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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Marcelo Demoliner: 'zerando' princípios básicos de redes sociais

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Imagem: Divulgação
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

07/05/2021 13h56

Publiquei, na última quinta-feira, um par de tweets sobre como Marcelo Demoliner tratou de forma brilhante nas redes sociais - no caso, em formato de stories de Instagram - sua eliminação na chave de duplas do Masters 1000 de Madri. Aqui, pretendo mergulhar um pouco mais no tema.

Primeiro, para quem não acompanhou ou não segue o tenista gaúcho: ele jogou ao lado do russo Daniil Medvedev e, depois de vencer na primeira rodada, foi eliminado nas oitavas por Wesley Koolhof e Lukazs Kubot: 7/5, 6/7(4) e 10/3. Demoliner esteve bem abaixo do nível em que costuma atuar e foi o primeiro a admitir isso, postando uma foto sua e a frase "Joguei mal, infelizmente."

No dia seguinte à eliminação, em uma das quadras de treino do torneio madrilenho, o gaúcho de 32 anos, atual número 47 do mundo nas duplas, gravou um vídeo falando, entre outras coisas, "A gente perdeu ontem, agora tem que correr atrás da máquina, trabalhar e vamo simbora." Simples e sincero, ainda digerindo a derrota doída do dia anterior. Uma vitória significava 90 pontos a mais para Demo - uma soma nada desprezível.

Sinceridade

O leitor pode estar se perguntando: se a postagem do brasileiro foi "simples e sincera", como acabei de descrevê-la, o que tem de tão brilhante? Bom... Para começar, a simples existência dos posts já foi acima da média. A maioria dos tenistas parece mergulhar num mundo sombrio paralelo após derrotas. Ignoram mensagens, fogem de redes sociais e deixam de responder a seus assessores de imprensa. É como se derrotas viessem junto com um cartão de "passe a vez", que dá ao atleta o direito de não existir por um período de tempo.

Mais: "Joguei mal" é uma frase difícil de encontrar no dicionário do tenista, especialmente se o atleta em questão não faz parte da elite. O tenista "médio", digamos, não gosta de admitir atuações ruins porque: 1) acha isso é ruim para sua imagem. A reação mais comum é o bom e velho "o outro cara não errou nada", que não só não explica fielmente a derrota como deixa no ar outra questão: "O que você deixou de fazer para que o outro jogasse tão bem?"

"Ah, mas tenista dizer que jogou mal é tirar o mérito do outro", pode dizer um fã do tenista silencioso. Não é bem assim. Primeiro porque Demo não disse que perdeu só porque jogou mal. O "só" faz toda diferença na avaliação. Vou além: a frase se justifica totalmente quando alguém jogou mal de verdade - e Demo jogou bastante mal para seus padrões nessa derrota. Resumindo? A sinceridade de Demo é rara, e isso já coloca o gaúcho à frente de muita gente no ranking de princípios básicos de como manter redes sociais.

Empatia

A primeira coisa que todo atleta precisa saber para cuidar de sua rede social é que os seguidores querem conhecê-lo melhor. Sobretudo no Instagram, às vezes esse "conhecer melhor" significa apenas a vontade de ver fotos sensuais. Em outras, a intenção é acompanhar as jornadas e viajar junto com as imagens publicadas ali. No fundo, porém, toda conta ganha valor quando o dono consegue mostrar um pouquinho mais de sua personalidade, e é exatamente isso que Demoliner faz no vídeo do dia seguinte.

Um post de derrota sempre revela mais do que um post pós-triunfo. Uma vitória importante frequentemente vem seguida de frases como "estou feliz demais", "estou sem palavras" e agradecimentos a amigos, patrocinadores, técnicos, etc. Nada de errado com esse tipo de mensagem, mas o que ela mostra aos fãs além do que eles já sabem? Quase nada.

Depois de um revés, o papo é outro. Justamente porque poucos tenistas dão a cara depois de um resultado negativo, os fãs sabem muito pouco sobre como eles reagem. O que pensam? O que comem? Onde vivem? Nem o Fantástico tem essas respostas. Quando Demoliner grava um vídeo assim, encarando a frustração e mostrando seu modo de ser e agir no dia seguinte, novamente ele se coloca à frente dos demais.

Acima de tudo, um post pós-derrota gera empatia. A maioria dos seguidores de um atleta é composta por pessoas "normais". Gente que não tem uma fortuna no banco nem teve sucesso esportivo relevante. A relação atleta-fã é muito mais de admiração do que de identificação. No entanto, quando o ídolo fala de uma derrota, ele aborda um sentimento que todos conhecem. O fã sabe o que é perder - seja no amor, na conta bancária ou na fila da vacina. É esse conteúdo que gera empatia. É aí que o torcedor finalmente se identifica com o atleta. Não há sensação melhor.

Sinceridade e empatia. Nas redes sociais, a relação atleta-fã precisa passar por isso. Demoliner já "zerou" esse game.

Coisas que eu acho que acho:

- Demoliner também tem um canal no YouTube com ótimos vídeos sobre sua vida no circuito. Recomendo bastante (vide exemplo acima).

- Nem todo atleta tem a desenvoltura do gaúcho para se expressar. Tudo bem. Não existe uma fórmula mágica no gerenciamento da imagem de alguém. O desafio é fazer o esportista se mostrar um pouco mais, mas de uma maneira que ele se sinta confortável. Adequar o ritmo de postagens e o tipo de conteúdo à personalidade da pessoa é essencial.

- Usei o exemplo de Demoliner, mas há outros tenistas que administram bem suas redes sociais. No Instagram, também gosto muito de como Carol Meligeni interage com os fãs.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL