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Com 72 tenistas confinados, Djokovic pede melhor de três no Australian Open

Carro da polícia vigia o hotel dos jogadores do Australian Open em Melbourne - Getty Images
Carro da polícia vigia o hotel dos jogadores do Australian Open em Melbourne Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

17/01/2021 12h17

O Australian Open sofreu mais um baque neste domingo, com a confirmação de mais um caso de covid nos voos fretados que chegaram a Melbourne. Assim como nos casos anteriores, as autoridades de saúde locais determinaram que todos os 25 tenistas a bordo desse voo, que saiu de Doha, fiquem em quarentena rígida, dentro seus quartos, pelos próximos 14 dias. Com isso, sobe para 72 o número de atletas que estarão confinados antes do primeiro slam do ano.

Diante disso e da crescente desigualdade de condições entre os atletas na preparação para o torneio, Novak Djokovic escreveu uma carta ao diretor do torneio, Craig Tiley, pedindo ajuda e sugerindo mudanças. O número 1 do mundo solicitou, inclusive, que as duas primeiras rodadas do torneio masculino sejam disputadas em melhor de três sets em vez do sistema de contagem tradicional, que é de melhor de cinco sets.

As sugestões de Djokovic foram as seguintes:

- Equipamento de academia nos quartos dos jogadores que precisam quarentenar por 14 dias
- Comida melhor para todos em Melbourne
- Possibilidade de ver seu fisioterapeuta ou técnico no hotel
- Casa separada, com quadra isolada, em condições de bolha, para que os tenistas em quarentena rígida possam treinar
- Negociar com o governo duração menor de quarentena para esses jogadores
- Melhor de três sets nas duas primeiras rodadas

Em todas entrevistas que deu recentemente, Tiley sugeriu estar de mãos atadas, afirmando que todas decisões relacionadas a saúde são das autoridades do estado de Victoria. De fato, o executivo da Tennis Australia passou muito tempo negociando antes de confirmar a realização do Australian Open, e as condições existentes hoje só foram possíveis depois de muito esforço. Um recuo do governo parece improvável. Além da preocupação com o vírus, o primeiro-ministro de Victoria, Daniel Andrews, vem sendo pressionado pela oposição, que é contra a realização do torneio e alega que o Andrews vem tratando os atletas com privilégios que não existem para a população local.

Coisas que eu acho que acho:

- Com a carta, que foi copiada para os tenistas no torneio, Djokovic se coloca mais uma vez na posição de líder de classe, usando seu peso como número 1 do mundo para ajudar tenistas em situação menos confortáveis que a sua. É um gesto que pode, sim, fortalecer a PTPA, associação de jogadores que Nole criou para negociar mais direitos e benefícios para os jogadores.

- Há dois elementos, porém, que jogam contra Djokovic neste episódio. Um deles é o histórico do Adria Tour, circuito organizado pelo sérvio durante a pandemia e que terminou com nove pessoas (entre tenistas e pessoas próximas) contaminadas - sem contar espectadores que podem ter contraído o vírus nas arquibancadas lotadas. Número 1 do mundo ou não, qualquer autoridade australiana pode responder a essa carta com um "quem é esse cidadão para me dizer como agir durante uma pandemia?" E, lembremos, a Austrália é um dos países com menos casos de covid no mundo.

- O outro elemento é a presença de Djokovic em Adelaide, onde apenas seis privilegiados estão quarentenando (Nadal, Thiem, Osaka, Serena e Halep são os outros). Esse grupo não só pôde levar mais acompanhantes como pode levá-los para a quadra (em Melbourne, só vão duas pessoas por vez para quadra). Além disso, há uma academia separada para eles, e os horários são mais flexíveis do que em Melbourne. Logo, se Djokovic buscasse igualdade-igualdade, deveria ter comentado algo antes de ir a Adelaide. Ou, quem sabe, poderia não ter ido a Adelaide. Isso, sim, enfraquece sua posição.

- Enquanto a coisa anda confusa em Melbourne, notem o silêncio em Adelaide. Ninguém de lá vem postando imagens de treino, de almoço, de quarto de hotel... nada. Uma foto de Osaka com sua equipe dentro de uma quadra circulou, e isso gerou reclamações. Desde então, mais nada. A orientação é para que ninguém publique em redes sociais nada que deixe óbvios os privilégios de Adelaide - seja tamanho de quarto, qualidade da comida, horário de academia ou condições de treino.

- O canal 9 News relata que houve duas quebras de regra durante a quarentena. Um atleta abriu a porta do quarto para conversar com um parceiro de treino, enquanto outro "cavalheiro pediu Uber Eats para outras pessoas no mesmo andar" e abriu a porta do quarto para se vangloriar do feito. A polícia aumentou sua presença no hotel, alertou que vai aplicar multas de até 20 mil dólares a quem quebrar as regras da quarentena e ameaçou até mudar os atletas de hotel, colocando os infratores sob guarda policial.