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Game, set, vax: reputação antivacina carimbou deportação de Djokovic

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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

16/01/2022 09h51

Novak Djokovic não vai disputar o Australian Open. Não poderá buscar seu décimo título em Melbourne nem tentar o 21º slam, conquista que lhe colocaria acima de Rafael Nadal e Roger Federer, que também triunfaram em 20 slams cada. Neste domingo, o número 1 do mundo perdeu seu último recurso na Justiça australiana e teve sua deportação decretada. Deixou o país alguns momentos antes da publicação deste texto.

O imbróglio durou mais de dez dias e começou porque a Imigração australiana não aceitou o documento de isenção que Djokovic recebeu de autoridades do próprio país. Para a Tennis Australia e um painel de especialistas médicos, o fato de o sérvio ter contraído covid nos últimos seis meses era suficiente para lhe dar uma isenção médica, o que lhe permitia entrar no país sem estar vacinado. No entanto, para a polícia alfandegária e o governo federal, contrair covid não bastava para isentar alguém de estar vacinado.

No fim das contas, porém, a isenção médica teve pouco peso na decisão sobre a entrada de Djokovic em solo australiano, e isso tem a ver com o sistema jurídico australiano, motivações políticas e, sobretudo, a reputação do número 1 do mundo como antivaxer. Repassemos os passos para entender como tudo isso aconteceu e os porquês da deportação de Djokovic.

1. Depois de ser barrado no aeroporto, o tenista recorreu e ganhou. O juiz Federal Anthony Kelly determinou que Djokovic tivesse seu passaporte devolvido simplesmente porque a polícia alfandegária, que deteve o tenista de madrugada, não deu tempo suficiente para que ele entrasse em contato com sua equipe ou a organização do Australian Open e desse mais explicações sobre a isenção médica que portava. Trocando em miúdos, uma questão de procedimento - uma tecnicalidade - permitiu que Djokovic ganhasse a causa ali e entrasse na Austrália. A isenção e seu mérito não foram julgados.

2. Depois disso, ainda havia a possibilidade de o ministro australiano da Imigração, Alex Hawke, usar seu poder discricionário para deportar Djokovic. E foi exatamente isso que ele fez na última sexta-feira. E, mais uma vez, a isenção - que marcou o início de toda a confusão - ficou fora da pauta. Ao decidir remover o tenista do país, Hawke alegou, essencialmente, que: cancelar o visto de Novak Djokovic era de interesse público; que Djokovic significava um risco à saúde da comunidade; e que Djokovic significava um risco à ordem da comunidade.

A decisão de Hawke foi apoiada pelo primeiro-ministro do país, Scott Morrison. O governante distribuiu um comunicado em que disse assim: "Australianos fizeram muitos sacrifícios durante esta pandemia e eles, justamente, esperam que o resultado desses sacrifícios seja protegido." Também colocou Djokovic na posição de ameaça à saúde nacional.

E foi aí que pesou a reputação do sérvio como antivaxer. Em sua argumentação, a defesa do ministro citou, entre outras coisas, declarações de Djokovic sobre não estar vacinado e reportagens que ilustravam o sérvio não só como antivaxer, mas como ícone antivaxer. E que isso tudo foi levado em consideração para rotular o tenista como risco à saúde e à ordem da comunidade australiana. Ter Djokovic no país estimularia o sentimento antivacina e poderia provocar protestos. Os advogados do ministro citaram até a grande influência de Djokovic sobre o povo sérvio como motivo - ainda que parcial - para as baixas taxas de vacinação no país balcânico.

Quando o time legal de Djokovic alegou que o ministro Hawke não procurou o tenista pessoalmente para saber sobre sua posição (talvez atualizada?) sobre vacinas e se ela havia mudado, os advogados do ministro rebateram que quando Novak é visto como ameaça à saúde e à ordem da comunidade, o que importava era o que o atleta havia falado e feito publicamente. Ou seja, a influência sobre a população e o potencial aumento do sentimento antivacina viria justamente da reputação de antivaxer.

3. Aqui também é preciso entender outra peculiaridade australiana: é quase impossível derrubar uma decisão ministerial assim. Djokovic, entretanto, recorreu e levou o caso a uma Corte Federal formada por três juízes. Não adiantava mais citar a isenção nem provar que viajou bem intencionado. O ministro Hawke, aliás, concedeu que a isenção havia sido emitida legalmente, tirando essa questão do debate. A única opção para os advogados de Djokovic era provar que o ministro tomou uma decisão ilegal. E isso, de fato, não dava para fazer.

A decisão da Corte deixa isso claro. Ao fazer seu anúncio, o juiz James Allsop ressaltou que "não é parte da função da corte decidir sobre os méritos ou a sabedoria da decisão [do ministro Hawke]." Os juízes determinaram que a decisão foi tomada com legalidade, e isso bastava para que a deportação fosse carimbada. Djokovic ainda podia levar a questão à High Court (equivalente australiana do STF), mas com o Australian Open começando nesta segunda-feira (noite de domingo no Brasil), optou por não fazê-lo.

Game, set, vax.

Coisas que eu acho que acho:

- Nos últimos dois anos, o negacionismo mutou mais do que o coronavírus. Primeiro, o discurso era "não confio em algo feito tão rápido". Quando saíram os primeiros resultados das pesquisas de eficiência das vacinas, o papo mudou para "não é 100%". Agora, mesmo com o número de mortes absurdamente reduzido, a desculpa é "mas contagia igual".

- Ignorar a diminuição no número de mortes e casos graves de covid, reduzindo a conversa a "não impede contágios", é navegar o oceano da canalhice numa onda de ignorância. Não façam. Não sejam.

- Repito o que escrevi na semana passada: o episódio foi ruim para todos. Ao arrastar a questão, Djokovic mostrou-se mesquinho e viu vir à tona a história da entrevista ao L'Équipe, que foi péssima para sua imagem; órgãos e entidades australianos mostraram-se confusos; Morrison e Hawke não mostraram o pulso firme com o qual acreditam ter agido; e Craig Tiley, diretor do Australian Open e presidente da federação australiana, sai com a imagem de um personagem patético, que se desdobrou para colocar Djokovic em um país que não lhe queria.

- Entre as teorias de conspiração que surgiram nas redes sociais, duas me chamaram atenção: a primeira sugere que Djokovic nunca pegou covid e inventou o caso positivo para ter direito à isenção e viajar para a Austrália. Se isso aconteceu, quem inventou a data do teste positivo falhou miseravelmente. Foi por causa dessa data (16 de dezembro) que foi possível descobrir que Djokovic tomou a lamentável decisão de participar de uma entrevista/sessão de fotos do L'Équipe após saber que estava contagiado e sem avisar a outra parte.

- A outra teoria diz que o governo australiano tinha uma plano maligno e concedeu a isenção só para humilhar Djokovic em seu desembarque em Melbourne. Dessa, eu apenas ri.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: True (Spandau Ballet) porque Edward Norton estava brilhante no episódio de Modern Family que vi acidentalmente ontem.