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Vinte e Dois

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que explica a série de decepções da seleção masculina de basquete

Bruno Caboclo em ação pelo Brasil contra a Alemanha no pré-olímpico masculino de basquete - Ivo Cagalj/Pixsell via Xinhua
Bruno Caboclo em ação pelo Brasil contra a Alemanha no pré-olímpico masculino de basquete Imagem: Ivo Cagalj/Pixsell via Xinhua
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Vitor Camargo

Colunista do UOL

05/07/2021 12h23

Quando o Brasil ganhou de forma contundente da Tunísia na sua estreia no Pré-Olímpico de basquete em Split, a reação dos torcedores brasileiros nas redes foi quase universal: alegria pela vitória, seguida do medo de estar novamente criando esperanças só para se decepcionar no final.

Isso segue a tendência do basquete brasileiro masculino nos últimos anos, na qual grandes performances e atuações heroicas servem para mostrar o enorme potencial da seleção brasileira e aumentar a expectativa dos torcedores, apenas para ser seguida por uma derrota decepcionante nos momentos decisivos - o que por sua vez acaba gerando rótulos como de "pipoqueira" ou "amarelona", e de time que não sabe lidar com os momentos decisivos.

E o pior é que essa narrativa de não conseguir lidar com a pressão das decisões não é nova. No último episódio do podcast Na Era do Garrafão - que eu apresento com meu parceiro, Renan - nós falamos sobre as Olimpíadas de Seul, em 1988, e como a geração liderada por Oscar e Marcel deixou escapar sua grande chance de medalha com duas derrotas decepcionantes: primeiro, na primeira fase contra a inferior Espanha, que jogou o Brasil na mesma chave de Estados Unidos e União Soviética no mata-mata; e, depois, contra os eventuais campeões soviéticos nas quartas de final, o Brasil chegou a liderar o jogo no quarto período só para entrar em colapso, tomar a virada e perder a chance de vencer o jogo com um arremesso nos segundos finais.

Em Split, pareceu por alguns dias que o roteiro seria diferente. Depois da Tunísia, o Brasil enfiou uma surra na favoritíssima Croácia, e fez o mesmo contra o perigoso México, mostrando uma força mental e resiliência que iam de encontro com a narrativa do time que quebra sob pressão. A seleção então chegou na final como franca favorita contra uma desfalcada Alemanha, precisando da vitória para garantir sua vaga em Tóquio... e foi na final que o time jogou seu pior basquete em todo o torneio, cometeu uma série de erros, abandonou tudo que tinha dado tão certo nos primeiros três jogos e viu Mo Wagner anotar 28 pontos para tirar o Brasil dos Jogos Olímpicos. Quando parecia que a história seria diferente, descobrimos que os roteiristas tinham apenas acrescentados mais twists... mas o final foi o mesmo de sempre.

E, com mais uma decepção na bagagem e novamente resgatados os fantasmas de derrotas passadas, acaba ficando a inevitável pergunta: existe algo de real que explique essa tendência?

Um bom ponto para começar quando falamos do assunto é a raiz de toda decepção: expectativas. Não existe decepção sem expectativas, e talvez esse seja parte do problema - esperar demais. Embora o basquete masculino brasileiro tenha uma história cheia de conquistas - dois títulos mundiais, algumas medalhas olímpicas, a famosa vitória sobre os EUA no Pan de 1987 - já faz umas boas décadas que o Brasil não é mais um integrante da elite do esporte mundial, devido a diversos problemas financeiros e de organização com o esporte interno e principalmente as categorias de base. Uma espetacular geração nos anos 2000 - a geração de Huertas, Nene, Leandrinho, Varejão, Splitter - ajudou a mascarar esses problemas estruturais com puro talento, mas no fundo isso só tenha servido para inflar ainda mais as expectativas irrealistas de um país que, em termos de projeto de basquete, já faz tempo que ficou para trás. De fato, considerando os gigantescos problemas internos do esporte no nosso país, você pode fazer um sólido argumento de que a seleção já vai mais longe do que deveria. Mesmo em Split, a vaga olímpica não era obrigação; muito pelo contrário, quando sorteados os grupos o Brasil era considerado grande azarão, e uma vaga parecia extremamente improvável. A sensação de decepção foi consequência do ótimo basquete jogado no resto do torneio que elevou as expectativas, não porque a eliminação em si fosse trágica a princípio.

Essa geração dos anos 2000 é, inclusive, onde essa imagem recente tomou forma - a de time muito talentoso, mas que sempre decepciona nos momentos decisivos. Alguns resultados ajudam a explicar: o Pré-Olímpico de Pequim 2008, quando o Brasil entregou um jogo no quarto período para a Argentina que jogou a seleção no caminho dos Estados Unidos (e a subsequente eliminação diante da Alemanha na repescagem); Londres 2012, quando o Brasil se complicou no fim do jogo contra a Russia para ficar de costas contra a parede, venceu heroicamente a Espanha para avançar de fase, e perdeu da Argentina no roteiro já conhecido; e, talvez mais emblemático, o Mundial de 2010, quando o Brasil fez um jogo brilhante e quase venceu os Estados Unidos na primeira fase, chegou como favorito para enfrentar a Argentina, e perdeu novamente pela sua incapacidade de decidir um jogo apertado.

Mas essas "decepções" tem menos a ver com os resultados em si, e mais com a forma como se deram: perdendo jogos apertados no final, incapaz de decidir partidas chave. E isso, por sua vez, tem mais a ver com uma questão estrutural: embora essa seleção fosse ótima coletivamente, ela sentia falta de uma grande estrela que fosse capaz de botar a bola embaixo do braço e decidir os jogos por conta própria, como fizeram Alexey Shved (para a Rússia), Dirk Nowitzki (Alemanha) ou Luis Scola (Argentina) nas derrotas citadas. Em geral, o Brasil forçou esse papel para cima de Leandrinho, seu jogador mais talentoso, mas alguém cujo brilhantismo vem mais do jogo coletivo e de causar estragos dentro do ritmo do jogo ao invés de dominar a bola e jogar sozinho - o que acabou colocando Leandrinho em uma situação desconfortável e frequentemente estagnou todo o jogo ofensivo do time. Mais do que problemas psicológicos ou "pipocar", era uma questão estrutural que simplesmente faltou ao Brasil quando enfrentou algumas das melhores seleções do mundo.

Mas, mesmo depois de 2012, as decepções continuaram vindo, só que agora em formatos muito mais variados. Algumas, como a Copa América de 2017 ou a de 2013, foram simplesmente grandes fiascos contra seleções inferiores; outras, como o Mundial de 2019 ou em Split (e, em menor grau, o Mundial de 2010 já citado), seguiram o padrão de ter um jogo espetacular mostrando seu potencial contra um adversário fortíssimo, só para cair perder logo depois para um time pior. E, talvez a mais sofrida delas, a derrota para a Argentina no Rio 2016, quando o Brasil derreteu nos minutos finais e, em uma série de erros mentais, deixou a Argentina empatar o jogo com uma bola de três pontos do Nocioni nos segundos finais antes de perder na prorrogação.

E ao contrário das primeira derrotas que lançaram essa narrativa - onde havia um claro padrão e era possível traçar a origem do problema - essa maior variação de situações tornam a tarefa muito mais difícil, pois agora estamos falando de diferentes contextos, causas e até times. E embora seja fácil dizer que é tudo questão de "amarelar", essa é uma explicação simplista demais para satisfazer... embora a essa altura seja impossível negar que parece existir, sim, um componente psicológico, uma versão basquetebolística do famoso "complexo de vira-latas". Mas o mais provável é que esse fator não seja único, mas sim se combine com uma série de outros, incluindo expectativas por vezes desmedidas, irregularidade natural de um time onde os talentos estão à frente da continuidade necessárias no sentido macro, e sim, um time que provavelmente não é bom o suficiente em termos de projeto - em um país que da pouquíssimo apoio ao esporte e seus atletas - para competir com seleções da elite mundial.

E também vale lembrar o seguinte: o Brasil, hoje, vive um processo de renovação, passando o bastão da geração de Leandrinho e Varejão para uma nova geração liderada por nomes como Yago e Caboclo - o que ficou evidente em Split, com um time bastante heterogêneo - mas o Brasil ainda está em uma fase inicial desse processo de transição, e é a nossa chance para recomeçar quase do zero. Ao invés de criar um cenário de terra arrasada depois da eliminação, aproveitar a oportunidade e os bons momentos - e tivemos vários - para construir algo mais concreto e duradouro, contando não apenas com o inegável talento dos nossos atletas mas aprendendo com os erros para cercar esses jogadores do planejamento, continuidade e estrutura que fazem de tantos dos nossos adversários times da elite internacional.

Eu acredito que isso é possível. Mas também entendo quem está um pouco cansado de acreditar e prefere esperar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL