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Defeitos do Brasil e a força italiana na Copa-82. A quarentena de Tostão, 2

Tostão: time de 82 marcava, mas faltavam mais jogadas pelos lados -
Tostão: time de 82 marcava, mas faltavam mais jogadas pelos lados
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

29/04/2020 04h00

Tostão está em quarentena. Na primeira parte da entrevista ao blog, falou sobre o futebol que atualmente se pratica no Brasil, jogos do passado agora revistos, tática e treinadores do momento. Nesta segunda etapa do papo, ele analisa defeitos e virtudes da seleção brasileira de 1982, transformações no futebol e evolução dos jogadores europeus.

Você viu novamente partidas da Copa de 1982. Quais virtudes e defeitos observados naquele time de Telê Santana 38 anos depois?
Mesmo a de 1970 teve momentos ruins. Estava revendo e percebi que o Carlos Alberto tinha que ser expulso quando estava 0 a 0 com a Inglaterra. De positivo em 1982, achei que o time marcava mais do que parecia, trazia uma preocupação que já era existente: pressionar quem estava com a bola. A imagem que eu tinha antes desses dias era de um time preguiçoso e que deixava o adversário jogar demais com a bola. Mas não era bem assim, era um time que tentava marcar em cima e tomava a bola com facilidade. Tinha muito jogador no meio-campo e congestionava o setor, então é uma qualidade e eu achava o time solto. Não era.

E o que faltava?
Ao mesmo tempo era um time que, até escrevi, fazia uma roda no meio, mas não tinha jogadas pelos lados. Júnior, Leandro e Éder vinham pelo meio, os meias às vezes caíam pelos lados, o jogo era muito congestionado pelo meio. Vinham trocando passes, mas tinham poucas jogadas de penetração, o adversário congestionava o meio e não se via jogadas pelas pontas, ou muito pouco. O ponta-direita não havia e o Éder vinha da esquerda para o meio. Sua grande qualidade no Atlético era da ponta vir para o meio e dar um passe ou finalizar. Ele não driblava como um ponta, de vez em quando fazia isso. Os dois laterais vinham pelo meio, então embolava muito, uma deficiência que achei importante. Mas todo mundo ficou com a ideia de que era um time frouxo que somente queria dar espetáculo, não era isso.

E a Itália era forte, não?
Foi um jogo de grandes, a Itália era muito boa, forte, marcava muito e tinha bons jogadores. Apesar de o Brasil ter feito dois gols, foram jogadas de lances espetaculares, jogadas individuais, os italianos marcavam muito bem. Se jogassem dez vezes, seriam dez jogos pau a pau.

O que melhorou no futebol nessas últimas décadas?
A capacidade de defender e atacar com muitos jogadores. A condição física dos atletas melhorou e eles se preparam para jogar no limite, têm mais de uma função, precisam atuar em uma área maior do campo. Melhorou o que no Brasil ainda é uma deficiência, os times ficaram mais compactos, se organizam em espaço menor, o jogo é mais dinâmico e forte fisicamente.

Melhorou a parte técnica?
Pessoas confundem a habilidade, a fantasia com a parte técnica. Mas na média a parte técnica melhorou, os jogadores exercitam melhor os fundamentos táticos, coletivos de cada posição, suas funções a cumprir, como fundamentos técnicos, passe, desarme, tomadas de decisão. Houve uma evolução. Isso é diferente da habilidade, da fantasia dos jogadores, que continua presente no futebol.

E o que piorou?
O futebol brasileiro não acompanhou, na média, a evolução que houve no mundo todo. Dizem que o futebol brasileiro tem que voltar ao drible, à fantasia. Isso é uma conversa fiada. Houve um progresso técnico, não apenas do jogo, mas de organização, do planejamento técnico, tático, no coletivo. Mas não acho que piorou a qualidade individual, não temos mais na seleção cinco "Neymar", como em 1970 e 1982. Nos últimos 10, 15 anos o Brasil piorou porque não se desenvolveu na parte coletiva. Nem apareceram tantos jogadores espetaculares.

O Brasil já dependeu muito de valores individuais em Copas. E agora não tem mais essa possibilidade como antes, não?
Sem duvida, você pega um jogo Brasil x Bélgica e vê que eles tinham no mesmo time uns três jogadores espetaculares, o Brasil tinha um, que não jogou tanto, pelas dificuldades que teve. Individualmente a Bélgica tinha time melhor do que o Brasil e a França melhor ainda, cinco jogadores no primeiro nível nas suas posições no futebol mundial. Nós tínhamos um, dois talvez.

Mas ainda são bons os jogadores brasileiros...
Continuamos formando grande número de bons jogadores, mas que estão entre os melhores em suas posições no mundo, são poucos. Além do Neymar, tinha na zaga e nas laterais, agora estão acabando Daniel Alves, Thiago Silva, Marcelo. Sobram Neymar, talvez Casemiro e pronto. Deixamos de ser os melhores, o país que tem mais craques, fica somente a ideia.

Passa a depender mais do trabalho da comissão técnica...
E não evoluímos tanto. Isso tem a ver com a evolução do mundo, técnica, financeira, cientifica. O Brasil ficou para trás em todas as áreas, nas competências do trabalhador, e o futebol acompanhou. Trabalhadores eficientes fazem as coisas bem feitas. O futebol deixou de ser um jogo só de habilidade. Ainda salva a gente que o país é grande e consegue formar bons e excelentes jogadores. Mas falta sob o ponto de vista da eficiência técnica, tática, financeira, organização, seriedade, comprometimento, dedicação ao coletivo. Como integrantes de uma sociedade coletiva e não cada um por si. Claro que tem uma exceção aqui ou ali, mas a eficiência do trabalhador europeu e a do brasileiro tem diferença absurda, nas atividades mais diversas. Um garçom, um operário ou quem ocupa funções mais complexas, aprendem a técnica do trabalho dele e a desenvolve mais lá.

Você escreveu recentemente sobre os laterais brasileiros. Hoje são raros os grandes da posição nascidos no país e o melhor time do momento, o Liverpool, tem a melhor dupla da atualidade, com um inglês (Trent Alexander-Arnold) e um escocês (Andrew Robertson). O que dizer sobre isso?
Esse é um exemplo da evolução. O Brasil dominou por muitos anos as laterais, com Nilton Santos, Júnior, Leandro, Roberto Carlos, Carlos Alberto, Cafu, Jorginho, Marcelo... Mas o futebol evoluiu nessa parte técnica, tática, coletiva. Os europeus, até os anos 1990, a Itália ou qualquer outra seleção, frequentemente tinha quatro zagueiros, os laterais eram zagueiros. Mas eles evoluíram, hoje os laterais europeus atacam e defendem o tempo inteiro em todos os grandes times. Os somente ofensivos e habilidosos estão acabando. Aquilo que o Brasil dominava não deverá dominar mais. Daqui pra frente será difícil o Brasil ter os melhores laterais do mundo.

O que evoluíram os da Europa?
Aprenderam a cruzar, como esses dois do Liverpool. São impressionantes. Alguns são superatletas, sem a habilidade de um Marcelo, Daniel Alves, a técnica de Filipe Luís para trabalhar a bola, mas a capacidade técnica é espetacular. Atacam na hora certa, cruzam bem, voltam e não deixam espaços, sabem o momento de ir. Em determinado momento, não havia no Brasil meio-campo, era bola nos laterais. Hoje precisa de ambos, o Liverpool tem três meio-campistas que atacam e defendem o tempo todo. E laterais que fazem o mesmo. Um técnico cheio de ideias boas faz isso com o jogador.

Nesta quinta-feira, na terceira e última parte da entrevista, Tostão fala sobre Jorge Jesus e se ele faria sucesso à frente de um gigante europeu, e lembra Zagallo e sua postura sobre Saldanha em 1970

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL