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Saque e Voleio

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Djokovic não precisa do Grand Slam para ser visto acima de Federer e Nadal

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Imagem: Getty Images
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Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

13/09/2021 04h00

Novak Djokovic lidou bem com as expectativas por seis partidas. Da estreia contra o promissor Holger Rune até a excelente semifinal diante de Alexander Zverev, o número 1 do mundo jogou como número 1 do mundo. Saiu de situações complicadas, jogou um tênis de alto nível e jamais esteve perto de ser eliminado. Faltava uma vitória para o Grand Slam - o Grand Slam de fato, em que alguém vence os quatro maiores torneios torneios do circuito - e foi aí que o peso do mundo tornou-se grande demais até para o grande Djokovic.

Não foi uma bigorna que caiu de repente sobre o sérvio. Essa massa estava lá desde o fim de Wimbledon. Pela primeira vez desde 1969, um homem ganhou os três primeiros slams no mesmo ano. Pela primeira vez na história, um homem podia conquistar o Golden Slam. Nem Borg nem McEnroe nem Agassi nem Sampras nem Federer nem Nadal. Em 52 anos, apenas Novak Djokovic teve papel e caneta nas mãos para escrever o último capítulo dessa história.

Na hora de fazê-lo, porém, a caneta falhou. A mão tremeu. Djokovic teve um caso tenístico de bloqueio de escritor. A melhor devolução do mundo foi inútil contra os saques de Daniil Medvedev. Do fundo de quadra, mais erros do que acertos. Voleios ruins. Break points desperdiçados. Falhas em momentos cruciais. Nervos à flor da pele. Raquetadas na perna. Lágrimas antes do fim da partida. A ocasião, parecida com a que fez Serena sucumbir alguns anos atrás, foi grande demais. Em uma noite ruim, Djokovic viu o sonho do Grand Slam ruir junto com a chance de faturar o 21º slam e deixar Rafa e Roger para trás.

"Alívio", disse o número 1 sobre sua sensação ao fim da partida. E completou: "Fiquei feliz que acabou porque com a escalada para este torneio e tudo que eu tive de lidar mentalmente, emocionalmente durante o torneio, nas últimas semanas, foi demais. Foi muito para controlar."

Mas o que a derrota e o fim do sonho do Grand Slam (pelo menos em 2021) significam? Que Djokovic não é o melhor/maior tenista da história? Que ele ainda não pode ser colocado num patamar acima de Rafa e Roger? Se você, leitor, pensa assim, eu discordo. É óbvio que o Grand Slam seria "o" feito da carreira do sérvio, mas é justo criticá-lo por não ter alcançado o que ninguém alcançou nos últimos 52 anos? Acho que não.

Depois de Wimbledon, escrevi e falei que Djokovic já podia ser considerado acima de seus maiores rivais (veja aqui). Apoiadores do blog sabem minha opinião sobre há um bom tempo. Ano passado, quando Djokovic ainda tinha "só" 17 slams, gravei um episódio do podcast Saque e Voleio em que afirmava que havia argumentos a favor de cada um do Big Three. E sim, já era possível Nole acima de Rafa e Roger mesmo com três slams a menos. Tudo depende de quem olha e dos critérios que prefere adotar.

Logo, se você é do time que já classificava Djokovic como o maior/melhor de todos, não há por que mudar de opinião porque ele perdeu uma final de US Open para um tenista brilhante como Medvedev. O sérvio - nem ninguém - precisa do Grand Slam para estar acima do resto.

Coisas que eu acho que acho:

- Há muitas maneiras de analisar e julgar essa questão do melhor/maior da história. Cada um pode estabelecer seus próprios critérios e chegar a uma certa conclusão. Não há, necessariamente, certo ou errado aqui.

- Há quem diga que o Grand Slam de Djokovic enterraria de vez a discussão, estabelecendo o sérvio como o maior da história. Discordo muito. Se usarmos o Grand Slam como feito tão extraordinário a ponto de colocar Nole, sem sombra de dúvida, à frente de Federer e Nadal, é preciso que deixar o sérvio atrás de Rod Laver, que tem não um, mas dois Grand Slams no currículo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL