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Jovem astro do Denver ajuda a entender como NBA melhorou pontaria na bolha

Jamal Murray sobe para o arremesso em vitória do Denver Nuggets sobre o Los Angeles Clippers: série vai ao 7º jogo - Jesse D. Garrabrant/NBAE via Getty Images
Jamal Murray sobe para o arremesso em vitória do Denver Nuggets sobre o Los Angeles Clippers: série vai ao 7º jogo Imagem: Jesse D. Garrabrant/NBAE via Getty Images

Giancarlo Giampietro

Colunista do UOL

15/09/2020 00h01

Semanas antes de desafiar os temíveis marcadores do Los Angeles Clippers, Jamal Murray estrelou um dos duelos mais absurdos da história dos playoffs da NBA. Era como se o jovem armador do Denver Nuggets e seu rival de longa data, Donovan Mitchell, astro do Utah Jazz, não soubessem como errar um arremesso.

Entre os Jogos 4 e 6 da série, pela primeira rodada, o canadense acertou 65% de suas tentativas de quadra. E não é que fossem chutes livres. O grau de dificuldade tornava algumas de suas cestas incríveis, ainda mais considerando que 35 desses disparos foram de longa distância. Nessa sequência, foram 47,3 pontos em média. (Do outro lado, Mitchell teve média de 41,6 pontos.)

O "tiroteio" promovido por duas estrelas emergentes da liga foi o ápice de um fenômeno originado dentro da —e, supomos, causado pela— bolha que a NBA criou na Flórida. Ainda em meio à pandemia nos Estados Unidos, os jogadores da NBA passaram a acertar cada vez mais a cesta, quando o esperado era que os meses de inatividade, sem treino adequado, afetassem a produção de maneira negativa.

Todos os cinco times ainda vivos na disputa pelo título da liga elevaram seu percentual de acerto nos arremessos, se formos comparar os números dos mata-matas com os da temporada regular. Alguns deles tiveram saltos expressivos. O Denver de Murray, por exemplo, subiu de 43,6% para 51,8% no quesito chamado de "effective field goal%", que tira uma média dos arremessos dando um peso um pouco maior às bolas de longa distância, uma vez que elas valem 50% mais que os chutes de dois pontos. E nunca, proporcionalmente, a NBA matou tantas bolas de três pontos assim, em seus playoffs.

Os Clippers, agora pressionados para o sétimo jogo da série contra os Nuggets, correndo o risco de levar uma virada histórica depois de estarem à frente por 3 a 1, elevaram sua pontaria de 45,9% para 47,9%. Os Lakers, no aguardo para a final do Oeste, melhoraram um pouco menos, de 53,8% para 54,4%. Na Conferência Leste, o Boston Celtics cresceu de 46,3% para 48,9%, enquanto o Miami Heat foi catapultado de 48,3% para 58,8%. Algo ainda mais intrigante se pensarmos que, nos playoffs, estão também aqueles times que mais defendem —14 das 16 defesas mais eficientes da temporada jogaram nos mata-matas, oras.

Se coletivamente esses times estão atacando com mais eficiência, é porque seus atletas também estão rendendo mais, obviamente.

E aí voltamos a Jamal Murray. Em quatro anos de liga, ele mostrou o bastante para convencer o Denver Nuggets a lhe oferecer um novo contrato valendo astronômicos US$ 170 milhões (R$ 900 milhões, aproximadamente, hoje) por cinco anos. Mas não é que, nos bastidores, scouts e dirigentes da liga não questionassem se o jogador realmente valia essa fortuna, dada sua inconsistência com a bola em mãos.

Jamal Murray na bolha da NBA - Andrew D. Bernstein/NBAE via Getty Images - Andrew D. Bernstein/NBAE via Getty Images
Quadras usadas dentro da "bolha" da NBA têm dimensões mais modestas e familiares aos atletas
Imagem: Andrew D. Bernstein/NBAE via Getty Images

Pois bem. Se formos levar em conta apenas seus números nestes playoffs, com média de 26,1 pontos, 6,5 assistências e acerto de 49,5% nos arremessos de três, além de 49,4% nos chutes no total, o investimento parece mais do que justificado, após 13 jogos. Agora: essas estatísticas mostram quem realmente é o canadense na liga?

Na temporada regular, ele somou 18,5 pontos, 4,8 assistências, com 45,6 % de acerto no geral e 34,6% de longa distância. Números mais modestos, convenhamos, em 59 jogos —uma amostra bem maior para se examinar. Que tem mais a ver com o que ele produziu nos playoffs do ano passado: 21,3 pontos, 4,7 assistências e 42,5% e 33,7%, respectivamente, em 14 jogos.

Contra os Clippers, em seis partidas, ele vem com 19,7 pontos, 6,7 assistências e "apenas" 42,6% nos arremessos. "Apenas", com aspas, pois ele vem jogando contra alguns dos marcadores mais intimidadores da liga (os alas Kawhi Leonard e Paul George, além do pitbull chamado Patrick Beverley). Não é possível comparar número por número, sem entender o contexto. Além do mais, Murray também converteu 46,5% dos arremessos de fora, um fator de desafogo para o ataque do Denver.

Pode muito bem ser que Murray tenha dado um passo adiante em sua carreira. Ou... pode ser que a peculiar combinação de fatores destes playoffs tenham permitido ao canadense um maior grau de conforto para buscar a cesta. Independentemente de estar rodeado, ou não, pela assustadora envergadura de Kawhi.

A quadrinha do bairro

Semanas antes de ver seu time desmoronar contra o Los Angeles Lakers, o técnico Mike D'Antoni, agora ex-Houston Rockets, procurou, como sempre, simplificar as coisas ao comentar sobre o desempenho ofensivo acima da média visto dentro da bolha. Uma das mentes mais criativas da liga, especialmente na hora de construir sistemas ofensivos, ele atentou a um detalhe: a repetição do cenário a cada partida. "É a mesma quadra para todo jogo. Você se acostuma com uma percepção de profundidade para o arremesso", disse. (PS: a NBA montou três quatras oficiais no complexo que reservou, mas elas têm a mesma identidade visual.)

Na bolha, saíram de cena os ginásios preparados para receber 20 mil pessoas, com música alta, cheerleaders e mascotes saltitando de um lado para o outro. Eles deram um lugar a um ambiente bem mais acanhado, fechado, que remete às quadras que a grande maioria dos atletas usaram quando mais jovens, em sua trajetória rumo ao estrelato.

A coluna, então, compartilhou essa tese com um dos maiores arremessadores da história do basquete brasileiro, Marcelinho Machado, hoje comentarista da NBA para o SporTV. O ex-jogador do Flamengo e da seleção disse que a observação de D'Antoni "faz muito sentido". E foi além.

"Quando você joga em ginásios menores, sem ter de fazer a adaptação sobre as diferentes profundidades, algo muito importante para o chutador, e aí você vai se aclimatando. Dá um pouco mais de confiança. Por mais que se tenha um padrão da NBA, há uma mudança de arena para arena", afirmou à Vinte e Dois.

Além disso, é preciso se levar em conta a comodidade de ficar num só lugar. Há relatos de atletas estressados com o longo confinamento em resorts da Disney, é verdade, mas, pensando no jogo, você remove da equação os constantes deslocamentos de uma cidade para a outra, o fuso horário, a ida para a cama no meio da madrugada etc. Por mais luxo que exista no mundo da NBA, a vida na estrada desgasta. Agora, os astros estão bem dormidos —com uma ou outra exceção, como o próprio D'Antoni pode lamentar, descansados.

Além do mais, temos a ausência de público. O irmão de Rajon Rondo até pode tirar Russell Westbrook do sério —mas quem não tira, afinal?—, os bebês dos astros trazem muito mais fofura para o espetáculo, mas nada ali se compara à balbúrdia que um jogo, hã, normal da liga proporciona.

"E, com o público, você traz uma questão de pressão, tanto jogando dentro como fora de casa, pois você está sempre jogando para alguém. Existe sempre a interação com o público de certa forma", diz Marcelinho, antes de ponderar: "Claro que não quer dizer que, sem torcida nunca vá ter pressão. A própria série do Jamal Murray com o Donovan Mitchell, no Jogo 7, naturalmente um jogo tenso, os dois tiveram um aproveitamento pior do que antes. Aí a pressão vem."

Para constar: Murray terminou a partida derradeira contra o Utah Jazz com 17 pontos, errando 14 de seus 21 arremessos. Para Mitchell, os números foram 22 pontos e 13 arremessos perdidos em 22 tentados. Isso num contexto em que, ambos, estabeleceram o recorde de bolas de três pontos convertidas numa série de playoff, com 33 para Mitchell e 32 para Murray, que empatou com um certo Stephen Curry.

Pois os Nuggets caminham para mais um Jogo 7 pelos playoffs da NBA. Parece que o time realmente gosta disso, aliás: é a quarta série consecutiva em que eles vão ao limite. Agora, se for para falar de pressão, é de se esperar que os Clippers entrem em quadra mais afetados.

(Até mesmo um Kawhi Leonard? Bom, talvez ele não conte, já que estamos falando de algo próximo a um robô assassino. Para o ala campeão por Spurs e Raptors, fatores como torcedores, barulho, profundidade, aviões, resorts não fazem a menor diferença.)

A ver só se, para Jamal Murray, dessa vez o conforto e os costumes cultivados dentro da bolha da liga vão se sobrepor à adrenalina e à tensão que um jogo desses evoca.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.