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REPORTAGEM

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COB contrata Ney Wilson e promove afilhado de Paulo Wanderley a diretor

Keiji Saito e Ney Wilson, novos diretores do COB - Divulgação
Keiji Saito e Ney Wilson, novos diretores do COB Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

24/03/2022 11h18

O Comitê Olímpico do Brasil (COB) confirmou, na manhã desta quinta-feira (24), o que o Olhar Olímpico antecipou mais cedo. Ney Wilson, depois de 21 anos como coordenador de alto rendimento, foi contratado para ser diretor de Esporte do COB, dividindo a área com um afilhado político de Paulo Wanderley, Kenji Saito, de quem o cartola inclusive foi padrinho de casamento. Os dois vão dividir o trabalho que fazia Jorge Bichara, demitido na terça-feira, fazia.

O anúncio veio durante uma manifestação maciça de atletas nas redes sociais a favor de Bichara, com postagens emocionadas em defesa dele feitas por campeões olímpicos como Thiago Braz, Martine Grael e Rebeca Andrade. Bernardinho cobrou que "os dirigentes do esporte" tivessem a grandeza de "reverter essa decisão" e dar apoio a Bichara rumo a Paris.

Mas não foi isso que fez o COB, em decisão que confirma o aumento da influência da "República do Judô" dentro do COB. Uma vez na presidência do COB, que assumiu no fim de 2017, Paulo Wanderley, ex-presidente da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), levou várias pessoas do judô para o comitê, entre eles Rogério Sampaio (de quem foi treinador), para ser o CEO, e Manoela Penna, como diretora de comunicação e marketing, entre muitos outros nomeados em cargos estratégicos. É uma influência tão grande ou maior do que a "turma do vôlei" tinha na gestão Nuzman.

O único cargo importante no qual Paulo Wanderley não havia feito grandes mudanças era a diretoria de Esporte, apenas promovendo Bichara, no início de sua gestão, para o lugar de Agberto Guimarães, que era próximo a Nuzman. Bichara também era herança de Nuzman, mas tinha um perfil técnico, estando no comitê desde 2005. Mesmo sem ser aliado de Paulo Wanderley, ficou no cargo porque os resultados obtidos pelo país vinham melhorando. Em 2019, o Brasil bateu recorde de medalhas no Pan. Em 2021, na Olimpíada.

Mas o presidente e o diretor entraram em rota de colisão quando Paulo Wanderley quis ampliar o espaço da República no Judô no COB, principalmente através de Kenji Saito, então gerente de desenvolvimento esportivo, e Christian Trajano, diretor de educação e controle de doping. No fim do ano passado, o presidente sugeriu que a diretoria de Bichara fosse dividida em duas, separada em treinamento esportivo e ciência do esporte, e o diretor disse que, se fosse assim, ele poderia ser demitido. A ideia era tornar Christian, amigo da família de Paulo Wanderley, diretor.

Incomodado com a relação próxima entre Bichara e o vice Marco La Porta, que pretende ser candidato na eleição de 2024, Paulo Wanderley pode argumentar que levou a sério aquela fala. Na terça, demitiu Bichara, causando péssima repercussão entre atletas e dirigentes. Como resposta, nesta quinta, anunciou como novo diretor o único profissional que acalmaria os ânimos, porque tem histórico de vitórias, também: Ney Wilson.

Ney só foi à sede do COB ontem, depois da demissão repentina de Bichara, mas sua saída CBJ já estava encaminhada há algum tempo. No lugar dele, no comando da seleção de judô, deverá ficar Marcelo Theotônio, que hoje coordena as seleções de base.

Paulo Wanderley e o novo diretor trabalharam juntos por mais de 15 anos na CBJ. Na virada do século, foram os principais responsáveis por acabar com a dinastia da família Mamede na confederação de judô, junto com Aurélio Miguel. Então presidente da federação do Espírito Santo, Paulo Wanderley foi o escolhido pelo grupo para ser candidato único à presidência da CBJ, enquanto Ney, ex-comandante da federação do Rio de Janeiro, foi contratado como coordenador técnico, cargo que ocupava até hoje.

Mas, no que deve gerar muitas críticas negativas, Paulo Wanderley também promoveu Kenji Saito, considerado por muitos como "ruim de trabalho" — a reportagem ouviu essa exata expressão de quatro pessoas. Na CBJ, Kenji foi coordenador técnico das categorias de base entre 2010 e 2014 e é tido como diretamente responsável pela dificuldade que o Brasil teve de renovar sua seleção adulta nos últimos anos. Nos bastidores, Ney Wilson, agora seu par, culpava Kenji por essa renovação falha.

Quando foi contratado pelo COB em 2018, pelo que apurou a coluna, Kenji sequer tinha cargo. Ganhou primeiro uma mesa, depois uma função: cuidar da gerência de desenvolvimento esportivo. Com canal direto com Paulo Wanderley, responsável muitas vezes por levar de volta a moto do presidente para a casa dele, no fim do dia de trabalho, conseguiu, nos últimos anos, derrubar desafetos como André Mattos, que cuidava dos Jogos Escolares. Bichara, superior dos dois, teve de demitir Mattos a contragosto. No fim de semana, Kenji já sabia que Bichara, seu chefe, seria demitido.