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O tênis parou, mas e os rankings? Veja três cenários possíveis

Arquivo/Reuters
Imagem: Arquivo/Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

17/03/2020 04h00

A pandemia do coronavírus (covid-19) parou o tênis. Primeiro, no dia 12, a ATP determinou a interrupção imediata de seus torneios (ATPs e Challengers) e avisou que não haverá atividade até pelo menos o dia 27 de abril. Mais tarde, no mesmo dia, a Federação Internacional de Tênis (ITF) informou que seus eventos (Fed Cup e WTT) ficarão parados pelo mesmo período - no mínimo. Finalmente, nesta segunda-feira, dia 16, a WTA, que vinha postergando uma decisão mais firme, anunciou que o circuito feminino ficará parado até pelo menos o dia 2 de maio.

Ninguém joga, ninguém ganha (nem gasta) dinheiro, ninguém soma pontos no ranking. Mas e os pontos do ano passado? O que fazer com eles? Quem conquistou Indian Wells em 2019 (Dominic Thiem e Bianca Andreescu) perderá mil pontos sem a chance de defender o título e a pontuação? Ou será que os rankings devem ser congelados até o retorno do circuito? Mas isso também não impede que tenistas subam e ganham posições? Não existe resposta fácil e, provavelmente, qualquer decisão tomada por ATP e WTA vai deixar um grupo insatisfeito. Talvez por isso as entidades ainda não tenham determinado o que vai acontecer de verdade. Enquanto não há uma decisão, vejamos três cenários possíveis.

Rankings correndo normalmente

Quando um torneio deixa de existir, seu campeão perde os pontos no ano seguinte, sem a chance de defendê-los. É o procedimento padrão. Azar de quem jogou no ano anterior. Os tenistas que busquem outro evento na mesma data para tentar repetir a pontuação, mesmo em um lugar diferente. Em tese, acontecerá o mesmo com os pontos de Indian Wells na próxima segunda-feira - a não ser que ATP e WTA determinem algo diferente. É, repito, o procedimento padrão. Azar de Thiem e Andreescu e de quem mais jogou bem no torneio californiano em 2019 (no caso da canadense, o prejuízo não é tão grande porque ela está lesionada e não competiria de qualquer modo).

Obviamente, o cenário de 2020 não tem nada de padrão. Além de Indian Wells, o circuito deixará de ter Miami, além de Houston, Monte Carlo, Barcelona e Budapeste na ATP, e Charleston, Stuttgart, Istambul e Praga na WTA - no mínimo, além, claro, dos Challengers e WTTs (antigos Futures).

Quem ganha com isso? Quem não foi bem em Miami e nos outros torneios do ano passado. Essa turma pode subir no ranking apenas com a queda de rivais que não poderão defender seus pontos. Quem perde? Para começar, a fidelidade dos rankings. Sem computar parte da temporada (e já há motivos para crer que a parada pode afetar Madri, Roma e Roland Garros), as listas eventualmente vão deixar de refletir a realidade anual do circuito. Além disso, perdem, obviamente, os campeões, vice, semifinalistas, etc. Por isso, muita gente defende uma alternativa, que seria…

'Congelamento' dos rankings

A opção que vem sendo mais cogitada recentemente é o congelamento dos rankings. Isso significaria a repetição dos pontos conquistados em 2019 nos torneios que não forem disputados em 2020. Assim, Thiem, por exemplo, manteria os 1000 pontos de Indian Wells até o fim do torneio californiano de 2021.

Quem ganha? A maior vantagem seria de Roger Federer e Bianca Andreescu. Lesionado, o suíço passou por uma cirurgia no joelho e já havia avisado que só voltaria a competir na temporada de grama. Logo, perderia, por exemplo, os 1.600 pontos que conquistou em Indian Wells (vice) e Miami (campeão) no ano passado. Se o ranking for congelado, ele manterá pontos que perderia com o andar normal do circuito. O mesmo vale para Andreescu, campeã de IW em 2019. Ganham também os protagonistas de resultados improváveis, como Fabio Fognini e Dusan Lajovic, campeão e vice, respectivamente, do Masters 1000 de Monte Carlo. Para Lajovic, os 600 pontos conquistados no torneio monegasco significam a diferença entre ocupar atualmente o 23º posto no ranking e despencar para fora do top 40.

Quem perde? A turma de baixo. Com o ranking estático, muitos tenistas perdem parte da temporada em que poderiam ter brigado para mudar o panorama. Isso vale para os tenistas fora do top 50, que brigam por lugares nos Masters 1000, e muito mais ainda para quem está além do 104º posto e precisa entrar na zona de classificação para os slams. Ficar entre os 104 e disputar os quatro maiores torneios do circuito significa embolsar pelo menos US$ 200 mil por ano, e isso faz uma diferença estrondosa nas finanças de alguém. Além disso, perdem também os tenistas que normalmente vão bem nesses torneios, mas, por algum motivo, não renderam bem em 2019. Nadal, por exemplo, conquistou Monte Carlo 11 vezes, mas caiu na semi no ano passado. Em Barcelona, ele também soma 11 títulos, mas perdeu na semi em 2019. Rafa, contudo, se beneficiará se a pausa se estender a Roma e Roland Garros, onde ele foi campeão no ano passado.

A volta de um ranking de entradas

John Isner, integrante do Conselho dos Jogadores, pediu opiniões via Twitter, perguntando a seus seguidores se ATP e WTA deveriam congelar os rankings ou deixar os pontos caírem. O mais provável, como ressaltei na abertura deste post, é que qualquer decisão deixará um grupo insatisfeito. Há, porém, uma opção que pode aliviar parte do problema.

A criação de um ranking de entradas provisório resolveria pelo menos a questão dos cabeças de chave. Neste caso, a ATP voltaria a funcionar com dois rankings, o que já aconteceu. No ranking "de fato", os pontos cairiam, mas o ranking de entradas provisório manteria por um tempo previamente determinado os pontos de 2019 dos torneios não disputados em 2020. Isso asseguraria aos líderes do ranking atual sua vantagem na determinação dos cabeças de chave dos torneios seguintes à paralisação.

Ideal ou não (é sempre confusa para o fã a coexistência de dois rankings), um ranking de entradas provisório pode acabar sendo necessário, dependendo de quanto tempo o circuito mundial ficará parado. Quanto mais tempo passar até o retorno dos torneios, mais pontos cairão, e o ranking "de fato" refletirá menos e menos o que seria um ranking normal de 52 semanas. O ranking de entradas traria certo equilíbrio, ajudando a determinar quem pode jogar quais torneios e quem seriam os devidos cabeças de chave.

Coisas que eu acho que acho:

- A partir do momento em que Indian Wells foi cancelado, não existe mais cenário ideal. Com a interrupção de mais seis (sete no caso da WTA) semanas de torneios, tudo ficou ainda pior. Nenhuma solução será perfeita. Resta saber o que entidades e atletas vão considerar como melhor cenário para causar o menor prejuízo possível para a maioria dos profissionais do tênis.

- A parada causa todo tipo de consequência, como abordei no podcast Saque e Voleio. O episódio mais recente, publicado antes da paralisação total do circuito, trouxe um depoimento de Fernando Romboli sobre o quanto a falta de torneios vai afetar financeiramente quem não está na elite nas simples. Pois nesta segunda-feira, o carioca, atual #93 no ranking de duplas, postou em sua conta no Instagram um anúncio, disponibilizando-se para dar aulas e clínicas até o circuito volte ao normal. Cada um faz o possível para pagar suas contas.

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