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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Ministério Público denuncia três torcedores do Boca Juniors por racismo

Em jogo com o Boca, na Neo Química Arena, corintiana protesta contra atos de racismo -  PETER LEONE/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDO
Em jogo com o Boca, na Neo Química Arena, corintiana protesta contra atos de racismo Imagem: PETER LEONE/O FOTOGRÁFICO/ESTADÃO CONTEÚDO
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Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

05/07/2022 12h55

O Ministério Público de São Paulo ofereceu, na última segunda (4), denúncia por racismo contra três torcedores do Boca Juniors acusados de praticarem atos racistas na Neo Química Arena, em 28 de junho. Os episódios ocorreram quando o time argentino enfrentou o Corinthians no primeiro duelo entre ambos pelas oitavas de final da Libertadores. As equipes voltam a se enfrentar nesta terça, em Buenos Aires.

Agora a Justiça dirá se recebe a denúncia do MP. Apenas um dos três torcedores, Frederico José Ruta, acusado de fazer saudação nazista, havia sido indiciado por racismo.

Sebastián Palazzo, que disse em depoimento ser dirigente do Boca, e José Rolambo Lisa Ragga, tinham sido autuados por injúria racial sob a acusação de imitarem macacos.

Palazzo negou que tenha imitado macaco. A coluna não teve acesso aos depoimentos dos demais acusados. Segundo o "Lance!", o torcedor apontado como autor de gesto nazista (Ruta) alegou que estava mandando beijos para os corintianos.

Porém, o promotor de justiça Roberto Bacal entendeu que as imagens registradas dos atos feitos pelos argentinos mostram que a prática racista foi direcionada à coletividade, não a alguém especificamente, por isso fez a denúncia por racismo. A pena prevista é de um a três anos de reclusão e multa. O promotor escreveu que os torcedores argentinos, "por intermédio de gestos, praticaram a discriminação e preconceito de raça, cor e etnia".

Palazzo e Ruta pagaram fiança de R$ 20 mil e foram soltos no dia seguinte às suas prisões. Até o início da tarde desta terça (5) não havia registro no processo de alvará de soltura para Ragga. O MP tem a informação de que o argentino mora em situação de rua no Brasil e não conseguiu dinheiro para pagar a fiança, que foi estipulada no mesmo valor para todos.

Macacos e humanos

Na denúncia, o promotor Bacal tratou detalhadamente dos gestos atribuídos aos três acusados. Sobre Palazzo e Ragga, o membro do MP escreveu que ambos foram filmados imitando macacos na direção dos corintianos.

"Ao imitarem macacos faz-se uma associação entre um humano e um não humano, que é feita por causa da cor. Ao fazer essa associação, entende-se que o negro está um passo abaixo na escala da evolução. Portanto, tais gestos denotam que negros são animais, que têm menos direitos do que homens, o que daria uma contribuição cruel à desumanização dos negros", afirmou o promotor.

Nazismo

Sobre o caso de Ruta, Bacal escreveu: "O nazismo foi um movimento extremista que atingiu de forma implacável não somente judeus, mas também uma parcela da pequena população negra alemã. Dessa forma, quando o denunciado pratica gestos nazistas, também contribui cruelmente à desumanização dos negros".

Racismo

O promotor explicou os motivos que o levaram a optar pela denúncia de racismo contra os três, descartando a hipótese de injúria racial. "Outrossim, os atos racistas praticados pelos denunciados, em meio a um estádio de futebol, cuja partida foi televisionada em canais de amplo acesso ao público, atingiram diretamente a coletividade, ou seja, todos os integrantes de certa raça, cor, etnia, não se restringindo à honra subjetiva de determinada pessoa. É incontestável que os denunciados tinham a intenção de inferiorizar, menoscabar esse grupo étnico", diz trecho da denúncia.

Como mostrou a coluna, em outro caso de acusação de ato racista contra torcedor do Boca, a Justiça recebeu denúncia por injúria racial contra Leonardo Gérman Ponzo.