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Bruno Soares fala sobre repercussão negativa na quarentena: 'Maldade no ar'

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Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

21/01/2021 11h04

Assim como as outras 1.300 pessoas, aproximadamente, que viajaram para o Australian Open, Bruno Soares está passando pela quarentena exigida pelas autoridades locais. São apenas cinco horas diárias fora do quarto - tempo aproveitado para treinos e atividades físicas - em um ambiente controlado, sem contato com a comunidade de Melbourne.

Desde que chegou o mineiro acompanhou tudo de perto e participou das chamadas em vídeo com outros tenistas e o diretor do Australian Open, Craig Tiley. Bruno viu a repercussão negativa das reclamações de alguns tenistas e também da carta enviada por Novak Djokovic em nome dos atletas pedindo mudanças que ajudassem os 72 tenistas que estão fazendo quarentena dura (24 horas por dia sem sair do quarto) devido aos casos de covid nos voos fretados que desembarcaram em Melbourne.

No meio disso tudo, enquanto o mineiro esperava para mais uma sessão de treino ao lado do britânico Jamie Murray - os dois retomaram a parceria - Bruno e eu trocamos mensagens em uma minientrevista (do tipo que dá para fazer por WhatsApp) e ele fala sobre como houve um exagero - e até um pouco de maldade - na maneira como as manifestações dos tenistas foram tratadas. Atual número 1 do Brasil e 7 do mundo nas duplas, o mineiro também defendeu a postura de Djokovic e disse que não vê problemas no tratamento privilegiado que recebem os seis tenistas que fazem quarentena em Adelaide (Djokovic, Nadal, Thiem, Halep, Osaka e Serena) e puderam levar equipes inteiras, hospedados em melhores condições. Vejam o que ele disse:

Sobre a repercussão negativa em Melbourne

Acho que várias coisas escalaram para uma proporção desnecessária. Tem um pouco de tensão no ar, um pouco de maldade no ar de algumas partes, daquela turma que adora ver o circo pegando fogo e não tenta entender a situação. Acompanhando de perto, a grande maioria dos jogadores é extremamente grata pela oportunidade que eles estão dando de jogar um grand slam dentro dessas condições, dentro da situação e dessa pandemia mundial. É importante falar: tanto no masculino quanto no feminino. A gente está bem isolado aqui por causa da quarentena - a gente está no hotel dos duplistas - mas quando a gente vai treinar e tem a oportunidade de falar de longe com as pessoas, você vê que o clima está super agradável, descontraído, com a turma treinando. Acho que uma minoria ficou um pouco irritada. É compreensível também. Você acaba pegando a pessoa num momento de impaciência ou de frustração ou até de uma certa loucura que bate quando você fica muito tempo trancado. E aí a pessoa às vezes desabafa e a coisa sai um pouco de contexto. O sentimento de agradecimento dos jogadores quanto a isso é muito bacana. Ver tudo que está acontecendo e o que a comunidade, a cidade de Melbourne e o estado têm feito para que esses torneios aconteçam.

Sobre problemas nos primeiros dias da quarentena

Muita coisa do que saiu e do que foi conversado acaba vazando com um contexto diferente. No início, quando a gente chegou, houve, sim, várias coisas que não estavam de acordo com o que a gente tinha escutado. Alguns ajustes precisavam ser feitos, algumas coisas não funcionaram tão bem no início, mas estava sendo feito feito um esforço de todas as partes - ATP, WTA e Tennis Australia - para organizar isso junto ao governo. Isso criou alguns problemas. É importante falar que a maioria das reclamações que eu vi, de pessoas às vezes um pouco frustradas ou pedindo alguma coisa... Foram sempre dentro da bolha, do protocolo de segurança. Era um ajuste de quadra, um atraso do transporte, uma situação que não deu certo... Às vezes, houve um atraso na rotação... Alguém chega meia hora atrasado... Esse tipo de ajuste aconteceu e, na grande maioria, eram coisas internas aqui. Em nenhum momento faltou respeito ao protocolo ou tentaram mudar o protocolo de segurança. Todo mundo [tenistas] tem muito bem claro, desde o início, que o mais importante é a saúde geral e, claro, a saúde da comunidade daqui porque, querendo ou não, a gente está "invadindo"a cidade. São 1.300 pessoas que chegaram dentro de um ambiente de pandemia.

Sobre os privilégios dos tenistas que estão em Adelaide

É uma outra situação, que é um pouco delicada. É normal, é padrão e, na minha opinião, é completamente justo os tops terem privilégios. Eles estão ali por uma razão. Eles têm uma demanda maior, são pessoas que têm um peso maior no nosso esporte e merecem privilégios. Na minha opinião, a situação em Adelaide não me incomoda em absolutamente nada. Em nenhum momento que vou para um torneio, espero ter o mesmo tratamento que Nadal, Djokovic, Thiem, Federer, quem quer que seja, em qualquer situação. A única coisa que eu espero é que as coisas sejam claras e que haja um tratamento justo. Não espero igual. Eles têm prioridades, preferência, estão ali e merecem tudo isso que têm. O fato de eu estar num quarto menor que o do Djokovic, que tem varanda, não me afeta em nada. É uma situação normal, assim como mil pessoas aqui em Melbourne têm quartos melhores que o meu. Se você vir nos vídeos aqui, eu estou num quarto que é bem menor do que o da maioria das pessoas. E é normal. É assim aqui e na grande maioria dos torneios.

Se os outros jogadores reclamaram da diferença para Adelaide

Quanto às reclamações, não vi nada muito forte dos jogadores aqui, não, nos calls e tudo mais. A única coisa que o pessoal estava pedindo era igualdade de treino. Horas fora do hotel. Isso realmente é um pouco complicado porque aqui a gente não tem liberdade de escolha, e as pessoas só podem treinar por duas horas. Isso foi uma coisa que eles pediram. Seria um pouco injusto eles treinarem 3-4 horas lá, e a aqui a gente ter só duas. Com isso, eu concordo. Numa situação normal de um torneio, por mais que eu não consiga treinar numa quadra central por duas horas, eu consigo quadras de treino paralelas se eu quiser treinar mais tempo, 2-3-4-5 horas. Mas com os protocolos de segurança você perde essa liberdade de escolha sobre a quantidade de tempo que você vai treinar. É justo que eles tenham o mesmo protocolo do lado de lá. Agora, pra mim, se viajou de primeira classe ou econômica, o tamanho do quarto do hotel, se tem varanda ou fogão, pra mim isso realmente não faz nenhum sentido uma pessoa reclamar. É assim. Sempre foi e sempre vai ser. Como eu falei: merecido da parte deles porque são os ícones do nosso esporte e merecem esse tratamento diferenciado.

Sobre a carta e se Djokovic ganhou força entre os tenistas

Eu acho que foi mais uma coisa que, pelo calor do momento, acabou saindo um pouco de contexto. Sobre a PTPA [Professional Players Tennis Association, entidade criada pelo sérvio], eu não tenho muita informação porque eu não estou no chat deles. Não sei muito o que está acontecendo por lá. Não sei te dizer se [Djokovic] está mais forte ou mais fraco. O que posso falar é por um sentimento meu porque a gente está isolado, não tem muito contato fora pra conversar com as pessoas e ter esse feeling ao vivo. O que eu percebi da carta dele foram solicitações - sugestões, na verdade, de adaptações das condições dentro da bolha. Em nenhum momento, pensando em correr nenhum risco dentro da comunidade. Era para ajudar aqueles que, infelizmente, foram pegos com a quarentena dura, de ficar 14 dias direto [sem sair do quarto] e, obviamente, pensando no protocolo e na saúde, mas sempre lembrando que a gente vai jogar o primeiro grand slam da temporada em algumas semanas. Então a preparação tem um papel super importante na nossa viagem aqui para a Austrália. A gente não pode confundir. Todo mundo entende, está todo mundo respeitando os protocolos de segurança. Agora... adaptações, melhorias, ajustes dentro da nossa bolha, dentro da nossa capacidade de se preparar, acho que podem ser feitos de uma forma tranquila e sem correr nenhum risco de saúde e, principalmente, sem correr nenhum risco de entrar em contato com a comunidade, com as pessoas que estão aqui na cidade de Melbourne, que estão passando por um momento delicado e ficaram trancadas por muito tempo. A gente não pode, obviamente, causar esse risco para eles. É como eu falei: muita coisa acabou tomando uma proporção que não era para ter. E, falando do Djokovic, minha resposta é essa: foram ideias, sugestões para tentar melhorar as condições para a turma de um modo geral.

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