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Rafael Reis

Soldados pararam 1ª Guerra para jogar futebol no Natal: verdade ou lenda?

Registro da partida amistosa disputada durante "Trégua de Natal" da 1ª Guerra Mundial - Reprodução
Registro da partida amistosa disputada durante "Trégua de Natal" da 1ª Guerra Mundial Imagem: Reprodução
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

24/12/2020 04h20

Futebol não é apenas uma forma de competição. O esporte mais popular do planeta é também um instrumento de confraternização entre amigos e de aproximação entre inimigos, além de um escape poderoso para se esquecer os problemas e conflitos do dia a dia.

A maior dentre todas as demonstrações dos poderes que uma bola rolando pelo chão possui aconteceu no Natal de 1914, quando tropas de Alemanha e Reino Unido, adversárias na Primeira Guerra Mundial, resolveram paralisar o conflito para jogar futebol.

A "Trégua de Natal", como o episódio ficou conhecido, é utilizada até hoje por quem deseja mostrar que o esporte e o clima positivo das festividades de fim de ano são duas ferramentas das mais importantes para a construção de uma comunhão entre os povos.

Mas será que exércitos inimigos realmente interromperam as batalhas da Grande Guerra para baterem uma bolinha?

Ou será que essa é apenas mais uma das várias lendas urbanas que tanto fazem sucesso no dia a dia do futebol, como o quadro de autismo de Lionel Messi e a transexualidade de Marco Verratti, meia do PSG?

Por mais romântica e com cara de foi escrita por um roteirista para fazer parte de um longa-metragem de ficção daqueles produzidos para derrubar lágrimas do público no cinema, a "Trégua de Natal" realmente aconteceu.

Em dezembro de 1914, primeiro inverno do conflito que duraria até novembro de 1918, boa parte das batalhas ocorridas na Frente Ocidental (Luxemburgo e Bélgica) foram interrompidas por causa do frio e também das celebrações natalinas.

O armistício não foi oficial, ou seja, não nasceu de um acordo entre os governantes dos países inimigos e nem contou com apoio dos altos escalões dos exércitos. Simplesmente, os soldados pararam de trocar tiros para festejar o Natal e cantar canções natalinas.

Inicialmente, esses festejos ficaram restritos às trincheiras de cada força. Depois, os combatentes deixaram suas "casas" e avançaram até a "zona morta", espaço "sem dono", localizado entre as linhas de cada exército, onde trocaram abraços e presentes.

O auge dessa celebração, pelo menos em Saint-Yves, na Bélgica, foi a realização de uma partida de futebol entre os inimigos. Os ingleses, que também sairiam vitoriosos na guerra, venceram o amistoso por 3 a 2.

Na frente de batalha que parou para festejar o Natal com futebol, os tiros e bombas voltaram a ser trocados no dia 26 de dezembro. Em outras regiões, o cessar-fogo durou alguns dias mais, até a virada do ano.

Durante o restante da Primeira Guerra, houve algumas outras tréguas, mas nenhuma tão expressiva e folclórica quanto a de dezembro de 1914. Com o passar do tempo, o endurecimento dos conflitos, o crescimento no número de óbitos e o desenvolvimento de sentimentos como ódio e rancor entre os solados, os armistícios foram se tornando cada vez mais raros e menos duradouros.

De tão fantástico que parece, o enredo da "Trégua de Natal" foi parar também no mundo da ficção. Em 2005, o diretor francês Christian Carion lançou o filme "Joyeux Noël" ("Feliz Natal", no Brasil), que conta essa história. O episódio também já rendeu referências em várias animações e séries.

A música e o videoclipe de "Pipes of Peace", canção que dá título ao quinto álbum de estúdio da carreira solo do ex-Beatle Paul McCartney, lançado em 1983, também foram inspiradas na passagem.