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WTT expulsa tenista que furou 'bolha' e dá bom exemplo (que US Open ignora)

Divlugação/World Team Tennis
Imagem: Divlugação/World Team Tennis
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

21/07/2020 11h11

O World Team Tennis, super tradicional torneio de exibição realizado todo ano durante o verão nos Estados Unidos, divulgou um comunicado na noite desta segunda-feira anunciando a expulsão da tenista Danielle Collins, atual #51 do mundo. Segundo a organização, ela quebrou os protocolos de covid-19 do evento ao sair do Greenbrier Resort e do estado de West Virginia, onde o WTT está sendo realizado este ano.

"Os protocolos foram estabelecidos e informados várias vezes para proteger a saúde e a segurança de nossos jogadores, técnicos e funcionários, que são da maior importância para o WTT", finaliza o texto, assinado pelo CEO do evento, Carlos Silva. O comunicado reforça ainda que a tenista americana foi dispensada até o fim da temporada, ou seja, sem retorno este ano.

Mais do que punir Collins, o WTT deu um recado importante para seus atletas e, por que não, para o resto do mundo. A expulsão da americana significa que o torneio coloca acima de tudo a preocupação com a saúde dentro dos protocolos que foram estabelecidos pela organização quando chegaram à conclusão que seria possível fazer o WTT em 2020 com alguma segurança - e digo "alguma" porque já ficou bem claro que nenhum evento é 100% seguro, justamente por depender de fatores como o comportamento do próprio ser humano.

Ao furar a "bolha", Collins quebrou as regras do evento, colocou-se em risco (ainda que ela mesma possa acreditar que não) e colocaria todos demais envolvidos no torneio em risco ao retornar. Afinal, poderia ter contraído o coronavírus e contagiaria outros muito antes de apresentar qualquer sintoma de covid-19. Os organizadores agiram rápido e expulsaram Collins.

O exemplo do WTT é simples: uma vez criada, a "bolha" precisa ser respeitada. É muito diferente do Adria Tour, que não tinha nenhuma espécie de restrição aos atletas, mas serve de lição para o US Open, que deixou para trás o conceito de bolha na tentativa de atrair mais nomes de peso para o torneio.

A ideia inicial da USTA era confinar todos tenistas em um hotel, limitando o número de acompanhantes de cada atleta, e estabelecendo que todos só poderiam transitar no roteiro hotel-torneio-hotel. A proposta foi mal recebida por gente como Rafael Nadal e Novak Djokovic, acostumados a viajar para os slams com mais de um técnico, fisioterapeuta e preparador físico pessoais e familiares. A USTA, então, recuou, e permitiu que atletas possam levar mais pessoas e alugar casas fora de Manhattan. Com isso, perde-se o controle do quem-vai-estar-onde e agora cada um vai aonde quiser.

Logo, acabou o conceito de "bolha" no US Open. Em vez de estabelecer um protocolo rígido e aplicar regras rígidas - o que parece necessário em uma pandemia e num evento com mais de 500 pessoas viajando de partes diferentes do mundo - a USTA está confiando no bom comportamento de atletas. O problema é um só - e grande: se cinco meses de pandemia nos ensinaram algo, é que não se pode confiar 100% no bom julgamento do ser humano. O exemplo que o US Open não vai seguir pode colocar muita gente em risco e afastar muitos tenistas do torneio deste ano.

Coisas que eu acho que acho:

- A ironia: quando Djokovic reclamou da sugestão da USTA de limitar acompanhantes de tenistas, Danielle Collins publicou um texto criticando o número 1 do mundo e dizendo que o US Open seria uma ótima oportunidade, com "algumas medidas de precaução rígidas para garantir que todos jogadores se sintam seguros e que sua saúde é prioridade." Hum.

- Na manhã desta terça, veio o anúncio de que o ATP 500 de Washington está cancelado. O evento, marcado para começar no dia 14 de agosto, seria o primeiro do circuito masculino após a paralisação. Pode ser o primeiro sinal do fim da sequência de torneios nos EUA.

- Importante saber: o US Open continua confirmado - por enquanto - junto com o torneio de Cincinnati, que este ano será jogado em Nova York, no mesmo complexo do slam americano. Até o fim deste mês, a ATP tomará uma decisão definitiva sobre os dois torneios.

- Hoje, os casos de covid-19 no estado de Nova York são poucos, mas isso faz pouca diferença para a realização do US Open no momento. Há, basicamente, dois problemas grandes: 1) o eterno risco de juntar tanta gente vindo de lugares diferentes; e 2) a necessidade de respeitar uma quarentena de 14 dias na Europa para quem sair do US Open. Com a combinação calendário+restrições da União Europeia, quem ficar no US Open até o fim não poderá jogar em Roma e Madri. Talvez não seja por acaso que Rafael Nadal e Stan Wawrinka já estejam batendo bola no saibro. Com o US Open indo adiante, o que pode muito bem acontecer (Serena quer jogar, e isso tem um peso considerável), é de se esperar um grande número de desfalques entre os europeus.

- Para os brasileiros, há um monte de incertezas, a começar pela entrada nos EUA. A ATP negocia com o governo americano a livre entrada de atletas e parece que este acordo está perto de ser confirmado. No entanto, ainda que gente como Bruno Soares, Marcelo Melo, Marcelo Demoliner e Thiago Monteiro possa disputar o US Open, restará a dúvida sobre a quarentena e os torneios em território europeu.

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