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OPINIÃO

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Os muitos méritos de Medvedev

EFE
Imagem: EFE
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

14/09/2021 04h00

Foi um dia difícil para Novak Djokovic. O feito era grande demais, e o sérvio acusou o golpe na hora mais importante. A uma vitória do Grand Slam, Nole fez sua pior atuação no US Open. Mostrou-se ansioso, errático e impaciente. Sobraram nervos, faltou técnica. Até fisicamente o número 1 do mundo estava aquém do seu melhor - o que, a julgar por seu histórico, teve mais a ver com o peso do feito do que com as 3h34min da semifinal.

Tudo isso, no entanto, foi abordado no texto de ontem. É hora de comentar os méritos de Daniil Medvedev na final do US Open, e eles não foram poucos. Tanto no plano de jogo quanto na execução.

1. 'Ataque' centralizado

Taticamente, Medvedev entrou em quadra com um plano bem definido: não dar ângulos para Djokovic atacar. Foi algo que seu técnico, Gilles Cervara, falou na coletiva após a final. Isso significava mandar mais bolas no meio da quadra, o que força Djokovic a adotar uma de duas posturas: alongar os ralis, usando mais paciência e esperando bolas mais curtas (que não foram frequentes); ou tomar a iniciativa de atacar os cantos da quadra, correndo mais riscos - algo que o número 1 do mundo assumidamente não gosta de fazer.

"Atacar" Djokovic no meio não é exatamente um plano mágico nem revolucionário. Rafael Nadal joga assim contra o sérvio desde pelo menos 2012. Se teve algo que o espanhol aprendeu na série de derrotas de 2011 é que dar ângulos para Nole é correr um risco enorme. Djokovic defende-se melhor - especialmente em quadras duras - e tem bolas mais retas e agressivas do que Rafa para buscar as paralelas. Logo, dar ao sérvio a opção de escolher entre uma cruzada profunda e uma paralela é brincar com fogo.

Medvedev deixou Djokovic agredir primeiro na maioria dos pontos e se deu bem, tanto porque se defendeu bem dos dois lados - sobretudo no forehand, quase sempre contra-atacando na cruzada - quanto porque o adversário estava em um dia ruim, errando mais do que o normal.

2. Variação de peso

Outro elemento tático executado brilhantemente pelo número 2 do mundo foi a variação de bolas que forçou Djokovic a devolver. Em vários momentos, Medvedev optou por ralis usando bolas profundas, mas sem tanto peso, exigindo que a iniciativa viesse do oponente. E como o russo variava entre bolas chapadas e com spin e, de vez em quando, soltava uma bola mais agressiva, Nole teve dificuldades para adquirir ritmo do fundo de quadra.

É uma coisa começar "frio" um duelo com Alexander Zverev, como aconteceu na semifinal. O alemão vai usar praticamente o mesmo tipo de bola a partida inteira, e por isso os dois tiveram ralis tão longos. Em um encontro assim, em melhor de cinco sets, Djokovic tem tempo para encontrar o tempo de bola do adversário e entrar no jogo aos poucos. Contra Medvedev e suas variações, não é tão simples. O russo, além de variar, mostrou enorme regularidade ao longo dos três sets, o que dificultou ainda mais a tarefa do número 1.

Outra consequência interessante e curiosa de bolas sem peso é que, cedo ou tarde, o adversário decide fazer o mesmo. É quando o tenista pensa "Você vai jogar lixo, então vou jogar lixo de volta." Nas vezes em que Djokovic também tirou o peso, Medvedev foi agressivo e preciso. E isso bagunça a cabeça de qualquer oponente - até os gigantes.

3. Bombas no segundo saque

Quando Medvedev derrotou Djokovic nas semifinais do Masters 1000 de Cincinnati em 2019, as análises sobre aquele jogo tiveram um tema central: como o russo tentou bombas de segundo saque e conseguiu virar a partida baseado nisso. A primeira linha do texto da ATP sobre aquele duelo ressalta justamente como Daniil fez uma aposta de risos e se deu bem: "Jogando os dados com um monte de grandes segundos serviços..." (leia aqui).

Não foi muito diferente nesta final de US Open. Em várias ocasiões, o número 2 do mundo arriscou e se deu bem. Um plano ousado, mas talvez necessário para lidar com o melhor devolvedor do planeta. Tentar dois primeiros saques em cada ponto deixa Djokovic sempre na dúvida. É mais difícil planejar o ponto quando não se tem certeza do que vem no segundo serviço.

Sim, é bem verdade que Medvedev fez três duplas faltas e perdeu o primeiro game em que sacou para o jogo, mas será que ele teria chegado lá de outra maneira? De qualquer modo, o resultado ficou claro nas estatísticas: Djokovic venceu apenas 29% dos pontos no saque do rival. Em suas outras partidas neste US Open, o sérvio teve 44% (contra Rune), 51% (Griekspoor), 43% (Nishikori), 44% (Brooksby), 44% (Berrettini) e 35% (Zverev) de aproveitamento no mesmo quesito.

Juntando tudo, Medvedev fez muitas coisas muito bem. Somando com o momento e o estado de nervos de Djokovic, a vitória em "apenas" três sets é bem simples de entender. Se é fato que Nole não esteve nem perto do seu melhor, também é inegável que Medvedev teve muito a ver com isso.

Coisas que eu acho que acho:

- L2 + esquerda. FIFA. Perfeito.

- Sobre Djokovic, se você ainda não leu, o texto de ontem está aqui. Meu relato da final está aqui.

- A diferença entre Djokovic e Medvedev no ranking agora é de 1.353 pontos. Embora tenha 1.500 pontos a defender pelo título do ATP Finals, o russo ainda tem chances matemáticas de terminar o ano como número 1. Será?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL