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Real em baixa pode viabilizar venda de Cebolinha, diz presidente do Grêmio

Romildo Bolzan, presidente do Grêmio - Lucas Uebel/Grêmio
Romildo Bolzan, presidente do Grêmio Imagem: Lucas Uebel/Grêmio
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

07/05/2020 20h01

O Grêmio voltou aos treinamentos nesta semana, autorizado pela secretaria de saúde de Porto Alegre e pela Federação Gaúcha de Futebol, assim como o Internacional. O blog conversou com o presidente tricolor, Romildo Bolzan, que fala sobre o momento do futebol em meio à pandemia de coronavírus e o que espera da sequência da temporada em meio à crise. Ele explica a reestruturação administrativo e financeira do clube, feita em sua gestão, e assegura que o resultado positivo para COVID-19 em Diego Souza não alterará a programação gremista. O dirigente admite que o real em baixa pode viabilizar venda de Cebollinha: "Importa saber se o câmbio da ocasião vai se assemelhar ao valor em reais que desejaríamos".

Como foi a redução de salários no Grêmio?
O Grêmio fez de início o ajuste com seu plantel, plenamente aceito pelos jogadores, levou em conta três meses tão somente. Nem sei se vai ser suficiente, mas naquele momento foi uma avaliação de três meses, o clube desonerou 40%, mas em 2021 pagará em outro prazo, para adequar o fluxo de caixa, pagará adiante.

O senhor se recuperou da COVID-19, tudo ok agora?
Não fui muito afetado, os meus sintomas foram fraquíssimos, tive no final do ciclo apenas perda de olfato e paladar, não sofri com problemas respiratórios, dor no corpo, de cabeça, não passei por nada disso.

Como foi sua volta à rotina?
As cidades estão mais paradas. Como moro no interior, a 100 quilômetros de Porto Alegre, mantenho a rotina de casa ao escritório e mais home office, com um novo instrumento que é a vídeo-conferência, evita deslocamentos.

Qual sua avaliação do balanço financeiro de 2019 do clube?
Poderia ter dado superávit maior. Fizemos R$ 22 milhões. Importante é que nos últimos quatro anos nosso ganho líquido foi realizado em torno de R$ 122 milhões. Foi o quarto ano seguido com resultados, com superávit. Organizando bem o clube e se introjetou uma cultura de se fazer isso, para nós não há como não dispor disso. O Grêmio procura sempre ser pagador, cumpridor e acima de tudo com responsabilidade fiscal. Essa é uma cultura feita pelo conselho de administração e conseguimos tornar isso cláusula pétrea no comportamento de equilíbrio do clube. Nossas discussões passam por isso, sempre.

Quais os avanços do clube?
Temos uma arrecadação crescente, ela se dá pela fidelização de nosso quadro social, formação de atletas que dão bons resultados, capacidade de venda, melhoria dos patrocinadores, de marketing, venda de royalties do Grêmio, premiações por competições, por vitórias e, chegando mais perto dos títulos, e principalmente uma política que desonerou nosso encargos financeiros. Cada vez mais procuramos reduzir nosso comprometimento bancário.

O clube vem passando, à sua maneira, por essa reformulação financeira e administrativa há alguns anos. Quanto falta para que essa recuperação possa ser considerada completa?
Temos que manter duas situações importantes. Primeiro formar jogadores de boa qualidade e com valor de mercado. Depois, quanto menos depender das vendas, transformarmos receitas perenes em garantidas que cobrem as necessidades dos clubes, melhor será.

E quanto ao Éverton Cebolinha, que acabou permanecendo?
Não tive proposta, muitas consultas, mas nenhuma proposta concreta, documentada e que poderia ser avaliada. Então nada recusamos porque nada veio de concreto. Por toda essa situação, poderíamos analisar uma proposta e uma situação de valor menor, mas importa saber se o câmbio da ocasião vai se assemelhar ao valor em reais que desejaríamos, isso se tiver proposta.

Como Luan...
O ganho desportivo é fundamental para nós, mas também temos que examinar a pretensão do jogador. Luan saiu com 26 para 27 anos e Éverton tem 24. Acho que está chegando a hora de um momento importante para ele em sua carreira, em função de todo o crédito que tem e a passagem pela seleção. Seria interessante para o Grêmio também, em função de toda a crise, mas se tivermos que ficar com o jogador, do ponto de vista esportivo será bom negócio. Tem que ser bom para as duas partes.

Após a eliminação da Libertadores daquela maneira, como funcionou a reformulação do departamento de futebol que sucedeu a derrota por 5 a 0 para o Flamengo?
Rodos os que saíram eram profissionais bem qualificados, mas há certas horas em que é preciso um choque de motivação para sair da zona de conforto. O Grêmio fez uma avaliação geral e procurou motivar situações que eram necessárias.

O elenco passou por muitas mudanças e contratações foram feitas, quais as metas para 2019?
Um Grêmio mais presente no Brasileiro desta vez. Queremos estar competitivos nos três campeonatos, isso é fato aqui no Grêmio.

Por que o clube não prioriza o Brasileirão?
Primeiramente para esse ano compramos sete jogadores e melhoramos o plantel com dois para cada posição e todos podendo ser titulares. Eles, mais jogadores da base, nos darão elenco mais numeroso e qualificado. E como o Grêmio está muito presente em competições, ele prioriza as partidas mais próximas. Essa opção em alguns casos coloca o Brasileiro para trás, ou jogamos com time reserva. Tentando corrigir isso, melhoramos o nível do plantel, mas não vamos deixar essa política. Se estivemos perto de decisões, vamos priorizar as decisões. O Grêmio jogou sete partidas e venceu praticamente as sete depois de sair da Libertadores. Acredito que neste ano o conceito estará mais claro para nós, não poderemos abrir mão de situações importantes no Brasileiro.

Como imagina o futebol brasileiro nos próximos cinco, dez anos? Quantos times brigando pelos principais títulos? Quais?
Acho que não tem mais espaço para irresponsabilidade no futebol brasileiro, essa geração de dirigentes está muito mais preocupada em deixar o clube mais forte do que em se aventurar. O Grêmio promoveu isso, teve um processo de maior responsabilidade fiscal e financeira. Os clubes mais estruturados poderão ser referência para os demais. Quanto mais política de responsabilidade fiscal e financeira, teremos mais clubes organizados e competitivos. Visualizo que esse processo de queda será interrompido e a recuperação dos clubes gira pela responsabilidade administrativo e financeira, não haverá mais espaço para aventuras.

Imagina um desgarramento dos mais estruturados?
Não sei, nesse momento o Flamengo é o time a ser batido. Palmeiras tem elenco forte, Grêmio, Inter, São Paulo têm times competitivos, o Corinthians. Ainda não há desgarramento, acho que a camisa, tradição e formação de elenco ainda podem dar certo e formar um time quando você menos imagina.

Sua relação com Renato Portaluppi parece bem próxima. Em algum momento desde a volta do treinador ao Grêmio, em 2016, houve real possibilidade de saída dele, por opção do profissional ou do clube?
Renato sempre foi muito leal na relação conosco. Ele me disse que havia conversas com o grupo que disputava eleição no Flamengo e, com toda clareza, que somente sairia se o Grêmio soubesse antes, e que poderia lhe fazer proposta que atenderia. E isso foi o que aconteceu em uma relação muito franca. Ele nos colocou exatamente o que estava acontecendo e foi muito correto conosco, o que nos levou a esse acerto. Renato aqui é único, não tem dois Renatos, ele sabe que essa situação não encontrará em outro lugar. Tem muito a ver com isso.

A pandemia muda os planos dos clubes, qual sua previsão para o restante da temporada, no campo e nas finanças?
Catastrófica a previsão financeira, os campeonatos vão ser finalizados, nem que seja em 2021, mas será catastrófica. Nossa maior missão hoje é superar a crise e não deixar cair a peteca, mantendo o clube forte para seguir com capacidade quando passar tudo isso. Nossa primeira situação não é mais ganhar campeonato, mas sobreviver bem. Os que não se ajustarem terão muita dificuldade para se estabelecer lá na frente. Capacidade de gestão e diagnóstico, sem isso não vai dar certo.

Qual sua proposta para o calendário 2020 em meio a tamanha crise?
Defendo a volta dos treinos desde que com ok das autoridades sanitárias. Na medida em que evoluirmos, jogar sem público, esgotarmos os estaduais e terminar na medida do possível. Depois, começar o Brasileiro, continuar a Copa do Brasil e esperar para ver o que a Libertadores fará. Aí é mais complexo porque depende de fronteiras de países. Podemos jogar depois do Natal, entre Natal e o ano novo, janeiro se for o caso, concluindo todos os calendários sem alterar nenhuma forma de campeonato.

Como o senhor está vendo a volta do elenco às atividades, nesta semana? Teme que não seja possível seguir, já que a curva do COVID-19 no RS ainda não está caindo?
Voltamos na forma que a prefeitura de Porto Alegre autorizou, ou seja, somente para exercícios físicos, não tem contato, não tem nada. Os protocolos que organizamos são enormes e envolvem toda chegada e saída de jogadores em separado. Não tem vestiário, academia, convivência, não tem nada. São situações completamente monitoradas todos os dias com segurança absoluta e após testados. O Grêmio deu vacinas para gripe a todos seus jogadores e familiares e há todo um monitoramento bastante tranquilo no sentido da segurança.

Qual a importância de os jogadores treinarem nesses dias?
Estar no CT neste momento significa minimamente recuperar uma rotina num esporte de alto rendimento com situações tão específicas como no futebol. Ficar 60 dias parado sem nenhuma atividade, monitoramento, controle, seja alimentar, físico, técnico, médico é absolutamente inviável no futebol de alto rendimento, porque isso diz respeito à nossa rotina, ao nosso dia a dia. Retornar a essas práticas e a esses controles faz parte de um retorno bem gradual, tranquilo, mas necessário. Nesse momento é possível fazer, por isso o Grêmio fez, retomando um contexto de convivência emocional, de convivência mínima. da cultura de que o clube está mobilizado, trabalhando e se preparando para quando essa situação de volta definitiva acontecer.

A curva, ainda sem queda, o faz recear sobre a possibilidade de não poder seguir tal processo em algum momento?
O processo de volta é muito lento ao convívio de treinos e preparação física. Até uma situação de reavaliação, permanecerá, achamos que é muito mais seguro estarmos monitorando do que completamente soltos. A qualquer momento o Grêmio pode reavaliar e vamos seguir o que as autoridades municipais, estaduais e nacionais disserem. Elas é que vão balizar o comportamento, não vamos fazer nada que seja uma iniciativa própria, privada ou desafiadora.

O fato de Diego Souza ter resultado positivo muda algo na programação gremista?
Não, nós não sabemos se ele está positivo porque não o testamos. Ele estava em zona de risco e está fazendo quarentena antes de retornar. Não altera nada.

Mauro Cezar Pereira