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Mauro Cezar Pereira

Garotos do Ninho: para MP, Bandeira, denunciado, preferiu não tomar medidas

O ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello na sessão da CPI do Ninho do Urubu  - Leo Burlá / UOL Esporte
O ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello na sessão da CPI do Ninho do Urubu Imagem: Leo Burlá / UOL Esporte
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

15/01/2021 19h44

"Eduardo Bandeira de Mello tinha ciência do que estava acontecendo no Centro de Treinamento do Flamengo e capacidade de modificar a situação realizando as mudanças cobradas pelos agentes fiscalizadores que indicavam a necessidade de alterações, mas optou por não tomar as medidas". Assim o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) explica a denúncia do ex-presidente do clube, com mais dez pessoas, pela morte dos dez garotos do Ninho no incêndio que completará dois anos no próximo dia 8.

"Bandeira alega que já havia saído do cargo quando os meninos morreram, mas ações que deixou de tomar quando na presidência levaram ao incêndio. A argumentação de que dependia de um colegiado não convence, pois era ele quem escolhia os vices, pelo estatuto do Flamengo. Então tem responsabilidade total nas escolhas e nas ações de prevenção que se recusou a adotar", sintetiza Décio Alonso, promotor do Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor (GAEDEST/MPRJ) do MPRJ.

Ele define o fato como "bastante maduro" para que a denúncia fosse oferecida. Paralelamente a isso, o MP ofereceu ação civil pública sobre a reparação do dano junto à Defensoria do Rio de Janeiro, algo considerado como avanço bastante sensível, também no aspecto técnico porque, além dos oito indiciados pela polícia civil, mais três nomes foram incluídos. Marcelo Helman, diretor executivo de administração, e Alexandre Wrobel, ex-vice de Patrimônio, dirigente que esteve sempre à frente das obras no CT, entram como testemunhas do que aconteceu.

"A investigação delineou para uma divisão tênue entre o futebol profissional e o de base. Algumas tomadas de decisão eram específicas para as diferentes categorias. Não necessariamente quem estava à frente tomava decisões e os indiciamentos seguiram justamente as que especificamente tinham ligação com o local onde houve o incêndio", explica Décio Alonso. Para o MP, a responsabilidade cai sobre quem se responsabilizou pelo fato de o clube apresentar o projeto, ter sido intimado com as autoridades fiscalizadoras deixando claro que não poderia ser daquele jeito e ainda assim ter persistido.

"A responsabilidade penal pressupõe que eu diga qual a ação concreta que levou ao acontecimento, já a ação civil pode gerar algo pelo simples fato de alguém ocupar determinado cargo", explica. "O (Marcelo) Helman circulava no meio de realização de obras, como o Luiz Humberto (Costa Tavares), que era um gerente (de administração), mas eles não tinham tomada de decisão nesses pontos, que ficava com o (diretor da base Carlos) Noval, o (Marcelo) Maia (de Sá, diretor adjunto de patrimônio), que somados ao (ex-presidente Eduardo) Bandeira (de Mello) foram alertados diversas vezes e geraram aquela situação. A existência do contêiner ali era de responsabilidade deles", frisa o promotor. Maia e Noval ainda trabalham no Flamengo.

Alonso destaca que Bandeira de Mello foi eleito no final de 2012 e desde 2015 vinha sendo alertado sobre inadequação do local. "Ele foi cientificado pessoalmente sobre isso e se negou diversas vezes a assinar o termo de ajustamento de conduta. Quando instado pela última vez se faria, ou não, as mudanças cobradas, saiu pela tangente dizendo que algumas condições eram inviáveis e outras seriam feitas paulatinamente. Mas nada foi feito e a ação pública acabou sendo movida. O ex-presidente foi alertado para a condição precária do contêiner como alojamento noturno, sem monitores em quantidade adequada, sem escapes para situações de incêndio, emergências. Havia turnos com um só monitor e na noite do incêndio ele não estava no lugar"

Alonso destaca a complexidade da investigação, e diz que é possível a apresentação de responsabilidade de outros nomes que hoje não estão entre os indiciados. Eles podem ser da gestão passada ou até da atual. Para o MP, a questão temporal não é determinante e a tecla da defesa do ex-presidente, na percepção do promotor, não é relevante. Ele diz que a questão passa pela ciência do fato e adoção, ou não, de soluções. "Em relação à atual gestão, a investigação não revela o total conhecimento dos fatos. Ela chegou com o CT inaugurado, houve evento público, com convidados, e receberam o pacote pronto", ressalta, acrescentando não haver indícios de que o presidente Rodolfo Landim e seus pares souberam de algo e nada fizeram.

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