o próximo passo. Mas aí já é outra história. Bem mais complicada, por sinal...

Até lá, os amantes do bom futebol devem agradecer ao português Jesus e ao Flamengo o prazer de rever um jogo bonito e ofensivo que honra o melhor da nossa história nesse esporte. Como é bom ver triunfar tal estilo sobre aquela nefasta história de, antes de mais nada, "proteger a casinha".

Renato Maurício Prado