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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sobre Kasatkina, coragem e cultura

Getty Images
Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

19/07/2022 19h52

Um vídeo no canal do russo Victor Kravchenko circulou bastante no mundo do tênis. Publicado nesta segunda-feira, trata-se de um programa com mais de uma hora de duração, gravado na Espanha, com Andrey Rublev e Daria Kasatkina - os dois moram e treinam no país, e ambos estavam lá durante a realização do Torneio de Wimbledon. Há trechos que valem destaque em especial.

O que mais chamou atenção, de cara, foi a declaração de Kasatkina, cidadã russa, revelando que tem uma namorada. Um depoimento que tem importância especial em seu país e que veio com opiniões interessantes sobre a homossexualidade não ser uma escolha e como Dasha não acredita que a Rússia olhará de maneira diferente para seu gênero nos próximos anos.

"Tantos assuntos são tabu na Rússia, e alguns deles são mais importantes que o nosso. Não é surpresa."

"A julgar por como as coisas estão indo no momento, nunca será ok andar de mãos dadas [com sua namorada] na Rússia. Tivemos algumas indicações positivas na época da Copa do Mundo. Estivemos mais perto do Ocidente. Havia uma chance, mas agora a estrada está bloqueada. Trabalhos de manutenção à frente."

"Viver em paz consigo mesmo é a única coisa que importa. Foda-se o resto."

É possível ver a conversa sobre esse tema a partir da marca de 29' no vídeo acima. Mas não é só a coragem de Kasatkina que vale a pena ver no programa. O trecho sobre Rublev e a proibição de Wimbledon também tem seu valor. O atual número 8 do mundo fala que houve tentativas, mas que sempre ouvia a mesma resposta dos cartolas.

"Sugerimos algumas soluções que poderiam ajudar diplomaticamente. Jogar duplas mistas com uma tenista ucraniana. Queríamos usar a plataforma de um torneio para mostrar que que não há guerra no tênis. É o mais importante agora. Como tenista, eu poderia passar essa mensagem dentro da quadra."

"Mas continuei recebendo a mesma resposta: 'o governo russo vai usar nossos resultados para fazer propaganda'. O que quer que eu dissesse, a resposta era a mesma" (assistam a partir de 13' de programa).

Temas quentes à parte, o programa também vale ser visto por outros motivos, especialmente o contraste cultural. Em certos momentos, o que se vê são três russos de passagem por Barcelona e comparando estilos de vida. O alto custo de se jogar tênis na Rússia, por exemplo, vem à tona em mais de uma oportunidade (o que explica a opção de gente como Rybakina Bublik, que receberam ajuda financeira da federação cazaque e adotaram o Cazaquistão no circuito). Também é mencionado o alto poder aquisitivo de um casal espanhol.

A política, porém, é tema recorrente. Em certo momento, Rublev destaca como vencer a ATP Cup e a BJK Cup em 2021 ajudou a federação russa, mas significou pouco na relação entre os cartolas russos e os tenistas. Em outro, mais forte, uma família ucraniana se aproxima e pede autógrafos enquanto o trio de russos fazia compras na loja do Barcelona (veja a partir de 40'). Dá para sentir a força daquele momento muito além das declarações.

Coisas que eu acho que acho:

- Escrevi na época e vale repetir agora: a proibição a russos e bielorrussos nos torneios ingleses foi uma daquelas situações em que ninguém ganha e, ao mesmo tempo, todas ações são justificáveis - concordemos ou não. A LTA (federação britânica) e Wimbledon queriam encontrar uma forma de punir a Rússia pela invasão à Ucrânia; ATP e WTA, por sua vez, tiraram os pontos dos torneios porque era sua única maneira de proteger seus atletas.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: Carry On (Angra) porque a vida tem um significado e algum dia, quem sabe, vamos encontrá-lo.

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