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OPINIÃO

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O mais digno para Djokovic seria recolher as raquetes e voltar para casa

Reuters
Imagem: Reuters
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

14/01/2022 10h15

O ministro da Imigração da Austrália, Alex Hawke, demorou quatro dias, mas finalmente decidiu fazer uso de seu poder discricionário e ordenou o cancelamento do visto de Novak Djokovic. Os advogados do número 1 já apelaram da decisão, e o tenista voltará a ficar detido até o julgamento desse recurso. Caso sofra nova derrota, o sérvio será deportado e ficará fora do Australian Open.

É compreensível que, sendo quem é, Djokovic tente todos meios legais para participar do torneio. Depois de tudo que aconteceu, ficou claro que o sérvio, apesar de fenomenal como atleta, é uma pessoa mesquinha e egocêntrica. Alguém que prioriza o individual sobre o coletivo. Um homem que opta por não se vacinar durante uma pandemia e busca uma exceção - à qual ele agora sabe que não tem direito - porque quer mais um recorde em sua impressionante coleção. Um cidadão que vai a um compromisso sabendo estar positivo para covid (e não avisa a outra parte!) porque, entre outros motivos, a entrevista/sessão de fotos era para um especial em que o L'Équipe colocava Djokovic como "campeão dos campeões de 2021". Não, não seria justo esperar algo diferente a essa altura dos acontecimentos na Austrália.

O que Djokovic não precisa, agora, é também ser teimoso quando está mais do que óbvio que sua presença no país não é bem-vinda. O mais digno seria aceitar a decisão de Hawke, que, ressalte-se, foi endossada pelo primeiro-ministro australiano, Scott Morrison. A conduta menos danosa a Djokovic no momento seria aceitar a derrota e embarcar no primeiro avião para Belgrado - ou Monte Carlo, onde ele declara residência por motivos fiscais.

São muitos os motivos pelos quais o número 1 do mundo nem deveria tentar esse novo recurso na Justiça australiana. Vejamos alguns deles.

1) Djokovic sabe que não tem direito à isenção para entrar na Austrália sem estar vacinado. Ele podia não saber quando embarcou por causa de um erro (imperdoável) de autoridades australianas. No entanto, mais de uma semana depois de sua chegada, o sérvio agora tem completa ciência de que o governo federal não considera contrair covid como elemento para isentar alguém de vacinação. Logo, Djokovic está lutando na Justiça por algo que não merece. E, repito, ele sabe disso.

2) Djokovic nunca mereceu, de fato, entrar na Austrália. Quando ganhou na Justiça e recuperou seu visto, a decisão foi assim por causa de uma tecnicalidade. Um erro de procedimento da polícia alfandegária australiana. Em nenhum momento, foi julgado o mérito sobre a questão da isenção da vacina. Ou seja, o número 1 ganhou a possibilidade de entrar no país por uma pitada de sorte. Ele continuou sem se vacinar, e o país segue exigindo vacinação de todos que entram lá. Enquanto isso, a tcheca Renata Voracova foi deportada porque entrou na Austrália com a mesma isenção de Djokovic. E o sérvio sabe disso.

3) Desde que chegou à Austrália, Djokovic viu muita coisa ruim para sua imagem vir à tona - além da evidente tentativa de beneficiar-se de um ambiente para vacinados sem se sujeitar à seringa. Primeiro, a questão sobre participar de eventos após testar positivo para covid (que Djokovic só explicou quando soube que o governo estava considerando mais uma vez deportá-lo). Depois, as inconsistências no QR code de seu teste de covid (vide mesmo link acima). Também foi constatado que seu formulário de entrada na Austrália foi preenchido de forma equivocada, deixando de citar viagens recentes. Enquanto estiver lá, Djokovic, um cidadão que ama ser amado, seguirá sob o pente fino da opinião pública. E nada vem fazendo bem à sua imagem.

4) O que será que Djokovic espera se conseguir ficar no país e disputar o Australian Open? Carinho do público? Torcida a favor? Prêmios de esportividade no fim da temporada? Ou apenas o título importa? Será que seu ego é tão grande mesmo a ponto de conseguir ignorar tudo à sua volta e pensar apenas no 21º slam? Ficar à frente de Rafael Nadal e Roger Federer também nesse quesito é tão importante assim? Difícil imaginar o que Djokovic tem a ganhar depois de tudo que foi falado e revelado sobre ele em Melbourne.

5) Tanto Hawke quanto Morrison afirmam, em seus comunicados, que a decisão de cancelar novamente o visto de Djokovic foi baseada em "interesse público". Ainda que consideremos um interesse político na questão (ambos estão junto com a opinião pública sobre o tema), é preciso notar sobretudo que a declaração de Morrison é também uma compilação de tudo que a Austrália fez de correto no combate à pandemia - e Djokovic simboliza precisamente o contrário. Logo, abrir uma exceção, mesmo que Novak tivesse direito a ela por lei, para recebê-lo no país seria dar alguns passos atrás tanto nas questões sanitárias quanto no trabalho de seguir convencendo a população sobre as rigorosas medidas que ainda são necessárias.

"Australianos fizeram muitos sacrifícios durante esta pandemia e eles, justamente, esperam que o resultado desses sacrifícios seja protegido", escreveu Morrison. É quase como dizer que Djokovic é uma ameaça à saúde nacional. E se um primeiro-ministro trata você assim, o melhor a fazer é botar a raqueteira nas costas e dizer até breve.

Coisas que eu acho que acho:

- Não, não consigo ver Djokovic desistindo da causa até o último pingo de esperança. É assim que ele se comporta dentro de quadra. Aqui, porém, a lógica é outra. O que faz do sérvio um fora de série dentro das quadras também faz dele um cidadão de segunda classe no mundo de verdade.

- Som de hoje no meu Kuba Disco: "Shut Off The Lights", faixa nova do Bastille.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL