PUBLICIDADE
Topo

Sharapova se aposenta: um fim melancólico para um sonho americano

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

26/02/2020 12h25

Em um texto publicado nos sites da Vogue e da Vanity Fair, Maria Sharapova, 32 anos, cinco títulos de slam no currículo, anunciou sua aposentadoria do tênis profissional. Sem jogo de despedida - daqueles com direito a vídeos das colegas de profissão rolando no telão, sem interação com seus fãs, sem citar a suspensão por doping.

Nesta quarta-feira, a milionária russa deu adeus ao esporte sem um último brilho, sem responder perguntas, sem uma coletiva num lugar com um tapete bonito. Sua última imagem veio no formato de um vídeo publicado nos sites das revistas. Cabelo feito, batom nos lábios, maquiagem no rosto, sentada numa poltrona chique lendo e comentando trechos de sua carta. Uma imagem tão marqueteira quanto tudo que veio de Sharapova no pós-doping.

Sim, o pós-doping foi muito mais fora do que dentro das quadras. Uma lesão no ombro impediu que Sharapova tivesse mais chances de mostrar que era capaz de render em quadra o mesmo que antes. Foram essas dores o motivo citado pela russa para o fim da linha. E foi assim, ocupando o 373º posto no ranking mundial, com apenas duas vitórias em sete torneios disputados nos últimos 12 meses, que veio o ponto final.

É um fim triste para uma carreira que, meldonium ou não, teve muito brilho dentro de quadra. A história de Sharapova é a história do sonho americano, o conto do imigrante que viaja para a "América" atrás de seus sonhos. Maria chegou com o pai, ambos sem falar inglês, para jogar tênis. Por problemas de vistos, a mãe ficou na Rússia. Todo mundo ralou muito, e o resultado foi uma carreira de enorme sucesso, com cinco slams, 36 títulos no total e 21 semanas somadas (em quatro passagens) como número 1 do mundo.

Dentro de quadra, Sharapova ganhou a vida com um jogo extremamente agressivo, com direitas e esquerdas violentas. Era um tênis pouco versátil, que deixava a desejar em variações e subidas à rede, mas Maria compensava seus defeitos com uma garra impressionante e uma força mental invejável. "Competidora" sempre foi a palavra usada em seus dias ruins. A capacidade de se manter nas partidas enquanto jogava abaixo de seu melhor lhe deu muito mais do que o aspecto técnico de seus golpes permitiria por conta própria. Nisso, Sharapova sempre foi um exemplo.

A russa nunca foi muito querida nos vestiários (o que explica o minúsculo apoio que recebeu durante sua suspensão por doping), mas foi sempre temida. Não gostava de perder, dava indiretas nas coletivas, fazia piada das rivais derrotadas. Incomodava tanto que "ganhou" a ira eterna de Serena Williams. A gigante de sua geração sempre apareceu para jogar quando teve Sharapova do outro lado da rede. A rivalidade, apesar do histórico de 20 a 2 para a americana nos confrontos diretos, sempre existiu.

O tempo passou, e o tênis feminino evoluiu. A pancadaria pura de Sharapova - mesmo a Sharapova que incorporou curtinhas e aprendeu a deslizar no saibro - deixou de ser dominante. Veio a suspensão por doping e, ausência de meldonium ou não, os resultados de antes não se repetiram. A lesão no ombro se encarregou de acelerar um processo inevitável.

Sharapova teve (e tem) ainda mais sucesso fora de quadra. Na moda, como garota-propaganda ou como empresária, fez muito dinheiro. E deve continuar assim no pós-tênis, seja no Shark Tank (ela aparece no episódio de 28 de fevereiro), supervisionando sua marca de doces ou onde quer que ela resolva investir seu dinheiro e seu tempo. Maria é inteligente e tem bons contatos. Além disso, o instinto de "competidora" ainda está lá. O triste fim da carreira no tênis pode ser o início de outras empreitadas de sucesso.

Coisas que eu acho que acho:

- Ainda que meldonium fosse uma substância permitida até pouco antes do exame antidoping que terminou com a suspensão de Sharapova (um gancho de dois anos que foi posteriormente reduzido para 15 meses), a infração existiu. Sharapova comemorou a redução da pena como se fosse uma prova de sua inocência, mas a realidade ficou longe disso.

- Para os tenistas (ou, pelo menos, a grande maioria deles), o que importa mesmo é o reconhecimento de seus colegas de profissão, o respeito adquirido ao longo da carreira. O fato de Sharapova ter sido "condenada" e rotulada como trapaceira nos vestiários pesa muito - ainda que ela tente passar uma imagem muito diferente disso.

- Acho que vale citar aqui o caso recente de Bia Haddad, suspensa do circuito por dez meses em um caso de doping. A paulista foi ao Bandsports e se disse "inocentada", mas não dá para comprar essa versão adjetivada dos fatos. A ITF considerou que a brasileira não teve intenção de consumir as substâncias proibidas ou de ganhar vantagem esportiva, mas aplicou a suspensão porque Bia sabia (ou deveria saber) do risco de consumir suplementos fabricados por farmácias de manipulação. Cometeu uma infração. Todo atleta é responsável pelo que entra em seu corpo. Ninguém é inocente com dez meses de suspensão.

- Aproveitando o embalo: em papo com jornalistas no Rio Open, Thiago Monteiro disse que parou de consumir suplementos feitos em farmácias de manipulação desde que Marcelo Demoliner foi suspenso (depois disso, outros quatro brasileiros foram punidos pelo mesmo motivo). O cearense conhece o risco. Sua namorada também deveria conhecer.

Torne-se um apoiador do blog e tenha acesso a conteúdo exclusivo (posts, podcasts e newsletters semanais) e promoções imperdíveis.

Acompanhe o Saque e Voleio no Twitter, no Facebook e no Instagram.

Saque e Voleio