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Comovente carta de argelina expõe dramas do tênis (e o que Thiem tem a ver)

Tenista argelina Ines Ibbou - Reprodução/YouTube
Tenista argelina Ines Ibbou Imagem: Reprodução/YouTube
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

12/05/2020 04h00

Tênis profissional é para poucos. Poucos talentosos, poucos esforçados e, sim, poucos privilegiados que têm condições financeiras ou recebem ajuda para os primeiros passos no mundo do alto rendimento. E isso fica mais claro do que nunca na carta aberta escrita (e postada em vídeo) pela jovem argelina Ines Ibbou, de 21 anos e atual número 620 do ranking.

A tenista se dirige diretamente ao austríaco Dominic Thiem, número 3 do mundo aos 26 anos e que já acumula US$ 23 milhões em prêmios na carreira. Ines relata que, após ler a "última declaração" de Thiem, ficou imaginando como seria sua carreira se estivesse no lugar do austríaco. Thiem disse, entre outras coisas, que não gostaria de dar dinheiro para tenistas de ranking mais baixo e que preferia fazer doações a instituições ou a pessoas que realmente precisam do dinheiro (reproduzo a declaração na íntegra e comento seu contexto mais adiante neste post).

Diante disso, Ines relata todos obstáculos que teve de ultrapassar para fazer uma carreira no tênis, incluindo machismo em um país com estrutura tenística quase inexistente. Segundo a atleta, a Argélia não tem quase nenhum torneio juvenil, nenhum técnico de nível internacional, quadras ruins, e nenhuma quadra coberta. "Se chover por uma semana, nós treinamos o backhand na academia".

Ines conta que foi a juvenil número 23 do mundo, mas não conseguiu nenhum patrocinador nem recebeu ajuda da federação de seu país. Calçados esburacados, lesões, gastos com passagens aéreas e vistos de entrada em países, gastos com hospedagem longe de casa… Por fim, a argelina declara que "a quadra deveria decidir o futuro de minha carreira - não minhas finanças" e escreve: "Caro Dominic, diferentemente de você, muitos compartilham a minha realidade."

Ines também lembrou que ninguém pediu nada a Thiem. "A iniciativa surgiu de jogadores generosos que mostraram compaixão com um toque de classe. Jogadores que gostariam de espalhar solidariedade e encontrar soluções para fazer uma diferença. Campeões a todos os custos." Ela encerra a carta declarando: "Dominic, ninguém lhe pediu nada, a não ser um pouco de respeito ao nosso sacrifício. Jogadores como você me fazem agarrar meus sonhos. Por favor, não arruine isso."

O que Thiem tem a ver?

Algum tempo atrás, Novak Djokovic revelou um plano para ajudar financeiramente tenistas de ranking inferior durante a pandemia do novo coronavírus. A ideia consistia em cada tenista do top 100 doar um valor para formar um montante que, mais tarde, seria distribuído entre atletas de ranking abaixo de 250. Os jogadores do topo doariam cerce de US$ 30 mil cada, enquanto atletas ranqueados entre 50 e 100 do mundo cederiam US$ 5 mil cada.

Thiem não concordou com a ideia e deixou isso claro em uma entrevista ao tabloide austríaco Kronen Zeitung. A resposta de Thiem é a seguinte: "Nenhum desses caras no topo ganhou isso de presente. Todos esses caras tiveram de lutar para chegar lá. Além disso, é preciso ser honesto, nenhum desses tenistas que estão lá atrás no ranking está necessariamente lutando por sua vida. Nenhum deles vai morrer de fome. E eu conheço o circuito Future muito bem porque joguei ali por dois anos. Há, certamente, muitos jogadores que não sacrificam tudo, sua vida toda, ao esporte, que não vivem tão profissionalmente e não praticam o esporte tão profissionalmente como deveriam. E, para ser honesto, eu não vejo por que deveria dar meu dinheiro para jogadores assim. Então, sendo honesto, prefiro, portanto, dar meu dinheiro a organizações que realmente precisem do dinheiro."

Coisas que eu acho que acho:

- A crítica que pode ser feita a Thiem é que ele analisa a questão baseado em uma minoria, que é a turma que não se dedica tanto quanto deveria e que passa anos e anos jogando Futures quando poderiam alcançar torneios maiores se mostrassem maior profissionalismo ao longo dos anos. Como Ines ressalta, há muitos tenistas em situações parecidas com a dela: sacrificando tudo, mas lutando contra "o sistema", sem dinheiro e as condições ideais para evoluir na profissão - e esse raciocínio vale para todas profissões.

- Por outro lado, Thiem não generaliza. Em momento algum, ele diz que todos tenistas do circuito Future são pouco profissionais ou algo do gênero. O austríaco fala que são "muitos", mas não muitos não são necessariamente a maioria. E se ele acha que não deve dar dinheiro porque parte dessa verba vai chegar aos bolsos desses "não-tão-profissionais", é um raciocínio que me parece bastante válido - ainda que, como escrevi no parágrafo anterior, ele esteja baseado na minoria.

- Quando Thiem fala que nenhum tenista de ranking inferior "vai morrer de fome" ou "está lutando por sua vida", é uma declaração que precisa ser entendida em seu sentido literal. Realmente, ninguém nesse grupo de atletas vai morrer de subnutrição ou de frio no inverno siberiano. As dificuldades financeiras que Ines Ibbou enumera (e que Thiem possivelmente conhece) são relacionadas à sua carreira, não à sua sobrevivência. São coisas distintas, que requerem avaliações logicamente diferentes.

- O que acho disso tudo? A carta é linda, comovente e realmente expõe o dia-a-dia de muitos tenistas mundo afora. Por outro lado, ela ataca Thiem como se o austríaco desconhecesse esses problemas ou tivesse generalizado, rotulando todos de ranking inferior como não-tão-profissionais. Não é o caso. Repito: Thiem dá uma declaração baseado em uma minoria, mas em momento algum coloca todos grãos no mesmo pote.

- Sobre os "não-tão-profissionais": sim, eles existem e todo mundo sabe disso. Quem já acompanhou Futures - atualmente chamados W15 e M15 - sabe quem treina sob sol, quem estuda os adversários e se prepara para entrar em quadra na melhor das condições. E também sabe quem cancela treino quando está quente, quem passa o dia inteiro no clube batendo papo e quem pede pizza na porta do hotel à meia-noite mesmo sem ter jogado na rodada noturna.

- Agradecimento: para não correr o risco de distorcer ou descontextualizar a declaração de Thiem, consultei duas traduções diferentes. A segunda veio da jornalista brasileira Amanda Previdelli, que mora em Viena. Fica aqui meu muito obrigado a ela.

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