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Antero Greco


O futebol reflete nosso mau humor

"Quando aparece um Renato dando cutucadas em colegas, é um Deus nos acuda!" - Leo Caobelli/UOL
"Quando aparece um Renato dando cutucadas em colegas, é um Deus nos acuda!" Imagem: Leo Caobelli/UOL
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

08/11/2019 04h00

Caro e paciente leitor, será que viramos um povo mal-humorado? Temo que sim. Ou pelo menos vivemos uma fase desalentadora, a ponto de mandarmos para escanteio o riso e a gaiatice, tradicionais marcas do caráter nacional.

O que antes seria motivo para zoeira, agora virou mote para cara feia. A galhofa dá lugar ao xingamento. A gozação é vista como ofensa pessoal, a ser lavada no mínimo com tapa na cara. Estamos virando ranzinzas, independentemente de idade, formação e classe social.

Tomo o futebol como exemplo. Nosso esporte mais querido perdeu a espontaneidade para transformar-se em síntese da sisudez e do amargura que nos sufocam. E isso vale para todo mundo: de cartolas a jogadores, de técnicos a torcedores, de árbitros e legisladores à crônica esportiva.

Todos se levam a sério em demasia. Dirigentes vêm conspiração a cada tropeço de sua equipe, e na maior sem-cerimônia, lançam dúvidas sobre a lisura das competições. Provar falcatruas que é bom... necas.

Os jogadores tendem a ser estilosos no visual, sem sal nas declarações e se magoam por coisa à toa. Um drible um tiquinho fora do normal, aplicado por um adversário, desencadeia fúria e perseguição dentro de campo. Uma frase ligeiramente original é vista como afronta.

Onde foram parar as apostas antes de jogos decisivos? Cadê as provocações que embalavam os dias que antecediam clássicos? Agora não pode sair do roteiro insosso, porque os treinadores dão bronca, os tribunais punem, as torcidas podem entrar em guerra e os assessores temem prejuízos em publicidade e em futuros contratos.

São Marcos do Palestra foi um dos últimos sinceros e espontâneos a calçar chuteiras. Não por acaso é querido por palmeirenses e demais apreciadores do futebol.

Técnicos ficam só em generalidades. Quando aparece um Renato Gaúcho dando cutucadas em colegas, é um deus nos acuda; no mínimo, recebe a pecha de antiético. Moralistas apontaram o dedo para ele, após a surra do Flamengo na Libertadores.

Juízes são cheios de não me toques. A maioria encara reclamação de boleiros como desacato à autoridade. E lascam cartões, por qualquer esbarrão ou bate-boca, sob o risco de "perderem o controle da partida".

Sem contar que agora há tantas miudezas nas regras que falta pouco para gol ser punido com expulsão. Não pode tirar a camisa, não pode correr para o alambrado, não pode muita euforia, não pode demorar para reiniciar o jogo. Não pode, não pode, não pode.

Tribunais suspendem técnico porque soltou nome feio para o juiz, a PM obriga a jogos com torcida única porque não tem como garantir paz e integridade para o público. Torcedores invadem centros de treinamento e fazem ameaças, se considerarem que os atletas correm menos do que o desejado. "Se não é por amor, é pelo terror", o mote enviesado deles.

A crônica esportiva contribui. Olha-se menos para as pessoas como seres complexos - portanto, sujeitas a variações de humor e desempenho -, e se concentra mais em análises "científicas" e metodológicas do joguinho de bola.

Daí a inundação de números, cifras, estatísticas, esquemas, como se equipes equivalessem a máquinas, com programação impecável. Tem hora em que dá até medo de acompanhar a análise de uma partida. Você pensa que está vendo algo para se divertir e, de repente, se assusta com a complexidade da movimentação dos rapazes em campo.

Temos catedráticos de sobra, senhores absolutos da verdade e guardiães da moralidade. Tem horas em que somos chatos pra caramba! Claro que aqui generalizo; há público para todo tipo de perfil na crônica, do bem comportado ao escrachado, do coloquial ao cerimonioso, do intuitivo ao especialista. O público é quem escolhe aqueles com os quais se identifica.

Sinto falta, por exemplo, de leveza em textos. Não confundir, por favor, com ligeireza, leviandade, superficialidade. Não é isso. Há colunistas extraordinários nos jornais e nos sites; aqui no UOL, mesmo, estão reunidos muitos dos grandes nomes do jornalismo esportivo.

Porém, me pergunto com frequência por que é tão difícil encontrar lirismo, emoção, sensibilidade, boas histórias no que se escreve a respeito de futebol? Ok, devemos ser racionais, assim se espera de profissionais corretos.

Mas, puxa vida, há um vazio de crônicas que nos toquem, que humanizem o futebol. Para compensar a carência, recorro a textos clássicos de Armando Nogueira, Stanislaw Ponte Preta, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues (o maior de todos no quesito), Roberto Avallone, Alberto Helena Jr., Ruy Carlos Ostermann.

Vibro quando há alguma crônica de Veríssimo sobre esportes, porque sei que encontrarei humor, inteligência, ironia e, sim, senso crítico. Aos domingos, não perco Ugo Giorgetti, voz solitária na abordagem do futebol como vida, cultura, resistência, raiz e até como gesto político.

Nosso futebol ficou pesado - nas regras, na preparação, na execução, na abordagem, na torcida.

Quer saber? Faltou humor também neste texto! Credo!

Antero Greco